Precisamos falar sobre saúde mental na Maré

Equipe, frequentadores e parceiros comemoram o primeiro ano de atividades do Espaço Normal | Douglas Lopes

Redes da Maré e universidades realizam pesquisa sobre os impactos da violência na saúde mental dos mareenses

Maré de Notícias #101 – junho de 2019

Thaynara Santos

Só em 2019, já são 10 dias sem aulas nas escolas da Maré, 11 dias sem acesso aos serviços públicos de saúde, 16 operações policiais que impossibilitaram moradores de voltarem ou saírem de casa para o trabalho, faculdade ou mesmo a passeio. Isso sem falar na insuficiência de espaços culturais, como bibliotecas, lonas, museus, arenas e cinemas em um território que concentra milhares de pessoas.

 O medo constante de ser ferido ou morto, a necessidade de estar sempre alerta quanto à presença do “caveirão voador” – helicóptero que dispara tiros a deus dará – na comunidade e o risco de sair de casa e não poder voltar devido às operações policiais que podem durar horas a fio afetam, diretamente, a saúde mental e física de quem vive na Maré. Esses fatos não podem ser naturalizados – ainda mais quando alteram o dia a dia de 140 mil pessoas. Os números são do último Boletim “Direito à Segurança Pública na Maré” (2018) e só aumentam.

Por que uns e não outros?

 A Maré resiste a um longo histórico de operações policiais e conflitos entre grupos armados que impactam quase que diariamente na vida de crianças, adultos e idosos. O preconceito, a ausência de serviços públicos de qualidade, a escassez de espaços de arte e lazer, a violência e as mortes destinadas ao território periférico são “justificados” pela guerra às drogas.

 Essa política de guerra às drogas ignora a vida de milhares de famílias que moram no conjunto de favelas da Maré e o cotidiano de seus moradores, pessoas que estudam, trabalham, se divertem e têm sonhos, pelo argumento de que é necessário entrar na comunidade de forma violenta em busca de drogas ilícitas – não permitidas por lei – e de armas.

Em um território que sofre com a desigualdade social e econômica, ter acesso a alguma forma de expressão cultural ou artística só é possível pelo esforço dos próprios moradores em mostrar que a comunidade também tem potência e alegria.

 São inúmeras apresentações de teatro, dança e poesia, mas discutir saúde mental e os danos que a violência causa nos moradores para a construção de um local de cuidado ainda é difícil, seja por medo do desconhecido ou pela falta de informação.

A favela que adoece

 Existem diferentes meios para cuidar do corpo e da mente. Buscar serviços privados de Psiquiatria ou Psicologia ainda são os meios tradicionais, mas nem sempre o valor da consulta é acessível para quem mora na comunidade, mesmo quanto o atendimento oferece preços populares. “Quando a gente fala sobre saúde mental, estamos falando de um tipo de cuidado que, muitas vezes, as pessoas não têm acesso. As pessoas acham que não precisam ir no psicólogo ou psiquiatra, porque não são loucas. Quebrar a ideia sobre o que é ser louco e tirar o estigma criado sobre quem, realmente, tem uma questão agravada de saúde mental é muito importante”, explica Luna Arouca, coordenadora do Espaço Normal.

 Somente duas unidades públicas de saúde que trabalham com transtornos mentais atendem a uma população de 140 mil moradores da Maré. O CAPS II Carlos Augusto da Silva (Magal) oferece atendimento para adultos com transtornos mentais e o CAPSad III Miriam Makeba auxilia pessoas com transtornos associados ao uso de drogas – legais ou ilegais – como álcool, crack e outras substâncias.

 Os CAPS e o CAPSad são centros de acolhimento nos quais pessoas atendidas e seus parentes podem fortalecer os laços familiares e comunitários, por meio do acompanhamento clínico, trabalho e lazer. Esses espaços sofrem com o sucateamento e o descaso, e com a má administração de verbas para manter seu funcionamento. “A ausência e sucateamento das unidades atrapalha muito no trabalho. Se tivesse mais estrutura, mais médicos, mais profissionais, eu acho que teria como realizar um trabalho melhor e abraçar os usuários da cena, após algum momento de violência que eles passaram”, conta Vanda Santos e Sousa, redutora de danos do Espaço Normal.

 Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e CAPSad (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) são unidades de saúde compostas por equipes de médicos, assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, entre outros, destinadas a pessoas que sofrem transtornos mentais. “A equipe realmente precisa estar preparada com um número maior de profissionais. Atualmente, o CAPS trabalha com uma equipe de sete pessoas da Maré, que se dividem durante a semana, por isso fica uma equipe bem pequena e não consegue fazer um trabalho como deveria ser feito, ajudando essa pessoa nas questões que ela traz, como a violência que sofre no território, o consumo de drogas”, completa a redutora.

Construindo pontes

Esses centros de cuidado e outras organizações que pautam drogas, saúde e território, como o Espaço Normal, trazem à tona a importância da discussão sobre saúde mental, promovendo encontros e seminários sobre o tema.

 O Espaço Normal é um local de convivência para quem busca acolhimento, cuidado, trocas e precisa suprir necessidades básicas, como as de alimentação, higiene e respeito. Idealizado pela Redes da Maré, o espaço é fruto de quatro anos de ações e pesquisas realizadas em áreas abertas de consumo de crack, álcool e outras drogas, especificamente na cena de uso da Rua Flávia Farnese, na Maré.

 Uma das três frentes de atuação do Espaço Normal é a produção de conhecimento sobre o uso de drogas na Maré e os efeitos no cotidiano dos moradores. Em uma parceria entre Redes da Maré, UFRJ, UFRGS e Queen Mary University of London (Reino Unido), a pesquisa “Construir Pontes: Fatores associados às experiências de violência e à saúde mental no conjunto de favelas da Maré” será realizada nas 16 favelas que formam a comunidade.

 A pesquisa pretende identificar os impactos da violência e da desigualdade social na saúde física e mental dos moradores, além de avaliar de qual forma o acesso a expressões artísticas e culturais pode auxiliar no bem-estar dessa população. Além disso, entender as demandas em saúde mental dos moradores e pessoas que se encontram em situação de rua e que fazem uso de drogas.

 Seis entrevistadores irão conversar com moradores da Maré e frequentadores das cenas de uso de drogas. A pesquisa será feita de forma comunitária com as associações de moradores e organizações que atendem ao território.

 A pesquisa não exclui a violência sofrida pelas outras comunidades do Rio de Janeiro, porém, a Maré apresenta um cenário complexo em sua forma geográfica e social, com uma grande concentração de pessoas em situação de rua e usuárias de drogas, que são alvo de preconceito e estigma, vivem em espaços destinados à moradia e, muitas vezes, nas chamadas “cracolândias”, além de moradores que têm seu cotidiano interrompido pela violência e assombrado pelo medo.

Se precisar de ajuda, visite esses espaços

CAPS II Carlos Augusto da Silva (Magal)

Área de atendimento: Manguinhos, Maré, Benfica e Tuiuti (AP 3.1)

Avenida Dom Hélder Câmara, 1.390, fundos – Manguinhos

Tel.: 2201-0180/ 97002-1427

CAPSad III Miriam Makeba

Área de atendimento: Bonsucesso, Ramos e Maré (AP 3.1)

Rua Professor Lacê, 485 – Ramos

Tel.: 3889-8441

Espaço Normal

Rua das Rosas, 54 – Nova Holanda 

Oferece: Espaços para higiene pessoal e repouso

Espaço de convivência: de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h

Atendimento sociojurídico: quartas e sextas, das 14h à 18h

Tel.: 3105 – 4767

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