Uma Maré de terra verde

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Perto de casa, as hortas incentivam alimentos saudáveis

Hélio Euclides

Nas grandes cidades, cada vez mais, a terra vem desaparecendo, fazendo prevalecer o asfalto e o cimento.   Há aqueles que lutam pelo espaço de plantio, pelo retorno do ambiente da zona rural em plena área urbana. O encarregado José Maria da Silva e seu ajudante José Targino são dois que aproveitam o pouco espaço de terra que ainda existe nas grandes cidades. Eles plantam feijão de corda, quiabo, couve, bertalha, manjericão, alfavaca, cenoura, fava, cana do brejo, hortelã e vinagreiro, na horta do terreno do CIEP Samora Machel, na Nova Holanda. Igualmente, outras três hortas visitadas não chamam a atenção apenas por produzir e trazer o interior para a Maré, mas por colherem produtos sem agrotóxicos, que moradores recebem gratuitamente ou a baixo custo.

Cada horta com sua peculiaridade e dificuldades que são superadas pelo amor a terra e às plantas colhidas. “Sou mineiro e desde 1970 eu trabalho com horta. A natureza é sabedoria, a terra é vida e, por isso, é um trabalho que traz felicidade, pois acalma a mente”, destaca José. Ele lembra que a horta do CIEP Samora Machel começou em 1996, e passou por inúmeros apoios até chegar à Prefeitura, com o projeto Horta Carioca. A Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente administra a horta com ajuda de custo, sementes e adubo.

A diminuição da Horta Carioca

Sobre as hortaliças produzidas nos canteiros, todas são alimentos orgânicos, e 90% são destinadas para as crianças do CIEP. “Elas visitam o espaço e recebem explicação sobre o que vão levar para casa”, conta José. Hoje são 16 canteiros, mas no tempo de glória o espaço utilizado de plantio era de 130 canteiros, com 12 funcionários. “É um absurdo a destruição. Quebraram o banheiro e o telhado do almoxarifado. O espaço em torno é uma lixeira. Aqui tinha tudo, hoje é reduzido”, comentou um morador que preferiu não se identificar. José já pensa no futuro: “esse espaço tem de ser preservado, não pode virar cimento, como a grande parte da cidade”, desabafa.

Em Roquette Pinto, há 5 anos,  o contrato do projeto Horta Carioca foi extinto. “Eu queria que voltasse, pois era bom para a comunidade, as hortaliças eram distribuídas para os mais necessitados. Hoje, parte do terreno ainda existe, e um morador preserva, ele planta para consumo próprio”, relata o presidente das Associações de Moradores Roquete Pinto e Praia de Ramos, Cristiano Reis.

O Horto Escola do Parque Ecológico da Maré foi criado em março de 2002. Dessa fase só ficou a placa. João Pereira da Silva, 63 anos, mais conhecido como Bolado, lembra com saudade dos tempos áureos. No passado, eram mais de 30 canteiros em funcionamento, hoje poucos resistem. O Horto produz jiló, berinjela, quiabo, tomate, fruta do conde, laranja, limão, romã, aroeira, acerola, salsa, cebolinha, pimentão, pimenta e coentro, que são doados para creches, escolas e moradores.

Um dos problemas do lugar é a falta de água. “Aqui nem com bomba. Estamos instalando uma caixa para ter uma reserva d’água”. Outra dificuldade vem dos moradores que danificam o espaço. “Por isso, precisamos trocar o gradeamento, algo que já foi medido pela Prefeitura. Todos precisam entender que aqui é muito importante, uma horta dentro da única área verde da Maré. Nos canteiros são cultivadas verduras sem o uso de agrotóxicos, algo bonito, natural e saudável”, revela a presidente da Associação de Moradores do Parque Ecológico, Cláudia Lúcia.

O cuidado com o meio urbano

Quem passa pela Linha Amarela não percebe que próximo à Unidade de Pronto Atendimento tem uma horta, que nasceu há quatro anos. Um espaço de proteção, com diversidades de hortaliças, em plena Rua Nove, da Vila do João. O terreno de 20×5 metros é uma concessão feita pela Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente à Associação Brasileira no Tratamento do Solo e Guardiões da Natureza (Promissave). “É uma horta urbana, num espaço que desejamos que vire um cartão postal para a Maré. Aqui reaproveitamos material orgânico, com composto do minhocário, para a criação de hortaliças orgânicas”, afirma o técnico em minhocultura[1], Erivaldo Monteiro.

O projeto nasceu do desejo de revitalizar uma área que acumulava entulho. No terreno são produzidas mostarda, rúcula, couve manteiga, abóbora, alem de alecrim. O carro-chefe é o quiabo a metro. Por aqui é realizado o Curso de Agroecologia, que reúne 30 alunos, com o apoio da UFRJ e do projeto Muda Maré. Erivaldo lembra que a associação não tem patrocínio, por isso algumas hortaliças precisam ser vendidas para a manutenção da horta.

Verduras num cantinho da Vila

Há 17 anos, quando chegou à Vila Olímpica da Maré, o supervisor Pablo Ronaldo Oliveira começou a reflorestar o espaço e há seis se dedica à horta. “Cuido para não parar, tivemos vários apoiadores, mas hoje a crise no País atingiu o espaço da horta. É gratificante ver os alunos receberem alimentos produzidos aqui, além de ser bom preservar a terra”, destaca Pablo.

A Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente esclarece que, na comunidade da Nova Maré, a horta localizada na Vila Olímpica está paralisada por falta de rendimento na produção. A Secretaria aguarda a indicação de novo encarregado para retomar o trabalho no local, com o plantio de verduras e hortaliças, a utilização de técnicas orgânicas e o aproveitamento da mão de obra local, em sistema de mutirão remunerado, auxiliando, assim, na preservação do meio ambiente e no aumento da renda familiar dos moradores das comunidades assistidas pelo Programa.

 

De Petrópolis para a Maré

Bernardino e Soeli, vendem verduras plantadas e colhidas por eles | Foto: Elisângela Leite

Bernardino Vieira Neto e sua esposa, Soeli da Costa Vieira, há sete meses saem todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, de Petrópolis em direção ao Parque União. Os feirantes colocam 34 tipos de verduras à venda. Todas plantadas e colhidas por eles, em Petrópolis. “O bom de plantar e vender é que garanto o produto, e jogo limpo com o freguês. Vendo e sei a procedência. As verduras têm diferença daquelas vendidas na Ceasa, no cheiro, na durabilidade, pois corto na véspera, à tarde. Ainda posso fazer um preço menor, pois não existe intermediário”, detalha Bernardino.

Aos sábados e domingos eles atuam em Santa Cruz da Serra, e não conseguem vender tudo. Então um amigo indicou o Parque União. “Os moradores daqui são bons de lidar, e já são fregueses. Não vendo só o básico, como os outros, destaco o diferencial dos tipos das verduras, como alecrim, manjericão, alho-poró, aipo e nabo”, completa Bernardino.

[1] Minhocultura é uma atividade na qual se utilizam minhocas para a conversão e a transformação de resíduos orgânicos em húmus, Húmus ou humo é a matéria orgânica depositada no solo, um excelente adubo, na produção e qualidade dos vegetais, resultante da decomposição de animais e plantas mortas, ou de seus subprodutos.

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