Não dá pra ficar parado!

A oferta de atividades físicas nas favelas da Maré

Hélio Euclides

O esporte é a prática individual ou coletiva de qualquer atividade que demande exercício físico, com fins de recreação, manutenção do condicionamento corporal e da saúde. Para alguns, o grande vilão é o aumento de peso, que atinge 2,2 bilhões de pessoas, ou seja, 30% da população mundial são obesas. Os moradores da Maré procuram diversas maneiras para a prática de esportes, com o objetivo principal de uma vida mais saudável para a mente e para o corpo. Flavio Alves é professor de Educação Física. Ele explica que o trabalho do corpo tem três esferas: o esporte, que é sistemático, com jogos e brincadeiras; a atividade física, que se faz no dia a dia; e o exercício físico, que é algo direcionado. “Qualquer uma das esferas é bom para acabar com o sedentarismo, prevenir o diabete, a hipertensão e a má circulação. Eu trabalho o circuito funcional, muay thai [tipo de arte marcial], musculação e Pilates na Nova Holanda. Sempre quis implantar o circuito aqui, pois o morador da favela merece a mesma qualidade de vida de quem mora perto da praia”, afirma.  Para ele, a prática do esporte hoje não é fácil. “Na minha época existia bastante área de lazer, muitos campos. Com o tempo, os espaços foram acabando, as crianças ficaram sem o incentivo de um bom lugar para a prática”, observa. Além do trabalho do circuito, ele atua no projeto Rio ao Ar Livre, na quadra do Nem, na Nova Holanda, pela manhã, que recebe os idosos. Já na comunidade de Rubens Vaz trabalha em uma academia e um projeto de escolinha de futebol. “É bom lembrar que a atividade física não caminha sozinha, é preciso ter uma boa alimentação. O corpo é igual a um carro, precisa de gasolina para circular. Outros fatores importantes são o descanso e a frequência. Dessa forma, se constrói um bom atleta”, frisa.

Na Vila Olímpica há atividades para todas as idades e também para pessoas com deficiência

A vila dos esportes

A Vila Olímpica da Maré, que funciona de terça a sexta, das 7h às 18h, com judô, capoeira, futsal, ginástica, futebol de campo, basquete, dança, atividades de pessoas com deficiência e da terceira idade. A Instituição tem como maior intuito realizar a socialização e a melhoria da qualidade de vida dos usuários, assim como captar futuros atletas de diversas modalidades esportivas. “Na vila tenho grandes amizades, além de ter a saúde em primeiro lugar. O local reúne as atividades que preciso, igualmente crianças e idosos. Se não existisse, faria a maior falta. Lá se encontra professores que dão a maior atenção aos moradores”, exemplifica Jane dos Anjos Passos, que frequenta as aulas de zumba e hidroginástica.

Um circuito de exercícios

Quem passa em frente ao Parque Ecológico da Vila dos Pinheiros percebe diversas pessoas se exercitando na quadra de areia do futevôlei. Carlos Alberto Monteiro Souza, professor de Educação Física, realiza o treino funcional, com os seus 40 alunos. “O atleta tem um circuito, mas é respeitado o limite de cada um, o próprio condicionamento”, resume.  “O ideal é uma alimentação de três em três horas, um exemplo é começar o dia cortando o pão da mesa e adicionando batata doce e ovo mexido. Outra dica é a carne vermelha só ser consumida de dois em dois dias, sendo substituída por frango e peixe. Os vilões são as festas, onde se encontra apenas refrigerante /ou ainda refrigereco [refrigerante genérico], e sopa gordurosa, nunca suco natural”, conta. Para Carlos, o certo é o indivíduo procurar o médico para perder peso, e não apenas quando sofre com dor. No circuito, os alunos aprendem que não é só ficar magro, ver apenas o lado estético, o ideal é ter saúde. “Estava em depressão, com arritmia cardíaca e hipertireoidismo, então a endocrinologista me recomendou atividade física. Resolvi viver, e não preciso mais do remédio de tarja preta. Com essa atividade a vida mudou por completo, elevei a autoestima”, expõe a aluna Roselaine de Carvalho Mothe.

