É limpeza!

Val e Maria Irece: parceria com os moradores impacta nas condições de trabalho dos garis, na duração da limpeza e em ruas mais floridas e arborizadas | Douglas Lopes

Chamado erroneamente de lixeiros, os garis têm uma importante função social

Maré de Notícias #105 – outubro de 2019

Hélio Euclides

“Tem gente que diz que joga lixo na rua para garantir o emprego do gari. Mas morrer, para dar trabalho ao coveiro, ninguém quer né?” Com essa frase a gari Valdenise Brandão, conhecida como Val, começou a entrevista. Ela compõe a equipe da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), que atua na Maré com 56 profissionais. Segundo a Empresa, ainda há outros 62 trabalhadores comunitários. Eles começam a sua jornada diária cedo, às 6 horas, para cumprir uma longa e pesada meta de trabalho.

Quando se pensa na função do gari, vem logo à mente a coleta domiciliar e a varrição. Eles ainda realizam a coleta seletiva, capina e roçada, coleta de entulho, limpeza das praias, das lagoas, dos túneis e viadutos, de encostas, de feiras livres, nas escolas e hospitais municipais,  de valas, ralos, parques e praças, manutenção de mobiliário, preparo de alimentos nas escolas, poda de árvore, remoção de resíduos das Ilhas, coleta hospitalar, combate a vetores, desodorização de ruas e remoção de pichações. Cansou só de ler? Pois é, o gari é um profissional invisível, mas que – faça chuva ou sol – se dedica para deixar a cidade mais limpa, bonita e melhor para se viver.

Na Maré, o trabalho da Comlurb é gerenciado por Marcos Wiliam,há três meses. Ele atuou como gari por 13 anos e depois foi fiscal por outros cinco. Para chegar antes de todos, às 5 horas da manhã, Wiliam, que mora em Cabuçu, bairro de Nova Iguaçu, levanta-se cedo, antes das 4 horas.

Ele conta que se inspira em alguns profissionais da Maré, como Jorge Luiz, de 67 anos, que atua na coleta; Tião Fonseca, de 65 anos; e Ivete Cristina, de 60 anos, ambos na varrição. “Não supervisiono de dentro do escritório, ando pelas ruas da Maré. Trabalho com amor, sempre quero fazer o meu serviço bem-feito”, afirma.

Até no meio do lixo nascem flores

Mobilização: trabalhadores e moradores comprometidos com os espaços verdes do território | Douglas Lopes

Um grupo de garis tenta acabar com os pontos de descartes indevidos de lixo na Maré. Para isso, constroem canteiros e mostram que há vida onde antes só tinha resíduos. Val, de 36 anos, 11 dedicados à profissão, compõe essa força-tarefa. Na Rua Capitão Carlos, no Morro do Timbau, só tinha lixo e foram colocadas, no lugar, plantas e flores. “Tinha morador que não pisava mais na calçada, pois não tinha espaço. Outros, não abriam mais a janela para não entrar moscas. O resultado positivo não tem preço. Dar vida à cidade é gratificante”, conta Val.

Val, antes, era vendedora de empadinhas e também trabalhou na limpeza de aeroporto. Hoje se dedica à reciclagem, a criar praças e jardins. Para se aperfeiçoar, a profissional participou de um curso de compostagem. O projeto consiste em trabalhar a reciclagem e montar horto nas escolas, além de construir tijolos de plásticos orgânicos para os canteiros. “Hoje, faço urbanismo tático. Tomei paixão, essa é a minha missão. Meu sonho é fazer a faculdade de Arquitetura”, disse. Apesar da alegria, tem algo que a deixa irritada: “Não gosto quando nos chamam de lixeiros, somos coletores”, explica.

Outro ponto de queixa é o verão. “Trabalhamos na rua sem água e banheiro. Ainda bem que tem morador que oferece até comida”, diz Val.

Maria Irece, moradora do Morro do Timbau, gostou da proximidade com os garis. “Antes, não tinha coleta domiciliar, por isso minha rua era um lixão. Agora passam três vezes por semana e ainda fizeram um canteiro lindo, no qual eu ajudei. É um trabalho lindo que estão realizando, tirando o lixo que vinha até o meu portão, deixando a calçada livre e criando jardins. Estão de parabéns!”

