Operação do BOPE deixa 4 mortos, 4 feridos, milhares de crianças sem aulas e postos de saúde fechados na Maré

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Fotos: Douglas Lopes

Em 06/11/2018 – Por Jessica Pires, Eliane Salles e Dani Moura

Mais uma operação deixa moradores da Maré em pânico, milhares de crianças fora da escola e outros tantos moradores sem atendimento médico. Um pouco depois da meia-noite de hoje (06), Caveirões do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar (COE), que incluem Batalhão de Operações Especiais (Bope), o Batalhão de Choque e o Batalhão de Ações com Cães, deflagraram uma operação policial nas favelas Parque União, Parque Maré, Rubens Vaz e Nova Holanda. A ação, que segundo a polícia, foi de emergência, teve, mais uma vez, um resultado catastrófico. Até momento (17h), registram-se oito vítimas (quatro mortos e quatros feridos) entre elas um professor e um jovem que sofria de transtornos mentais. ​
Apesar da declaração do major Ivan Blaz sob a legalidade da operação, a mesma desrespeita os pontos estabelecidos na Ação Civil Pública (ACP), firmada em julho de 2017. A ACP tem por objetivo reduzir danos causados pelas operações à população local e estabelece algumas regras a serem seguidas como o fato de não poderem ser realizadas juntamente com a execução de mandados de busca e apreensão. Embora a ação tenha sido caracterizada como de urgência e emergência, pela ACP ela não poderia realizar invasões a domicílio de madrugada e uma série de outras violações de direitos. Outro ponto assegurado na ACP é que as viaturas policiais têm de estar equipadas de câmeras de vídeo e áudio, além de GPS; e ambulâncias devem estar nas imediações para socorrerem possíveis vítimas. Todas essas cláusulas foram descumpridas. ACP, intermediada pela Defensoria Pública do Estado, é um documento legal firmado entre representantes da Maré e o Comando das Polícias Civil e Militar.​

Ação Civil Pública (ACP), firmada em julho de 2017

Familiares e moradores protestam contra truculência​
Por volta de oito horas da manhã, a Redes da Maré foi chamada por moradores que identificaram uma pessoa baleada, ferida e amarrada na Rua Teixeira Ribeiro, na Nova Holanda. A rua é o principal acesso à favela e centro comercial da comunidade. Ao chegar ao local, a equipe identificou o óbito e acionou de imediato o Ministério Público e a Defensoria Pública Estadual. O corpo era de Willian Figueira de Oliveira, de 36 anos, professor de Física que morava na Maré há 11 meses e trouxe sua esposa do Nordeste, na última semana. Há relatos que o homicídio ocorreu por volta das 5h e embora o “Caveirão” tivesse passado duas vezes pelo local, nenhum comunicado havia sido feito para que a Delegacia de Homicídios enviasse a perícia ao local. Outro corpo levado, em outro momento, à Avenida Brasil foi o da moradora conhecida, até o momento, apenas como Zezé.​
Como forma de protesto, moradores levaram o corpo de William num carrinho até a Avenida Brasil. Segundo os moradores, ação foi consequência do descrédito sobre a possibilidade da Polícia Civil entrar na favela para realizar a perícia e remoção dos corpos. O não informe das mortes por parte da Polícia Militar do Rio de Janeiro também fere a Ação Civil Pública e a Constituição, que estabelecem a necessidade da comunicação imediata de um óbito à Delegacia de Homicídios. A Polícia Civil só foi informada dos homicídios às 10h e pela Redes da Maré.​

Mortos e feridos​
Até o momento, foram confirmadas quatro mortes. São eles: Marcos Paulo Fernandes Mota (que passeava com o cachorro quando foi alvejado); Tiago Ramos Pereira; o professor William e uma moradora identificada apenas Zezé. Não há, até o momento, confirmação que as vítimas tivessem ligações com ações criminosas. Os feridos já identificados são: Lenilson Viana da Costa, Raul Seixas Pereira Ribeiro, Rodson Gomes e Daniel (que sofre de transtorno mental).​
Segundo a Polícia Militar, desde o início da operação, foram apreendidos cerca de 300 quilos de drogas, um fuzil de airsoft, dois canos de fuzil calibre 7.62, uma granada, um colete à prova de balas e uma luneta. A PM se abstém de contabilizar mortes, escolas sem aulas, postos de saúde sem atendimento, prejuízos ao comércio fechado, além de outras violações de direitos, como a revista, sem mandado, a casas de moradores. “A polícia sempre chega no clarear da manhã. Essa é a primeira vez que vejo a polícia chegando assim à noite. Até achei que fosse briga de facção. Ninguém dormiu”, comentou Isabel Ignácio (52).​
A Redes da Maré segue acompanhando a operação e em plantão para recebimento de informações e denúncias pelo Maré de Direitos, telefone: (21) 99924-6462.​