Por Dentro da Maré #5 Pandemia e internet: mais um dos desafios dos moradores da Maré

Jéssica Pires

A gente usa a internet pra se comunicar, se divertir e ter acesso a direitos. Durante a quarentena, o aumento do uso da internet no Brasil  foi entre 40% e 50%, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).  Essa gigante rede de informações, porém, não chega de forma democrática nos territórios de favela. Dos produtores de conteúdo que lidam com arquivos pesados a moradores que precisam acessar cadastros simples, todos sofrem com a má qualidade. Um serviço que piorou justamente quando mais precisamos dele, seja para prosseguir com os estudos ou solicitar o auxílio emergencial.


Os perrengues

Para o André, que é responsável pelo suporte técnico em TI na Redes da Maré, há pouca concorrência na oferta dos serviços de internet e isso torna a entrega muito ruim: “a quantidade de megas ofertado não corresponde, na prática, à velocidade contratada”. A intermitência também é comentada por muitos moradores. “A quantidade de solicitações de reparos é muito grande”, diz. “Agora na pandemia tem sido mil vezes pior porque não tem técnico pra vir aqui na favela resolver a conexão de internet que normalmente já é ruim e agora está pior ainda”, diz Karina, comunicadora e moradora do Parque União.

Há uma grande diferença de ofertas e qualidade de serviços da Maré em relação a outras regiões da cidade.  Diferença que foi percebida também por Mayara, ex-moradora do Parque União. “Trabalho com audiovisual e demorava horas pra subir um vídeo quando morava na Ari Leão. Era muito lento e sempre que reclamava o atendimento era ruim. Hoje moro na Lapa e a internet é bem mais rápida. Tem várias opções e até hoje não consigo entender o porquê da internet na Maré ser tão ruim se os moradores querem e pedem mais”, explica. 

Pamela, moradora do Parque União e coordenadora do Eixo de Arte, Cultura, Memórias e Identidades da Redes usou as redes sociais para compartilhar um desabafo:  “os moradores de favela ficam à margem de um serviço essencial, que é a internet, ainda mais em tempos de pandemia”. A internet 4G só funciona em dois cômodos da casa.  Ela divide o wifi coma vizinha, uma parceria frequente entre muitos moradores, e a rede fica sobrecarregada. Não suporta chamadas de vídeo e uploads.

Por Dentro do acesso à internet na Maré

De acordo com o Censo Maré, de 2013, 36,7% domicílios na Maré têm acesso à internet. Já o número na região metropolitana do Rio de Janeiro é de 56,1%, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, também de 2013. O Censo Maré também chamou atenção para a diversidade no acesso entre as favelas da Maré. No Conjunto Esperança, 44,1% dos domicílios tinham acesso à internet na época e, em Roquete Pinto, apenas 29,4%, por exemplo. Ao longo dos anos, estes números foram crescendo, principalmente com o uso de smartphones com pacote de dados. Em 2015, uma pesquisa do Data Favela já apontava que 86% dos moradores de favelas tinham celular e ele já era a principal fonte de acesso à internet. Em 2018, a PNAD apresentou uma taxa de 87,3% de domicílios com internet no estado do Rio de Janeiro.

Essencial para garantir direitos
Durante a pandemia, a necessidade da internet aumentou. Precisamos dela para tudo. Até para fazer valer nossos direitos. O auxílio emergencial do governo federal, por exemplo, só pôde ser solicitado por um aplicativo. Na educação, ela se tornou fundamental. Desde março, os professores estão realizando aulas online  pelo aplicativo GoogleMeet  e o principal motivo para a não participação das aulas é a internet.  Entre os 115 adolescentes que frequentam o preparatório para o Ensino Médio da Redes da Maré, a média dos que participa das aulas online é 47. A principal justificativa para a ausência é a instabilidade da rede.  Os alunos que se preparavam para o vestibular também passam pelas mesmas dificuldades. Dos 241 jovens que frequentam o Curso Pré Vestibular da Redes da Maré, apenas 157 tem acesso à internet via cabo ou WiFi e 23 a dados móveis. 

O direito à vida e a segurança pública na Maré também estão ligados ao acesso à internet. Em dias de operações policiais, os moradores, em sua maioria, se informam sobre fechamento de escolas, postos de saúde e de circulação no território pelos grupos de WhatsApp e Facebook. 

O acesso à internet em muitos países é um direito constitucional. No Brasil, existe a “Lei do Marco Civil da Internet” que diz que o acesso à rede é importante para garantia da cidadania. Há também um proposta de emenda à Constituição (PEC) 8/2020, que segue em tramitação no senado, que defende que o acesso à internet é direito fundamental.

A gente também quer visibilidade!

“O acesso à internet livre e gratuita é tão fundamental para a educação quanto para um acesso à informação mais livre, para você buscar suas próprias fontes” , diz a
jornalista Thamyra, coordenadora do GatoMidia, espaço de aprendizado em mídia e tecnologia do Complexo do Alemão. Para ela, o acesso à internet possibilita que as pessoas de territórios de favelas também produzam sua comunicação, “hoje o favelado faz muito mais upload, do que download”.

Durante a pandemia, vários coletivos, organizações e pessoas se mobilizaram para produzir conteúdo sobre o novo vírus. Dados, prevenção, ações que acontecem na Maré e tudo que gira em torno da favela e esse momento que estamos vivendo. Foi assim que o surgiu o “Corona Favelado”, perfil no instagram administrado pelo artista Raphael Cruz. 

Já o  Raphael, morador da Nova Holanda e do canal Nada com Nada” do Youtube, criou uma conta no “TikTok”, um aplicativo para criação e publicação de vídeos rápidos que tem bombado durante a pandemia. Depois de 3 meses, o perfil do Rapha chegou a 100 mil seguidores na nova rede.


O que fica de aprendizado com a pandemia: democratizar o acesso de qualidade e a preço acessível à internet traria ainda mais potência à Maré. A quem acessa à rede em busca de direitos básicos e fundamentais, como a educação e informação. E também a quem produz e publica suas próprias narrativas, como nós. Criar é coisa da favela. E a gente segue criando maneiras de garantir o acesso a direitos e contar nossas histórias, articulando os saberes e os recursos disponíveis.   

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