Brechós favelados movimentam economia local com roupas carregadas de afeto

Julie Oliveira, Stefany Silva e Creusa Maria são algumas das brecholeiras da Maré - Foto: Douglas Lopes

Jovens moradoras da Maré que empreendem em brechós on-line falam da importância de se valorizar empreendedores favelados e da vivência com seus empreendimentos na pandemia

Flávia Veloso

Ressignificado pelo gosto popular, hoje os brechós e bazares são sinônimos de estilo e autenticidade. Com peças de todos os tipos, épocas e tamanhos, as possibilidades de se montar visuais únicos refletem na roupa traços de personalidade e criatividade. Afinal, vestir-se bem não é só usar o que se vê nas vitrines dos shoppings, mas o que te faz sentir bem consigo mesmo e com seu bolso. 

Comprar roupas em lojas de marca e departamento não é acessível para o bolso de muitos moradores de favela e periferias: uma peça que custa R$100 pode estar fora do orçamento, mas o costume de consumir somente peças novas fala mais alto e muitas vezes é o bolso quem sofre. A renda mensal por pessoa das favelas cariocas não chega a R$1.000, segundo levantamento feito pelo Censo 2010 do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. 

Certamente você já cruzou com algum bazar ou brechó na Maré, em lojas, barracas e até igrejas. Esses locais, assim como outros empreendimentos, são importantes economicamente para o sustento de famílias e projetos sociais. Por mais que se pareçam, os espaços têm as suas diferenças. Os bazares geralmente recebem doações de itens diversos e vendem a preços muito baratos. Essa renda costuma ser destinada a projetos e causas sociais. É característico também que as peças e acessórios fiquem misturados. Já nos brechós, as roupas são compradas e revendidas. As peças costumam ser lavadas e organizadas – algumas passam por customizações – e custam bem mais barato que nas lojas convencionais. 

Enfrentando a pandemia

Com a chegada do novo coronavírus e a necessidade do fechamento dos serviços não essenciais, os comerciantes de favelas viram seu empreendimentos ameaçados pela perda do poder de compra dos moradores. A pandemia causou impacto direto na economia: a renda da população de favelas reduzida em 70% desde que a Covid-19 chegou ao Brasil, como aponta uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e o Data Favela.

E o poder de compra do favelado movimenta muito dinheiro. Por ano, quase R$120 bilhões saem dos bolsos de quem mora na favela. É um potencial de consumo que, se aplicado ao comércio local, poderia estimular o desenvolvimento econômico e social desses territórios.

Para Stefany Silva, moradora do Rubens Vaz e fundadora do brechó Jeans Ancestral, a valorização do fluxo de dinheiro dentro território está mais evidente neste momento, e isso fortalece a cadeia de compras sustentável dos brechós e bazares, contribuindo para manter a renda dos microempreendedores. 

“A forma que as pessoas podem ajudar no meu trabalho é comprando, que é a forma mais transparente, porque a venda gera capital de giro e lucro. Com o capital, posso comprar dos brechós de outras mulheres, e o lucro me permite investir em cursos e equipamentos, para melhorar meu negócio. Também dá para compartilhar [meu trabalho] com outras pessoas que gostem de brechó e me dar o feedback do meu serviço, isso me dá oportunidade de fazer melhorias e repensar prioridades e necessidades”, destaca Stefany.

Stefany Silva, dona do Brechó Jeans Ancestral  – Acervo pessoal

A pequena empresária vinha preparando o Jeans Ancestral desde 2019 para inaugurar em abril de 2020, e se viu preocupada com o lançamento do seu negócio: “Eu investi em equipamentos, como arara e biombo, para eventos físicos, mas veio a pandemia. De início, fiquei preocupada com quem trabalha de forma autônoma, principalmente porque vivenciei isso na minha casa – meu padrasto é autônomo e minha mãe está desempregada -, mas uma das coisas que me fez pensar em não adiar o lançamento do brechó foi o cuidado com o outro. Percebi o quanto entregar algo para alguém é tão importante na minha trajetória. Uma embalagem, para uma pessoa que não está num bom momento, com aquele cheirinho de alecrim que lembra o quintal da minha avó, com escritas minhas, que me lembram minhas ancestrais, me fez ver que valia a pena”, contou Stefany.

