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Operação policial na Maré: restrição no direito de ir e vir do mareense, fechamento de comércios, de escolas e de postos de saúde, além de trazer pavor e mortes para o território | Douglas Lopes

Números da violência na Maré nos seis primeiros meses de 2019 superam os de todo o ano de 2018, é o que comprova Boletim de Segurança Pública da Redes da Maré

Maré de Notícias #104 – setembro de 2019

Jéssica Pires

27 mortos, 10 dias sem aulas nas escolas. Esses são dois dos indicadores que refletem o impacto da Política de Segurança Pública implementada pelo Estado, na Maré, nos primeiros seis meses deste ano. Além dos números, os dados refletem aquilo que, cotidianamente, o mareense vive: práticas que contradizem a essência da atuação policial em qualquer território, com violações de direitos, falta de planejamento nas ações e truculência, que resultam em medo e interrupção do direito de ir e vir dos moradores, entre outros prejuízos materiais e imateriais incalculáveis.

Diante do grave cenário, com a elevação crescente dos indicadores de violência, o Eixo de Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré – que produz e publica, desde 2016, por meio do projeto “De Olho na Maré”, um Boletim com informações sobre o direito à Segurança Pública na Maré – lançou uma Edição Especial, com dados do primeiro semestre de 2019. E o que se constata é assombroso: os indicadores de seis meses já superam os de todo o ano de 2018!

A coleta e sistematização dos dados

De acordo com o projeto “De Olho na Maré”, o principal objetivo do lançamento do Boletim parcial é chamar a atenção da cidade para o aumento da violência armada na Maré, a partir do relato de moradores. “Passamos por uma conjuntura em que o número de mortes do primeiro semestre de 2019 supera em 10% o total de mortes de todo o ano de 2018. O Eixo de Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré busca defender a Segurança Pública como um direito de todos. Dessa forma, o Boletim vem disputar a narrativa sobre a violência armada nos territórios de favelas, destacando a insegurança que atinge os moradores e problematizando a banalização e naturalização da violência nesses espaços”, explica Camila Barros, coordenadora do projeto.

O projeto coleta e sistematiza dados sobre situações de violência nas 16 comunidades da Maré, sobretudo em dia de conflitos armados, decorrentes da atual política de combate a drogas e Segurança Pública no País. As informações sobre os confrontos armados e as violações de direitos são colhidas por tecedores [colaboradores] da Redes da Maré. A sistematização dos dados também conta com uma rede de apoio, com moradores e organizações locais. “As operações policiais na Maré se intensificaram tanto em número, quanto em tempo de duração, assim como apresentam-se com maior aparato bélico e mais truculentas, em relação ao ano anterior”, comenta Camila.

A versão da Polícia Militar

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), contrapondo os dados do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré, divulgou no último dia 12 de agosto que o número de homicídios dolosos (aqueles em que se tem a intenção de matar) na Área Integrada de Segurança Pública (AISP) 22, onde a Maré se localiza, caiu, em 2019. E de fato caíram. Mas não na Maré. De acordo com a PMERJ, no primeiro semestre de 2018 foram 74 mortes na AISP 22, 14 delas na Maré; já no primeiro semestre de 2019, foram 54 mortes e 27 na Maré. Ou seja, das mortes registradas no primeiro semestre de 2019 na AISP 22, metade aconteceu na Maré.

Caveirão Voador: o terror sobrevoa a Maré

As novas representatividades nos governos estadual e federal trouxeram para os favelados dúvidas e insegurança. Já no primeiro mês do ano, no dia 24 de janeiro, a Maré foi alvo do caveirão voador, utilizado como plataforma de tiro, em uma operação policial. As favelas Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau e Conjunto Bento Ribeiro Dantas foram o foco da operação. Na ocasião, o helicóptero disparou tiros nas proximidades da Vila Olímpica da Maré, onde centenas de crianças participavam de uma colônia de férias.

O caveirão voador também foi utilizado nas operações que se seguiram, assim como o pavor e a insegurança que seu uso causa. Para se ter uma ideia, no primeiro semestre foram realizadas, na Maré, mais operações com helicóptero como plataforma de tiro que nos últimos dois anos. Das 15 mortes em dias de operações policiais na Maré, 14 aconteceram em operações com o uso do helicóptero.

Segundo semestre: a truculência continua

O segundo semestre não trouxe mudanças neste triste cenário. Entre o fim de junho e a data de fechamento desta Edição do Maré de Notícias, a Maré já contabilizava mais seis operações policiais, com mais oito mortos, além dos impactos materiais e imateriais no território. Um ponto que chama a atenção nas análises do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré é a inconsistência das motivações apresentadas pelas assessorias dos órgãos responsáveis. Uma constante é a “repressão ao tráfico de drogas”. Diante de tantas mortes e violações, fica no ar uma pergunta: em que outros locais da cidade a polícia atua desta maneira?

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