Mulher negra latino-americana e Caribenha

Foto: Douglas Lopes

Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha mostra o quanto é preciso avançar nas questões racial e de gênero

Thaynara dos Santos

No Brasil, o dia 25 de julho é comemorado como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza foi uma líder quilombola no século 18, que vivia em Mato Grosso. Com a morte de seu companheiro, ela assumiu a luta da comunidade negra e indígena contra os opressores portugueses.

A data foi criada em 1992, durante o 1° Encontro de Mulheres Afro Latino-americanas e Afro Caribenhas, em Santo Domingos, República Dominicana. Em 2014, a Lei nº 12.987, sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff, transformou o dia internacional da mulher negra Latino-Americana e Caribenha no dia nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Desde o ano de sua criação, a data se tornou um sinônimo da existência e da resistência das mulheres, especialmente das mulheres negras, como uma forma de trazer visibilidade as pautas ligadas a mulher e a raça/cor, como racismo e feminicídio.

Mulheres negras resistem

No Brasil, onde a maioria da população é negra, os impactos do racismo ficam explícitos quando exemplificados em dados sobre a violência. Em 2017, 75% das pessoas assassinadas eram negras.

A desigualdade racial e o machismo que assombram as mulheres não-brancas são alarmantes. A taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9% em dez anos. A proporção de mulheres negras entre as vítimas da violência letal foi de 66% de todas as mulheres assassinadas no ano retrasado. (Atlas da Violência 2019)

Esses números não melhoram em comparação com a realidade das mulheres da América latina e do Caribe. A cada dez feminicídios cometidos em 23 países da América Latina e Caribe, quatro ocorreram no Brasil. (CEPAL 2017)

Segundo o relatório ONU Mulheres, nove mulheres são assassinadas por dia, na América Latina, vítimas de violência de gênero. O cálculo não inclui México e Colômbia.

Mulher trans e negra resiste

Quando se trata de dados sobre mulheres trans e negras esses números são quase inexistentes. A transfobia e o racismo invisibiliza a existência dessas pessoas, dificultando a criação de políticas públicas para a população LGBT.

Nos últimos dois anos, mais de 97% dos assassinatos contra pessoas trans tiveram recorte de gênero: feminino. Em 82% dos casos as pessoas foram identificadas como negras (pretas e pardas).

O termo trans é uma abreviação de “transgêneros”, que se refere às pessoas que não se identificam com o gênero atribuído quando nasceram, seja esse gênero masculino ou feminino.

Mulheres se movimentam

Apesar dos dados de violência e desigualdade racial, as mulheres negras reinventam os territórios no qual vivem e movimentam essas estruturas massacrantes. O dia 25 de julho não se trata só de uma data de luta, mas também de celebração. No Brasil, a ideia é fortalecer as pautas voltadas às mulheres negras e visibilizar suas conquistas e trajetórias. Na Maré, as mulheres carregam na identidade e no cotidiano a força para transformar tudo a sua volta.

Para Teresa Ona, pesquisadora do Núcleo de Memória e Identidade da Maré, da Redes da Maré, “o dia da mulher negra latino-americana e caribenha é muito importante para termos nosso lugar de fala. É um espaço para discutir vivências, sonhos e nos fortalecer juntas”. Desde 2010, o NUMIM se empenha na construção das memórias das 16 comunidades que formam a Maré e seus reflexos no presente, envolvendo moradores e pesquisadores. Além dos registros orais com os moradores da Maré, há ainda uma pesquisa contínua em acervos públicos e privados, levantando o passado da Maré, ressaltando sua relação com a cidade. O Grupo Conexão G, dirigido por Gilmara Cunha, tem sede na Nova Holanda, no conjunto de favelas da Maré e atua desde 2013 para garantir e promover cidadania e direitos humanos. O espaço é destinado à população LGBT, moradora de favela e periferia, sobretudo da cidade do Rio.

Assim como Tereza de Benguela, outras mulheres foram e são importantes para a nossa história.

 Mulheres negras que foram protagonistas do seu tempo e entraram para a história do Brasil:

Dandara

Dandara foi uma guerreira negra do período colonial do Brasil. Após ser presa, suicidou-se se jogando de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escrava. Foi esposa de Zumbi dos Palmares e com ele teve três filhos.

Maria Felipa

Maria Felipa de Oliveira foi uma mulher marisqueira, pescadora e trabalhadora braçal. Junto a Maria Quitéria e Joana Angélica, participou da luta da Independência da Bahia.