As incertezas trazidas pela pandemia interromperam por algum tempo as vendas de outro empreendimento on-line, o Brechó Fresh, da moradora do Rubens Vaz Creusa Maria. Desde 2019 no mercado, com peças customizadas pelas mãos da própria dona, a necessidade de voltar aos negócios se fez mais forte que o medo de se contaminar quando Creusa viu as contas da casa começaram a “apertar”.

Novos desafios, novas estratégias

As meninas tiveram que contar com a criatividade para manter os negócios. Isso porque o envolvimento afetivo com os clientes é um ponto muito importante para as duas marcas, o que impediu as entregas feitas diretamente aos compradores. 

Creusa diz que o maior desafio para ela são as entregas, pelo medo de expor sua saúde: “Acredito que o maior desafio seja esse, as entregas. Pois, mesmo com todos os cuidados, nós ainda estamos na rua e em local público entregando. Querendo ou não, causa preocupação. Quando decidimos voltar, a ideia inicial era realizar as entregas por bike, com uma empresa terceirizada. O cliente pagaria o frete e eles entregariam na casa da pessoa, mas essa empresa não entra na favela e precisaríamos de um local fixo para o ciclista pegar os pacotes, e ainda não conseguimos fazer isso, mas é um plano futuro”, contou.

“As pessoas podem ajudar no nosso trabalho não apenas comprando, mas também compartilhando quando tem peças novas, divulgando para os amigos… O “boca a boca” é a melhor divulgação que existe. Valorizar nossa arte, porque as blusas que pintamos leva tempo e também estudo de anos por trás, mas nós sempre pensamos em tornar acessível a todas e todos, porque grande maioria do nosso público é morador de favela e periferia como nós”, observa Creusa.

Creusa Maria, criadora do Brechó Fresh – Acervo pessoal

Aproveitando a oportunidade de demandas para lugares fora da Maré e até do estado do Rio, Creusa lançou o site do Brechó Fresh, onde os clientes de todos os gêneros podem conferir as peças, tirar dúvidas pelo link de WhatsApp do brechó, calcular o frete, pedir customizações e comprar com facilidade.

Inaugurando um brechó em plena Covid-19, Stefany Silva também buscou estratégias para agradar seus compradores e compradoras. A mareense sempre oferece descontos ou agrados, e ela explica que isso vai para além lucro: “Quando a pessoa leva mais de duas peças, geralmente dou um desconto ou dou uma peça que compro de um brechó da Maré, isso ajuda o empreendedor local e é uma forma de presentear o cliente do Jeans Ancestral.”

Para incentivar essa forma de comprar, é necessário também acabar com o preconceito que se tem sobre energia das peças. Stefany Silva e Julie Oliveira são as mareenses idealizadoras do Brechó In Favela, on-line, e tentam reverter esse preconceito conectando cliente e peça por meio de histórias: “Contamos a história daquela roupa, os processos pelos quais ela passa. Isso gera empatia. Pode ser só uma blusinha, mas a história por trás gera um interesse”, explicou Julie Oliveira, que mora na Nova Holanda.

“Acredito que, nesse momento, é extremamente necessário apoiar todas e todos os trabalhadores independentes, principalmente do nosso território. As pessoas não têm noção de como é importante um compartilhamento, uma indicação e principalmente a escolha de priorizar e consumir desses espaços [das favelas]”, comenta Julie.

Julie Oliveira, uma das idealizadoras do Brechó In Favela – Acervo pessoal

As atividades do In Favela estão suspensas durante este momento, mas a pausa nada tem a ver com o novo coronavírus. Suas criadoras estão empenhadas em estudos, pesquisas e autoconhecimento, para que o brechó volte à ativa com roupas cheias de personalidade e identidade. 

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