A caminhada e a corrida à procura da saúde

Na ciclovia do Conjunto Pinheiros se encontram dezenas de pessoas que caminham de um lado a outro. Luiz Carlos é um deles. “Caminho já há dois anos, por conta própria, comecei pelo excesso de peso. Esse exercício melhora bastante a vida, com disposição e melhor respiração. O ideal é a pessoa largar a televisão e escolher um espaço para caminhar”, aconselha. Já Ramires da Silva escolheu a velocidade. Ele corre há um ano na Cidade Universitária, de três a seis vezes por semana, com outros amigos, cerca de 20 pessoas, no início da manhã ou ao final da tarde. O grupo se denomina Maré Esporte, representa a favela em diversas corridas pela cidade, e nelas conseguiram algumas premiações por faixa etária. “Lembro que no meu primeiro dia não consegui dar uma volta ao campo. Hoje já alcanço 21 quilômetros. Um dia fazemos um treino pesado, e no outro algo mais leve, tipo uma corrida de cinco quilômetros, depende do preparo de cada um. É uma verdadeira terapia, esquecemos dos problemas”, argumenta. Ramires explica porque não corre perto de casa. “É mais seguro a Ilha do Fundão do que a Maré, na favela falta iluminação, e tem a violência, já tivemos um da equipe que foi baleado quando se exercitava”, reclama. Ramires manda um recado para quem tem uma vida sedentária: “recomendo a todos que, depois de lerem essa matéria, levantem do sofá para a prática de uma atividade física. No início é difícil, mas traz satisfação, é um vício saudável”, conclui.

A importância do esporte na infância

Na Maré, nos campos de futebol há sempre uma escolinha. No Conjunto Pinheiro, a escolinha do Mário movimenta 120 meninos e meninas, de seis a 13 anos, nas noites de terças e quintas. O treinador é Mário Alves do Nascimento, que realiza a atividade há 21 anos, e se emociona a ouvir ex-alunos pronunciarem que o esporte ajudou na vida. “É muito bacana ver um menino que treinou comigo, trazer o seu filho para a escolinha. É o esporte passado de pai para filho”, declara. Para ele, quando se começa cedo no esporte, o aprendizado é rápido. “O esporte é bom para a saúde da criança, em especial quem tem bronquite e asma, os médicos recomendam. Mas a criança precisa gostar da prática, e nunca atuar por vontade dos pais”, alerta. Outro que incentiva o esporte nos primeiros anos é o atleta Rodrigo Pedro, conhecido como Fantasma, que treina diversas crianças na primeira Escola de Lutas José Aldo, nas tardes de segundas e quartas, na Associação de Moradores do Conjunto Esperança. São 600 meninos e meninas na faixa etária de seis a 16 anos, que se dividem em aprender boxe, judô, luta olímpica e jiu-jitsu. “Quando se começa cedo no esporte, surge o desejo do exercício, e é algo contra a obesidade. Além de evoluir o desempenho escolar, melhora o comportamento em casa, e se tem uma vida saudável”, explica. Rodrigo entende que o esporte não é apenas para a carreira profissional, mas é fundamental e necessário para o crescimento pessoal do ser humano. “O esporte dá uma opção, e direcionamento, abre portas que muitas atividades não abrem. Eles vão a outros lugares sem carregar rixas, entendem que a guerra não é deles. Participam de competições em outras localidades, percebem outra realidade, são vistos com bons olhos e saem aplaudidos”, esclarece. O treinador conta que muitos brigavam na rua, e com o esporte aprenderam que a força é para ser usada na competição. “O esporte torna indivíduos vencedores, por isso acredito que no futuro teremos alunos da Maré defendendo as cores do Brasil”, finaliza.

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