Escrita que tem cor

No País em que maior parte da população é negra, só recentemente autores negros começam a ter seu valor reconhecido pelo grande público

Thaynara Santos

“Como escritora, eu preciso escrever algo que a criança se veja na história. Meu sonho era escrever um livro para criança. E foi o que eu fiz. Desde pequena, eu lia muitas histórias, como as obras do Monteiro Lobato ou os gibis do Mauricio de Sousa, mas os personagens sempre eram branquinhos. Eu queria escrever uma história para as crianças se identificarem. Então, escrevi o livro ‘Ana e a Paixão pelas Letras’, com uma menina negra como protagonista”, conta Vilma Santos.

Vilma Santos: escritora destaca a importância da educação no combate aos preconceitos | Foto: Douglas Lopes

O Brasil é um País no qual 55,8% dos cidadãos são negros, ou seja, mais da metade da população. Ainda assim, esses cidadãos, por muitos anos, foram sub-representados na mídia e na literatura. Os movimentos negros brasileiros, há anos, afirmam a importância da representatividade dessa população no cinema, nas propagandas, nas telenovelas e na literatura. O negro como protagonista de sua própria história, independente do tema tratado no livro, romance, suspense ou drama. É nesse contexto que a literatura negra conquista sua ascensão no Brasil e no mundo.

Representatividade negra

Vilma Santos, escritora de origem indígena, de 57 anos, formou-se em Letras e ainda muito jovem, como uma criança tímida e quieta, encontrou nos livros seu refúgio e prazer. A mareense escreve biografias, poemas e contos. Entre suas obras constam as seguintes produções: Liberte-se da Caverna; Sobre Viver em Copacabana; Ana e a Paixão pelas Letras, que podem ser encontrados no site da Editora e Livraria Cultura. Em seu primeiro livro, “A Trajetória de uma Migrante Nordestina”, Vilma fala sobre a trajetória de sua mãe, do Nordeste para o Rio de Janeiro. “O primeiro livro que li na juventude foi o ‘Deus Negro’, de Neimar de Barros. O livro fala sobre um homem que morre, vai para o céu e encontra um Deus negro. Lembro que chorei muito lendo este livro. Fico na esperança de que as pessoas melhorem o mundo pelo estudo e a educação. Acredito que a ignorância vem em não saber as histórias das coisas e, por meio dela, as pessoas agem de forma mais ofensiva. Depois da educação, mudei minha forma de ver as coisas, aprendi a respeitar o outro”, explica a escritora.

Conquista de espaços

Na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) 2019, entre os cinco autores mais vendidos, quatro são negros de origem africana (Grada Kilomba, portuguesa; Ayobami Adebayo, nigeriana; Kalaf Epalanga, angolado e Gaël Faye, nascido no Burundi) e um indígena brasileiro, Ailton Krenak. Fernanda Diamant, curadora da FLIP 2019, realizada de 10 a 14 de julho, conta que ficou muito feliz. “Não é uma coisa que se pode projetar [o sucesso da literatura negra]. Os autores são maravilhosos, possuem qualidade literária e [os livros] tratam sobre vários temas, não só o racismo. Alguns falam sobre identidade, música, feminismo. Entre os 33 autores escolhidos para fazer parte do evento, 12 eram pessoas negras. Os autores negros sempre estiveram aí, só não eram evidenciados. O Brasil é um País miscigenado e desigual, que nunca deu oportunidades para os escritores negros”, completa a curadora.

A XIX Bienal Internacional do Livro Rio, que começa dia 30 de agosto e vai até 8 de setembro, no Riocentro, na Barra da Tijuca, também focou na diversidade de narrativas e vai trazer pautas como feminismo, fé e meio ambiente. “Este ano, optamos por trabalhar com categorias muito bem-segmentadas, reforçando a lógica de criar uma Bienal para cada público. Desta forma, readequamos o espaço e consolidamos o posicionamento de que a Bienal é um evento para toda a família e para todos os públicos, independentemente das idades e do perfil”, destaca Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal. O evento também vai trazer autores, artistas e personalidades negras, como: Flávia Oliveira, Crica Monteiro, Jeniffer Dias, Renato Cafuzo, Ana Paula Lisboa, Projota, Lellezinha, Mel Duarte, Spartakus, Anelis Assumpção, Cidinha da Silva, Claudia Alves, Conceição Evaristo, Eliana Alves, Elza Soares, Giovana Xavier, Jarid Arraes, Jennifer Dias, Joice Berth, Lucimar Rosa Dias, Luiza Brasil, Martinho da Vila e Ryane Leão.

Herança nacional

Conheça alguns dos mais talentosos escritores negros brasileiros

Machado de Assis: Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1808) nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. O escritor de origem humilde fundou a Academia Brasileira de Letras, ao lado do escritor José Veríssimo, ocupando a presidência da instituição até o ano de sua morte. Machado de Assis iniciou sua carreira publicando seus textos em jornais cariocas.