A alegria de ser gari

Jeferson dos Santos e Jaqueline Macena: família surgida na profissão. Garis são casados há 10 anos | Douglas Lopes

Jaqueline Macena, de 36 anos, trabalha como gari há 10 anos, sete deles na Maré. Ela trabalha varrendo a Avenida Brasil, do Supermercado Vianense até o BRT Maré. No seu caminho, encontra muito lixo pela frente. Na maioria, copos de guaraná natural e guimbas de cigarro. “Falta papeleira para as pessoas colocarem o lixo, então a maioria descarta no chão”, explica.

Para Jaqueline, a profissão é muito importante: como gari, conquistou sua casa e um carro. Um benefício que a empresa oferece é o desconto na faculdade. Dessa forma, sua filha cursa Odontologia. “Somos uma família de garis, com cunhado, primo e esposo. Eu gosto do que faço, sou feliz como gari”, conta. Um fato importante na vida da Jaqueline, que aconteceu na empresa, foi ter conhecido o seu companheiro há 10 anos, e logo depois tiveram um filho.

Apesar do trabalho, ainda há lixo na rua

Na Maré, a Comlurb disponibiliza, para os serviços, cinco caminhões de coleta, dois satélites (caminhões menores), cinco microtratores e um trator. Para Pedro Francisco, presidente da Associação do Conjunto Esperança, ainda há problemas a serem superados: “Falta diálogo e o resultado é muito lixo nas ruas. A caçamba só mudou de cor, a eficiência é horrível. Falta mão de obra, um efetivo maior nos caminhões, fortalecer o projeto Gari Comunitário, criar um espaço para colocar entulho de obras, campanhas socioeducativas e a valorização da coleta domiciliar”, afirma.

O gerente Wiliam acredita que a Maré está em constante crescimento e isso desfavorece a prestação adequada do serviço. “Para suprir a carência, pedimos ajuda a outras gerências. Em breve, virá mais um carro de coleta. O que mais nos preocupa, hoje, é a dispensa de geladeira, fogão, sofá e entulho de obras. Muitas vezes, são caminhões de fora da favela que vêm aqui jogar o lixo”, acrescenta.

Ele indica a quem deseja retirar restos de material de construção de sua residência, que procure as associações de moradores, que encaminham a demanda para a Comlurb Maré.

A Comlurb, por meio de sua assessoria de imprensa, declarou que estão sendo instaladas 110 caixas metálicas com capacidade de 1.200 litros, na Maré. Os novos equipamentos são de ferro, mais resistentes que os contêineres “laranjões”, com tampas e rodinhas, que facilitam o manejo do equipamento pelo gari. Além disso, possuem um mecanismo que permite aos novos caminhões da frota alçá-las e remover rapidamente o conteúdo.

O gari da comunidade

O projeto Gari Comunitário tinha 115 profissionais, em 2012, na Maré. A cada ano esse número vem diminuindo. A Comlurb explica, por meio de sua assessoria, que vem reduzindo gradativamente a quantidade de garis comunitários atendendo à decisão judicial do Ministério Público do Trabalho, para que sejam substituídos por garis concursados. A Comlurb disse, ainda, que um novo concurso para garis se encontra em fase de análise e assim que a Companhia tiver informações mais consistentes, tornará público.

Você sabia?

A origem dos garis

O nome gari remonta à época do Império. Em 1885, o empresário de origem francesa Pedro Aleixo Gary foi contratado para o serviço de limpeza das praias e remoção do lixo da cidade para a Ilha de Sapucaia, no Caju. Gary cumpriu essa função até o ano de 1891, quando encerrou o contrato com o governo. Anos depois, foi criada a superintendência de limpeza pública da cidade. A atuação do empresário, no entanto, foi tão forte, que os empregados encarregados pela limpeza, os varredores de rua, passaram a ser chamados de garis.

O Povo Fala

Venho sempre visitar os meus familiares aqui no Rubens Vaz e nunca vi morador reclamar do lixo. Percebo as ruas sempre limpinhas, mais até do que onde moro.” Sérgio Luiz, morador do Jacarezinho.

O grande problema são as ruas finas, o que prejudica a passagem do tratorzinho, mas avalio o trabalho deles como bom. Só falta os moradores terem um pouco de consciência.” Viviane Gabriel, moradora da Nova Holanda.

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