Memorial Maré: o direito à memória a partir da humanização de trajetórias

Fotos: Naldinho Lourenço

Projeto, proposto pela Redes da Maré, tem por objetivo trazer à memória os homicídios ocorridos na região, utilizando para isso linguagens artísticas que apresentem novas narrativas sobre essas pessoas e suas vidas.

Camila Barros*

Valdeci era flamenguista doente! Se estivesse vivo para ver o Flamengo na final da Libertadores, ia ser festa na favela o ano todo. Jeremias era brincalhão e tinha o sonho de ser jogador de futebol – não perdia uma aula da Escolinha de Futebol do Serginho. Johnson e Marcos Vinicius moravam em locais muito diferentes da Maré – um na Vila do Pinheiro e o outro na Nova Holanda. O que os dois tinham em comum? O sonho de ser rapper.  

Sonhos! Sonhos interrompidos precocemente pelas dinâmicas da violência armada na Maré. Vidas que pulsavam pelos becos e vielas do conjunto de favelas da Maré que foram interrompidas de forma abrupta e extremamente violenta. Apenas no ano de 2019, entre janeiro e outubro, 38 pessoas foram assassinadas por armas de fogo no bairro. Os dados são fruto do projeto “De olho na Maré”, que tem como objetivo produzir dados e narrativas sobre os impactos da violência armada nas 16 favelas da Maré. Destes, 79% eram jovens entre 15 e 29 anos; 99% do gênero masculino; e 94%, negros. Os dados empíricos nos mostram que os jovens negros e moradores de favela são os que estão tendo seus sonhos interrompidos, pagando o preço da violência com a própria vida. 

A produção de conhecimento hegemônica, assim como a narrativa da mídia e do senso comum, não demonstram a verdade sobre os impactos da política de segurança pública que saltam aos olhos de quem vivencia o território. Essa visão não parte da realidade como ela se dá, parte de uma ideia estigmatizada do que é favela, uma ideia do que é ser favelado e uma ideia de como a violência é reproduzida nesse espaço. Os dados quantitativos produzidos pelo projeto “De Olho na Maré” não conseguem dimensionar os impactos dessas violências sobre as trajetórias de quem vive aqui e o desenvolvimento deste território.

Memorial Maré

Nesse sentido, o Eixo de Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, da ONG Redes da Maré, propõe a construção do Memorial Maré, projeto que visa trazer a memória sobre os homicídios ocorridos na região, a partir de linguagens artísticas, que apresentem nova narrativas sobre essas pessoas e suas vidas. Partindo da ideia de sonhos interrompidos, o Memorial Maré tem o objetivo de fortalecer histórias e trajetórias a partir de entrevistas com familiares e amigos das pessoas que foram assassinadas no contexto da violência armada. Além de singularizar e humanizar a história das vítimas, o Memorial Maré visa desnaturalizar a forma brutal como essas vidas são interrompidas, assim como desconstruir a ideia de que a violência é algo natural e faz parte do cotidiano das favelas e espaços populares. O projeto irá construir um mapa afetivo on-line com as histórias contadas pelos familiares, além do memorial físico no muro em frente à Praça da Paz, na rua Ivanildo Alves, que contará com jarros de barro com bromélias e o nome de pessoas que foram mortas por arma de fogo.

Evidenciar a importância da construção dessas memórias, lembrar-se dessas pessoas, de suas histórias é fundamental para pensarmos a superação das violências e violações que os moradores das Favela da Maré sofrem, chamar atenção de todos sobre o absurdo destas mortes. A memória é um direito a partir do qual os familiares das vítimas podem construir suas narrativas, contribuindo para a desconstrução de conceitos pré-estabelecidos e a criminalização dos moradores deste território. 

Diante a frágil democracia existente no Brasil e os últimos retrocessos políticos, mostra-se de fundamental importância reafirmar a condição de cidadãos de direitos de todas as pessoas da cidade, sem qualquer distinção de cor, classe ou local de moradia. Embora, os moradores da Maré e de outras favelas não tenham experimentado a democracia e a cidadania de forma plena, reforçar seus nomes, suas trajetórias e afetos é um ato de reafirmar direitos e uma estratégia local para enfrentamento das sistemáticas formas de violências e de violações a que estão submetidos os quase 140 mil moradores das 16 favelas que compõem a Maré.

*Camila Barros é coordenadora do projeto “de Olho na Maré”, do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, da Redes da Maré

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