Bola na mão também vale

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NBA chegou na Maré e treina jovens para o basquete

Jorge Melo

O basquete está para os norte-americanos como o futebol está para os brasileiros. Você pode até não curtir, mas já ouviu falar de Le Bron James, o maior jogador da atualidade. Ou de Stephen Curry e Kevin Durant, os principais jogadores do atual campeão da NBA – National Basketball Association, o Golden State Warriors.  Ou já viu alguém usando uma camiseta com um desses nomes.  Há tempos, a NBA, que administra o basquete nos Estados Unidos, decidiu se globalizar e passou a investir na contratação de estrangeiros, inclusive brasileiros. Atualmente, mais de 100 jogadores, de mais de 40 países, jogam nos 30 times da NBA. Assim a NBA ganha fãs em todo o mundo e não apenas nos EUA. O segundo passo foi desenvolver projetos fora dos Estados Unidos. Um desses projetos é o Jr. NBA, instalado na Maré, em setembro. O objetivo é promover o desenvolvimento socioesportivo da região e transmitir valores como solidariedade, disciplina e cidadania aos jovens.

Segundo a coordenadora técnica da Vila Olímpica da Maré, Cátia Simão, a chegada da NBA “representou um ganho enorme, porque a comunidade já tinha uma tradição na prática do basquete, mas, há algum tempo, por causa da falta de professores, a atividade estava suspensa. Com a chegada da Jr. NBA, as aulas e treinos foram retomados”.

O “clima” do basquete americano é o mesmo do futebol. A mesma paixão e a mesma rivalidade entre os times, que lá são administrados por empresas e chamados de franquias. Da mesma forma que o futebol no Brasil e na Europa, o basquete americano é um negócio de alto nível, movimenta muito dinheiro e paga salários astronômicos.

 

NBA na Maré

Uma das metas do projeto é melhorar o rendimento dos alunos e diminuir a evasão escolar | Foto: Douglas Lopes

Pablo Poder é professor da Jr. NBA na Maré. Apaixonado pelo basquete, já jogou profissionalmente, mas optou por formar os mais jovens e angariar adeptos para o seu esporte de coração. Pablo também é um entusiasta de projetos sociais envolvendo o basquete, nos quais vê a possibilidade de “abrir novos horizontes para essa garotada, oferecendo a oportunidade de desenvolverem uma habilidade, praticar o trabalho em equipe, perceber a importância da preparação para alcançar metas e o respeito ao outro”. Na Maré, o Jr. NBA já conta com 210 jovens e crianças inscritos (de 10 a 19 anos), que recebem aulas gratuitas. Uma das metas é atrair jovens que estão fora da escola, utilizando o basquete como forma de estímulo.  E essa meta, segundo Cátia Simão, tem sido trabalhada intensamente, com uma equipe que identifica os casos e faz uma intermediação com as escolas para que esses jovens possam retornar aos estudos. Uma das exigências, para aqueles em idade escolar, se inscreverem no Jr. NBA é apresentar uma declaração de que está estudando. E esse, segundo os responsáveis pelo projeto, é um ponto fundamental da plataforma.

Segundo Bruno de Souza Rostolato, coordenador do projeto, “é gratificante observar o impacto positivo que o projeto causou na Maré, as expectativas foram excedidas”. O projeto teve início em setembro, mas de acordo com Bruno, “nós começamos a trabalhar em abril para oferecer as melhores condições a essa comunidade. E o trabalho valeu à pena.  Gente vê o empenho e a dedicação dos alunos, meninos, meninas, jovens, isso é muito legal”.  Bruno considera que o peso da marca e a credibilidade da NBA têm influência, mas “o mais importante é aproveitar essa força para preparar esses meninos e jovens para a vida”.

Matheus Fernandes tem 17 anos e está no projeto desde o início. É fã dos jogadores da NBA e também da NBB, a Liga Nacional de Basquete, a versão brasileira da NBA. Matheus já definiu que quer ser jogador profissional e está se preparando para enfrentar os testes em clubes grandes. Ele sabe que precisa treinar muito, se aprimorar. E tem conseguido, pelo projeto. No entanto, mais do que isso, reconhece que participar do projeto trouxe ganhos para sua vida pessoal, “mais disciplina, responsabilidade, fortalecimento do caráter”.

Para o funcionamento do núcleo na Maré foram recuperadas duas quadras, com pintura e marcações novas; instalados dois pares de tabelas e distribuído material esportivo (bolas, coletes, uniformes e equipamentos) para alunos, alunas e instrutores. Além disso, duas tabelas portáteis foram disponibilizas para ações com escolas e a comunidade, “eles têm as melhores condições para se desenvolverem”, diz Bruno Rostolato.

Basquete tem espaço para elas

Segundo Cátia Simão, o número de meninas inscritas no Jr. NBA ainda é bem menor que o de meninos e rapazes; 20 % são meninas; essa é uma realidade mundial, “mas nada impede que as meninas, no futuro, mudem isso”.

O núcleo Jr. NBA da Maré integra o projeto “Maré que Transforma”, liderado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, em parceria com a Subsecretaria de Esportes e Lazer do município do Rio de Janeiro. A Vila Olímpica da Maré também participa da parceria. O projeto conta, ainda, com parceiros como a Fundação Futebol Clube Barcelona, Colgate, Visa e o Fundo Japonês de Desenvolvimento.

Além de investir na formação de novos talentos, Pablo Poder quer desenvolver, nos mais jovens, a paixão pela prática esportiva, “a gente tem toda uma preocupação com as crianças. Qualquer dificuldade pode fazê-las perder o interesse, por isso usamos equipamentos adaptados, cestas mais baixas, bolas mais leves. Só depois, quando adquirem mais força e técnica, é que começam a usar os equipamentos oficiais.  Esse início é muito importante e se não for conduzido com cuidado pode levar o menino ou a menina a desistir. E o nosso trabalho é dar as melhores condições para que ele ou ela goste do esporte, mesmo que não tenha como meta se profissionalizar”.   A plataforma Jr. NBA atende mais de 6,5 milhões de jovens, meninos e meninas, em mais de 30 países.

Para quem gosta de basquete, tem talento, disciplina e acredita no jogo coletivo, o Jr. NBA pode ser o início de uma trajetória de sucesso. Nos EUA, a maioria dos jogadores de basquete sai de comunidades que, guardadas as devidas proporções, lembram a Maré. Algo parecido com o que acontece com o Futebol no Brasil. Mas o Jr. NBA também está a aberto para quem quer apenas se divertir e praticar um esporte. Tem lugar pata todos.

O basquete é uma das engrenagens mais bem-azeitadas dos Estados Unidos. As universidades, por exemplo, dão bolsas de estudos integrais aos jovens mais promissores.  O campeonato universitário é muito forte e é lá que as franquias se abastecem de novos talentos.  Boa parte dos jogadores americanos da NBA tem diplomas do Ensino Superior. A NBA é muito preocupada com a imagem e o comportamento dos jogadores fora da quadra também é levado em consideração. Será que um dia teremos um draftado [jogador escolhido] da Maré? As condições estão criadas. E o céu é o limite, ou melhor, a NBA é o limite.

 

Duzentos e dez meninos e meninas participam do projeto Jr. NBA na Vila Olímpica da Maré às terças, quintas e sábados | Foto: Douglas Lopes

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