Um ano sem Marielle

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Brutal assassinato da vereadora rompeu as fronteiras da cidade e do país e indignou o mundo: quem matou e por que são perguntas que persistem um ano após a sua morte e não se calarão | Foto: Douglas Lopes

No mês em que completa um ano de sua morte e a de seu motorista, Anderson Gomes, a luta de Marielle continua ainda mais viva.

Maré de Notícias #98 – março de 2019

Por: Camille Ramos

Imponência, força, resistência, empoderamento. Com quantas palavras se pode apresentar Marielle? No Mês da Mulher, quando completa um ano daquele 14 março em que o chão fugiu de nossos pés, sua voz permanece nutrindo a luta, dia após dia, fortalecendo os invisibilizados pela sociedade. Uma figura feminina que ressignifica, para muitos, o que é ser mulher, negra, lésbica e cria de favela, cria da Maré. Mas o que fez Marielle ser Marielle? O que faz a sociedade cobrar, sem cansar, a elucidação do caso que ainda paira sobre nós, cheio de rumores e nenhuma resposta concreta? Qual é o legado mais poderoso de Marielle? Ouso dizer: política com afeto.

O diálogo proposto por Marielle ultrapassou as vielas da Maré, onde cresceu e aprendeu a lutar por sua existência que, aqui, explicou: era coletiva. “Eu sou porque nós somos”, o lema africano Ubuntu embalou toda a trajetória política de uma parlamentar que não nasceu na Câmara, mas nas ruas, resistindo. Marielle falava com propriedade sobre o papel de mulher negra, periférica, mãe solteira, e utilizava da empatia para elevar o discurso sobre a urgência de uma sociedade menos desigual. Por pautar grupos minorizados com afeto e conhecimento de causa, conquistou a confiança de 46.502 pessoas e nos representou até o seu último dia, quando, covardemente, tentaram impedir que sua voz ganhasse mais espaço. Mas seus algozes perderam. Marielle virou semente e segue presente em qualquer espaço que houver política com afeto, em defesa da garantia de direitos humanos.

2018: um ano para não se esquecer

O ano de 2018 começou com essa tentativa de nos calar. Mas ao contrário do que parecia se pretender, a representatividade feminina aumentou. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, foram eleitas 77 mulheres – 50% a mais que na última eleição – entre elas, 13 negras e, pela primeira vez, uma trans e uma indígena.

No Rio, foram eleitas três assessoras de Marielle: Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, todas deputadas estaduais; e Talíria Petrone, amiga de luta de Marielle, que foi representar nosso estado em Brasília. Todas negras. Esse é um recado claro de que não seremos interrompidas. Marielle sempre estará presente!

Marielle e seu legado

Perguntamos a pessoas que conheceram de perto a luta e a trajetória de Marielle sobre a herança, o legado deixado por ela – uma vereadora em seu primeiro mandato, negra, LGBT e favelada. Confira.

 “Primeiro de tudo é preciso não esquecer que o corpo da Mari foi assassinado, mas que a luta que ela representava está mais viva que nunca. Não existe lado bom ou possibilidade de olhar com um olhar positivo esse crime político, é importante dizer isso. Queríamos a Marielle viva aqui com a gente, mas a execução despertou em nós um senso de urgência. Tantas mulheres vieram antes de nós e viveram em luta… Corpos de mulheres negras não escolhem lutar, precisam estar em luta para sobreviver. Sem dúvida, não daremos um passo atrás, e é com toda essa ancestralidade, das que vieram antes de nós, que vamos seguir”.  Talíria Petrone, deputada federal.

“Marielle nos deixa muitas marcas, mas uma das mais importantes, sem dúvida, é de sua defesa pela vida, que é reconhecida mundialmente. Com a sua morte, podemos aplicar aquela frase que fazia parte da luta das mães de vítimas produzidas pelo estado: “Do luto à luta”. Então, a luta da Marielle não é apenas por ela, mas pela morte de uma mulher negra que mostrou o quanto nós estamos ligadas, porque sua execução produziu um sentimento físico, palpável, em todas as mulheres, especificamente, e de modo muito singular, em mulheres negras. Isso produziu uma indignação ancestral e o desejo de luta que é presente no discurso da mãe do Marcos Vinicius, por exemplo: o quanto essa força de luta vai ajudar na manutenção da sanidade de alguém que perde seu ente de forma tão violenta”. Mônica Francisco, pastora e deputada estadual.

“Quando a Mari entra num espaço de poder que normalmente não vemos mulheres, negros e LGBTs, acaba impactando a vida de pessoas que têm as mesmas características que ela. Isso mostra que quando trabalhamos coletivamente, chegamos a lugares para ter visibilidade e também para fazer a diferença. As periferias do Brasil viram na Marielle uma figura que poderia dar luz aos dilemas cotidianos. Virar candidata nesse momento de muita dor e perda foi difícil, mas foi uma decisão pautada no trabalho que eu já vinha fazendo durante nossa história. A eleição foi uma resposta social para dar também continuidade ao trabalho da Marielle. Transformar o luto em luta é muito feito pela favela, quando perdemos nossos entendes queridos pelas mãos do Estado, seja na fila do hospital ou em operações que vitimam as pessoas. Transformar o luto em luta é o nosso cotidiano”. Renata Souza, deputada federal. “Marielle virou um símbolo de luta, resistência. Ela extrapolou a territorialidade e vai para o mundo inteiro como exemplo de liderança. É, sem dúvida, um exemplo muito forte de uma figura que nunca se afastou da origem popular, da Maré, e se estivesse viva continuaria uma trajetória no sentido de transcender cada vez mais”. Edson Diniz, diretor da Redes da Maré e ex-professor de Marielle.

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