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Gabi (em pé, de bermuda) e jovens do Transitando: descobrindo o Rio | Foto: Maria Morganti

Jovem cria projeto para incentivar moradores da Maré a conhecerem sua cidade; “Transitando” já financiou a ida de jovens a museu, show e até ao Cristo Redentor

Maré de Notícias #96 – janeiro de 2019

Por: Maria Morganti

Em 2014, mais de 11% do total dos quase 95 mil moradores da Maré com mais de 16 anos saíam raramente ou quase nunca do bairro. Os dados são da “1ª Amostra sobre mobilidade Urbana na Maré”, realizada por uma parceria entre a Redes da Maré, o Observatório de Favelas e o Centro para Excelência e Inovação na Indústria do Automóvel. Na época do estudo, Gabrielle de Souza Vidal, moradora da Nova Holanda, tinha só 14 anos. Em 2018, com 18, Gabi, como é mais conhecida, criou um projeto que deu oportunidade para jovens mudarem essa realidade. “O Transitando foi um projeto que eu inscrevi a partir do programa Active Citizens, uma parceria entre o Consulado Britânico e a Redes da Maré, para mobilizar os jovens e adolescentes a saírem mais da comunidade onde moram. Por exemplo, eu moro aqui na Nova Holanda e eu sempre tive muita liberdade de sair, de ir ao centro da cidade, ao museu, e vi que muitos jovens, muitos adolescentes que eu conheço falavam: ‘nossa, Gabi, você sai muito!’ E eu falava: ‘Gente, por que vocês não vão comigo?’ E eu via que muita gente tinha limitação financeira. Por isso, eu pensei: ‘cara, se esse projeto passar, eu vou tentar carregar o máximo de jovens, de pessoas, para que vá além do projeto. Para que as pessoas vejam que vale a pena ir [conhecer a cidade] e é isso que eu estou fazendo”.

Do Cria, nasce o Transitando

Apelidado de “Cria”, o projeto que financiou o “Transitando”, foi pensado para estimular a capacitação de líderes comunitários e já incentivou a criação de nove iniciativas, todas voltadas para esses jovens. No caso da Gabi, o projeto só impulsionou e replicou em uma escala maior o que a jovem já fazia. Depois de o “Transitando” ser aprovado, Gabi começou a recrutar os participantes. Dos mais de 22 jovens que compraram a ideia e que participaram dos passeios realizados e financiados pelo projeto, quatro deles são: Jobson Whilte, Ariane Vitória Souza de Macedo, Jonatan Peixoto de Castro e Kamili Rodrigues. Todos moradores da Maré.

Os rolês, como chama Gabi, incluíram uma ida ao Museu Nacional de Belas Artes, no Centro, a uma sessão de cinema, a uma apresentação de balé no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, uma caminhada pela Trilha da Urca e uma visita ao Cristo Redentor.  

Experiência inovadora

Jobson foi ao primeiro passeio, ao Museu, uma experiência que o marcou. Eu gostei bastante, achei algo bem-inovador. Não é fácil, pra mim, vir a lugares assim. Primeiro, eu não sei como me movimentar por esses lugares. E eu não sou muito desse ambiente”. Jonatan, Ariane e Kamili foram ao passeio ao Cristo Redentor. “O projeto me deixou com um olhar diferente, um olhar mais crítico, de que é possível frequentar os lugares que é colocado pra você, que você não pode, que não está dentro das suas condições de vida”, diz Jonatan.

Para ele, o principal motivo para o jovem morador da Maré não andar muito pela cidade é o medo de não ser aceito. “Muitos têm medo de olhar a própria cidade e ser olhado como favelado, como quem não tem perspectiva de vida e é sempre castigado pelo Estado”.

“Só andava pela cidade quando era realmente necessário, então foram poucas vezes. Só gratidão ao Transitando. Foi incrível, experiências ótimas que levarei junto comigo. Pude apreciar lugares incríveis e foi muito gratificante para mim, pois nunca me imaginei viver isso, por mais simples que seja aos olhos de outras pessoas. Agora eu tenho conhecimento sobre outras coisas diferentes, sem ser essa ‘caixinha fechada’”. Em fase de finalização, Gabi diz que vai manter a página no Facebook ativa e, mesmo com as dificuldades financeiras, pretende manter o grupo. “A gente está se programando, pra quando terminar o orçamento, continuar fazendo esses rolês, por fora, juntar dinheiro. Porque partiu deles também. De falar, ‘vamos continuar? Vamos!’. Não da mesma forma, porque a gente não tem esse dinheiro todo, mas a gente ‘tá’ querendo continuar e fazer com que página do Facebook seja esse lugar pra gente se encontrar”, finaliza a jovem.

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