Do escritor: Memórias póstumas de Brás CubasDom Casmurro;Esaú e Jacó; eMemorial de Aires.

Conceição Evaristo: Escritora, mineira, nascida em 1946. Graduou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestra em Literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Da escritora: Ponciá Vicêncio; Poemas da recordação e outros movimentos; e Insubmissas lágrimas de mulheres.

Carolina Maria de Jesus: Mãe, mulher negra, pobre, favelada, a escritora de origem mineira (Sacramento), nasceu em 1914 e construiu sua vida na favela do Canindé, em São Paulo. Cursou apenas as primeiras séries do Ensino Básico, mas registrava suas vivências e dificuldades em diários.

Da escritora: Quarto de despejo; Casa de Alvenaria; Pedaços de fome; Provérbios; Diário da Bitita; e Meu estranho diário.

Cruz e Sousa: João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Filho de escravos alforriados, recebeu a tutela e a educação de um marechal, seu ex-senhor, de quem adotou seu último sobrenome, Sousa. Apaixonado por Letras, mudou-se para o Rio em 1890, e trabalhou como arquivista na Central do Brasil.

Do escritor: Missal; Evocações; Faróis; Últimos sonetos; Outras evocações; O livro derradeiro; e Dispersos.

Elisa Lucinda: Nascida em 1958 em Cariacica, no Espírito Santo, é escritora, poeta, atriz e cantora. É criadora da Casa Poema, sede da Escola Lucinda de Poesia Viva, onde ministra vários cursos de poesia falada, com unidades em São Paulo, Salvador e Brasília.

Da escritora: A lua que menstrua; O semelhante; Eu te amo e suas estreias; e A fúria da beleza.

Lima Barreto: Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. O escritor foi apadrinhado ainda criança e teve a oportunidade de ter uma boa educação. Cursou seus estudos secundários no Colégio Dom Pedro II e trabalhou como escritor em jornais e revistas do Rio.

Do escritor: Recordações do escrivão Isaías Caminha: Triste fim de Policarpo Quaresma; Clara dos Anjos; Diário Íntimo; e Cemitério dos Vivos.

Você sabia?

Que Machado de Assis é considerado um dos melhores escritores de Língua Portuguesa de todos os tempos, ao lado de gênios como Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e José Saramago?

Ler é a maior diversão

Isso já anunciava um antigo comercial de TV. Confira as opções disponíveis perto de você:

Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto

Endereço: Rua Sargento Silva Nunes, nº 1.012 – Nova Holanda (ao lado da ONG Redes da Maré) 

Horários de funcionamento das Salas:

Sala Jovem e Adulto: segunda a sexta, das 9h às 21h.

Sala Infantil Escritora Maria Clara Machado: segunda a sexta, das 14h às 20h.

Telefone: 3105-8421

Inscrição: Qualquer pessoa pode se cadastrar e pegar um livro emprestado. Para se cadastrar é preciso levar a carteira de identidade. Cada pessoa pode pegar até três livros por vez, com o prazo de duas semanas. Caso seja necessário, é possível fazer uma renovação.

Biblioteca Popular da Maré Jorge Amado

Endereço: Ivanildo Alves, s/nº – Nova Maré (dentro da Lona da Maré)

Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 13h às 19h.

Telefone: 3105-6815

Qualquer pessoa pode se cadastrar e pegar livros emprestados. Basta ir à Biblioteca e preencher um formulário com nome completo, RG e endereço.

Biblioteca Comunitária Luciana Savaget (Instituto Vida Real)

Endereço: Rua Teixeira Ribeiro, s/nº – Parque Maré (estacionamento da clínica da família)

Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 8h às 17h.

Telefone: 3866-6761

Ligue e informe-se sobre os procedimentos da Biblioteca

Biblioteca Comunitária Nélida Piñon

Endereço: Travessa Luiz Gonzaga, nº 58 – Marcílio Dias

Horário de funcionamento: segunda a sexta, das 9h30 às 17h30; sábado, das 9h às 13h.

Telefone: 98827-0928

Ligue e informe-se sobre os procedimentos da Biblioteca

Livros pela internet

Biblioteca Brasiliana Mindlin (digital.bbm.usp.br/handle/bbm/1) é mantida pela Universidade de São Paulo (USP). Possui um acervo digital com cerca de 3 mil títulos, reunindo literatura, enciclopédias, poesias, artigos científicos e diversas outras categorias.

Portal Domínio Público (http://www.dominiopublico.gov.br), site do governo que disponibiliza textos diversos, relacionados à literatura, educação, astronomia, direito e sociologia, entre outros. Na parte literária, o portal destaca-se por reunir obras completas dos mais importantes autores da Língua Portuguesa, tais como Machado de Assis, Fernando Pessoa e Joaquim Nabuco.

Biblioteca Digital Mundial (wdl.org/pt), acervo on-line internacional mantido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Possui mais de 250 títulos brasileiros.

Os três portais permitem o download em PDF de obras nacionais e internacionais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui