Do lixo ao luxo, mesmo com a pandemia

Valdemir Gomes é um dos garimpeiros que viu a desvalorização do preço dos materiais nos ferros-velhos - Douglas Lopes

Catadores relatam dificuldades nos últimos meses, mas não desistem da reciclagem de materiais

Maré de Notícias #115 – agosto de 2020

Hélio Euclides

Esse ano não teve visita do Coelhinho da Páscoa, almoço do Dia das Mães, Festa Junina e o presente do Dia dos Pais talvez seja a tradicional canção do Fábio Junior, enviada pelo WhatsApp. A pandemia mexeu com a economia e essas comemorações, assim como outras, não aconteceram e o dinheiro não circulou. Os mais prejudicados são os que conseguem ganhar a vida no mercado informal, na maioria das vezes os que atuam na rua. Um exemplo destes profissionais é o catador de materiais sólidos ou, como desejam ser chamados, “garimpeiros da reciclagem”. Com a pandemia, eles ficaram em isolamento e perderam renda. A reabertura, entretanto, parecia um retorno às atividades e ao lucro, mas estes profissionais encontram a desvalorização nos preços e pouco dinheiro no bolso.

Durante o isolamento social, o Grupo de Trabalho de Resíduos Sólidos da Rede Favela Sustentável organizou uma live interativa que desejava saber quais os impactos da pandemia na vida dos catadores. Além de discutirem os principais empecilhos, os catadores enfatizaram as diversas maneiras pelas quais são essenciais para a sociedade, sendo a economia um dos fatores. Os catadores exigem valorização, já que exercem um papel crucial para a reciclagem, sendo agentes ambientais. Eles também lembram que a categoria é indispensável na cadeia produtiva e, hoje, o maior desafio é enfrentar a ideia de prefeituras de que o lixo deve ser enterrado ou incinerado. Por fim, destacaram durante o encontro virtual que lixo também é dinheiro e, quando reciclado, gera emprego e renda, mas se vão para o aterro sanitário é despesa e poluição.

Ilaci de Oliveira, da Cooperativa Transvida na Vila Cruzeiro e integrante do Grupo de Trabalho de Resíduos Sólidos da Rede Favela Sustentável, participou da live. Ela conta que, com o isolamento social, as pessoas ficaram em casa e se formaram mais materiais sólidos, mas em compensação o preço para a venda despencou. “Isso prejudica, pois temos de trabalhar mais para conseguir o valor necessário para comprar alimentos e materiais de higiene para casa”, diz.

A catadora afirma que, nesse momento, mais do que em outros, o ideal é a formação de cooperativas de catadores. Ela afirma que montar uma cooperativa não seria tão difícil. O primeiro passo seria ver se tem um grupo que já realiza um trabalho na favela. “Em 2006, convidei duas pessoas que já coletavam resíduos para formalizar, depois vieram mais pessoas, hoje somos 28 mulheres. Nos mobilizamos e conscientizamos a comunidade para a importância de separar os materiais. Nada é impossível, tem de ter uma boa articulação para explicar o trabalho e dividir tudo em partes iguais”, comenta. Ilaci indica que para a formalização da cooperativa é preciso sete pessoas para compor a diretoria e ter os recursos para a documentação.

Outro que participou da reunião virtual foi Gilberto Batista, de 56 anos, fundador do Projeto Limpa Só Lazer, no Salgueiro, e integrante do Grupo de Trabalho de Resíduos Sólidos da Rede Favela Sustentável. Ele conta que a pandemia trouxe o medo de se contaminar durante o trabalho, pois além de ficarem expostos nas ruas, os profissionais não têm equipamentos de proteção individual. “Os ferros-velhos ganham, pois compram barato, armazenam e vendem para grandes indústrias. Precisamos que a sociedade valorize o catador, pois nós queremos uma favela limpa. Com o nosso trabalho, diminuem as enchentes”, avalia. Para Gilberto, o governo precisa acabar com as burocracias e trazer incentivos para o catador. “Somado a isso, é necessário acabar com a desunião, na qual cada um caminha sozinho. É indispensável se criar um fórum para que todos tenham entendimentos sobre a profissão, pois o conhecimento liberta”, conclui.

Ajude os catadores

A Rede Favela Sustentável criou uma campanha unificada do Grupo de Trabalho de Resíduos Sólidos, para apoiar diversos movimentos de ajuda a catadores da cidade do Rio durante a pandemia. Basta seguir #ApoieUmCatador nas redes sociais para obter mais informações.

https://www.paypal-brasil.com.br/doe/apoieumcatador#all

A Cooperativa Transvida fez uma vaquinha on-line em busca de apoio para a compra de produtos de limpeza e alimentos básicos para proteger as famílias dos catadores.

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoio-no-combate-ao-coronavirus-na-periferia-ilaci-de-oliveira-luiz

Os catadores da Maré

Vagner Moreira, de 38 anos, trabalha como catador há nove anos com sua carrocinha. Morador da Nova Holanda, ele completa a sua renda com bicos, como descarregar caminhão. Na pandemia, teve de interromper o garimpo, pois as lojas de Bonsucesso, onde atua, ficaram fechadas. Até os ferros-velhos da Maré não funcionavam. Para piorar, o preço de compra era menor quando reabriram.

Ele é um dos inúmeros catadores que trabalham até 12 horas por dia, sem almoço, em ambiente insalubre, carregando o peso dos produtos que recolhe por longos trajetos, debaixo da radiação solar ou de chuva. “Meter a mão no lixo é difícil. As pessoas têm nojo da gente. É uma vida dura, saio de madrugada ou trabalho a noite toda. Por outro lado, é um serviço honesto, onde arrumo dinheiro sem prejudicar o próximo”, diz. Vagner conta que nunca falaram com ele sobre cooperativa. “Acho que seria uma boa para nós, com uma possível parceria para limpar os valões. A legalização seria a oportunidade para receber um benefício, como ter aposentadoria”, explica.

Por temerem contágio de Covid-19, garimpeiros ficaram sem renda na pandemia – Foto: Douglas Lopes

Há sete anos, Valdemir Gomes é garimpeiro na Maré. O morador do Rubens Vaz tem 41 anos e reclama que, nessa pandemia, chegou a vender garrafas de refrigerantes por apenas 50 centavos por quilo e plástico duro por 40 centavos. Isso o desmotiva a continuar. “É uma vida dura de ver no lixo uma forma de sustento. Trabalhamos sem banheiro e tentando superar o maior obstáculo que é o preconceito. Nesse período de pandemia, a força dos catadores veio das instituições e igrejas que os fortaleceram com alimentos. Agora precisamos de luvas, botas, máscaras e materiais para higienização”, conta. Valdemir calcula que a Maré tenha uns 500 catadores.

Ele começa no batente na madrugada, às 4h, para pegar as ruas ainda vazias e acredita que ser cooperativado evitaria de que o lucro caísse nas mãos dos ferros-velhos. “Eles nos exploram. Nós, que vivemos do material que vendemos, precisamos de orientações e consciência. Esperamos que, após a pandemia, os preços dos materiais aumentem”, diz. Valdemir está tirando todos os documentos e recomenda a todos os garimpeiros que façam o mesmo, pois assim será mais fácil trabalhar legalizado.

VOCÊ SABIA?

De acordo o Censo do IBGE de 2010, existem no Brasil cerca de 398 mil pessoas ocupadas como catadores. A cooperativa EccoVida estima que, passados 10 anos, e com o panorama econômico durante a pandemia, este número possa ser ultrapassado apenas no estado do Rio de Janeiro. A atividade profissional dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis é reconhecida pelo Ministérios do Trabalho e Emprego desde 2002, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).

A Lei Nacional de Resíduo Sólido nasceu com o objetivo de promover a gestão dos resíduos sólidos, bem como a inclusão social e valorização profissional dos catadores de materiais recicláveis. A Lei instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que recomenda ao poder público a implantação de infraestrutura física e aquisição de equipamentos para cooperativas, a disponibilização de postos de entrega de resíduos reutilizáveis e recicláveis e a atuação em parceria com cooperativas ou outras formas de associação de catadores.

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