Luíza Mahin

Possivelmente foi ex-escrava de origem africana, nascida no século XIX, radicada no Brasil, que teria tomado parte na articulação dos levantes de escravos que sacudiram a Província da Bahia nas primeiras décadas do século XIX

Esperança Garcia

A escrava piauiense escreveu, em 1770, uma das mais antigas cartas de denúncia de maus-tratos contra negros, entregue ao governador da então província de São José do Piauí. Em 2017, recebeu o título de primeira mulher advogada do Piauí pela OAB do estado.

Tia Ciata

Hilária Batista de Almeida nasceu em 1854, em Santo Amaro, Bahia. É considerada uma das figuras mais influentes da origem do samba. No início do século XX, a mãe de santo promovia rituais religiosos e famosas rodas de partido-alto na Praça Onze.

Carolina Maria de Jesus

Nascida em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, foi uma importante escritora brasileira. Em seus cadernos, descrevia sua vida na favela e seu dia a dia em São Paulo. Um deles deu origem ao seu mais famoso, “Quarto de despejo”, publicado em 1960. 

Suzane Santos, de 25 anos, é cria do Parque União e integrante do Amarévê, coletivo de audiovisual da Maré e Meninas Black Power.

“Eu já me reconhecia como favela, mas eu não me entendia mulher negra. A partir desse momento você relembra várias coisas que aconteceram com você e você não entendia, agora você sabe que foi racismo. Em um curso de audiovisual (ESPOOC) eu me descobri mulher preta. Isso com 20 anos. O contato com pessoas que discutiam raça me fez repensar minha negritude. A gente nasce mulher negra mas se descobre mulher negra. Pelo menos pra mim, que sou mais clara, é um caminho mais difícil. Ainda mais pela negação e pelo embranquecimento que faz a gente acreditar que ser negro é ruim”.

“AMARÉVÊ promove a ressignificação da identidade favela e as histórias da Maré, que muitas vezes são marginalizadas, esquecidas e marcadas por violência. Nosso papel é entender que a gente precisa ter arquivo histórico das nossas histórias e nossa vivência, da forma que a gente faz as coisas, nosso saber dentro da favela. As próximas gerações precisam saber como foi seu passado. A gente não sabe quem foi nossos bisavós e bisavôs. Atualmente o coletivo é formado só por mulheres, mas isso foi uma coincidência. Eu acredito que raça vem antes de gênero porque o que devemos todo dia é o jovem negro ser morto só pela cor. A gente não morre só pelo gênero, não é só mulher preta que morre. Devemos pensar em comunidade e partindo disso eu também faço parte do coletivo Meninas Black Power, que é integrado por mulheres negras e a gente se movimenta para falar sobre o recorte de ser negra e ser mulher.

Minha família tem um papel político muito grande aqui dentro. Meu tio é presidente de associação no P.U. Ele foi a pessoa que ocupou o Sem-Terra e dividiu as casas. Por conta desse contato político dentro da família a gente cresceu tendo contato com a política dentro da família, a gente se envolveu muito cedo com as coisas. Teve um momento que trombamos com a AMARÉVÊ, que inicialmente só era um portal de notícias da Maré e era produzido por dois meninos daqui. Chamaram a gente pra fazer a comunicação para as redes sociais e site. Juntamo-nos e abraçamos a ideia.

“A minha vida foi formada aqui no Parque União, eu sai para morar em Xerém e voltei. Minha vida é basicamente aqui. A minha avó chegou aqui nova, ela passou por varias favelas daqui, ela veio do nordeste. Ela veio pra cá muito nova e com muitos filhos e com meu avô tentar a vida aqui. Eles viveram em muitas favelas daqui da Maré. A última casa na Rua Tiradentes, no parque união. Ela criou 14 filhos aqui”.

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Karla Rodrigues é pesquisadora do NUMIM (Núcleo de Memória e Identidade da Maré) e moradora da Nova Holanda. Filha de uma nordestina e um mineiro, Karla já viveu no Parque União, na Rubens Vaz, no Pinheiro e por fim na Nova Holanda, onde foi criada após a separação de seus pais.

“Minha mãe era migrante nordestina, meu pai é mineiro. Ele foi a terceira geração depois da abolição da escravatura. Ele sempre conta que a avó dele nasceu no dia da abolição”.

“Não se nasce mulher, torna-se. A mesma coisa  mulher negra, você se torna. E isso é para o bem e para o mal porque quanto mais embranquecida você tenta ficar mais recompensada é pela branquitude e pela sociedade, tipo alisar o cabelo ou não falar sobre o racismo”.

“Me tornar negra foi a melhor coisa que aconteceu ao longo da minha vida. Primeiro em ser mulher e ser negra. E segundo em me apropriar da minha ancestralidade e negritude, embora eu seja mestiça, com pai negro e mãe branca. Meu processo de transição capilar só aconteceu após o falecimento da minha mãe, mas isso não teve peso na minha decisão. Acho que só seria mais difícil.  Ela me dava dinheiro quando via minha raiz crescendo. Esse processo em aceitar meu cabelo natural aconteceu quando engravidei e não podia usar química. E eu nem acuso minha mãe porque isso foi uma forma de me proteger contra o racismo também.

“A gente tem uma visão social mais marxista, mas as pessoas estão começando a perceber que se não tratarmos a questão racial junto da questão socioeconômica sempre sairemos prejudicados pelo racismo institucional. Eu acredito que o recorte racial precisa ser pautado antes da renda da pessoa. Falo isso não só como quem estuda e lê muito mas também como quem já passou por isso na hora de procurar emprego ou concorrer com alguém com um currículo um pouco inferior ao meu e a pessoa conseguir a vaga porque tinha o “perfil da empresa”. E quando consegue entrar é convidada a alisar o cabelo. Eu passei por isso quando trabalhava em uma empresa multinacional. Minha supervisora me mandava fazer um coque e colocar uma teia no cabelo, mesmo com o cabelo alisado. Eu ainda não havia passado pela transição capilar.”

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Gilmara Cunha, de 34 anos, é moradora da Maré desde criança. Mulher negra e trans dirige o Conexão G, que trabalha com a população LGBT (lésbica, gay, bissexual e transexual). O grupo, que existe há 13 anos na Maré, busca ajudar nas demandas de pessoas trans que são invisibilizadas pela população em geral. Nascida no Hospital geral de Bonsucesso, morou pouco tempo no Engenho da rainha e ainda criança retornou para a Maré, de onde nunca mais saiu. A partir da falta de políticas públicas voltadas a população LGBT surge o Conexão G.

“Não faz sentido mudar a minha vida se eu não mudo a vida das pessoas a minha volta. Quando eu penso nesse público que é inviabilizado eu penso no grupo no qual estou inserida. Sou uma mulher trans e sabemos que o Brasil lidera o ranking de assassinato contra a população de travestis e transexuais. São números alarmantes. Se dentro do meu território eu não tiver o poder de transformar outras mulheres iguais a mim também não irão ter o direito de ser quem são. Há 20 anos das travestis eram impedidas de andarem na rua de dia, porque eram associadas a prostituição é só andavam a noite. E hoje não, elas veem para o projeto, andam pela rua no horário formal da sociedade.

As pessoas devem reconhecer essa população (LGBT), não como pessoas promíscuas, mas pessoas que tem o direito de ser quem são naquele espaço. Eu me lembro de que quando a gente começou, nós sofríamos violências em espaços de lazer. Nós não podíamos participar daqueles espaços. Tacavam várias coisas, como pedaços de pau, pedra e cebola. Aí você ser uma mulher, ser negra e trans percebia que tinha muita coisa a ser trabalhada, a gente precisava ser reconhecida como pessoa”.

 “Como moradoras de favela a gente já tem vários fatores. O Estado só entra com política pública através da segurança pública, você tem a questão da identidade de gênero, a questão da orientação sexual, a falta de empregos para a população trans, a falta de saneamento básico, a falta de saúde. Enfrentamos cotidianamente a violência do Estado, porque nos nega direitos enquanto cidadãos e cidadãs LGBT e o poder paralelo, que muitas vezes dificulta a forma como expressamos quem nós somos”.

“Somos protagonistas da nossa própria história e a gente precisa estar à frente e transformar nosso território. Não só pra gente enquanto moradora, mas também para toda a comunidade. Porque uma das coisas que a gente tem enquanto diferencial é que por mais que a gente tenha nossas pautas específicas, de cada organização, ainda assim nós pensamos no coletivo, na transformação do território. Talvez eu não usufrua muito dessas mudanças, mas as próximas gerações irão fazer isso”.

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