A ilegalidade dos “Caveirões Voadores“

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A ilegalidade dos “Caveirões Voadores”

Em 20 de junho de 2018

Por Maria Morganti

Sete pessoas assassinadas, entre elas dois adolescentes (Marcos Vinicius da Silva de 14 e Levi de 18) , um mototáxi atingindo por estilhaços de bala, estas foram algumas das consequências da operação policial de hoje, na Maré. Por volta de 9h30, Conjunto Esperança, Vila do João, Vila dos Pinheiros, Pinheiro e Salsa & Merengue viviam momentos de pânico, com o início da operação conjunta da Polícia Civil e Exército. Moradores registraram em vídeos o helicóptero, apelidado de “caveirão voador”, atirando para baixo indiscriminadamente. É importante lembrar que essa é uma prática ilegal, que a Polícia Civil vem recorrendo nas últimas operações na Maré, conforme registramos há 9 dias nas favelas da Nova Holanda e Parque União.

Hoje, o chão da favela está com muitas marcas de tiro e com restos de munição. Nas ruas da Vila dos Pinheiros e na Praça do Salsa, o cenário é aterrorizante: na B1, em um perímetro de 280m a equipe da Redes da Maré, contabilizou 59 marcas de tiro no chão. Ainda nessa região, muito próxima as escolas do Campus Maré II e Creche da Vila dos Pinheiros, registramos mais de 100 marcas de tiro do chão, deixando evidente o risco a que estavam submetidas crianças e adolescentes que se encontravam nas escolas.

Na Vila dos Pinheiros, moradores relataram que 5 jovens foram executados por agentes do Estado. Segundo informações colhidas pela equipe da Redes da Maré os policiais utilizavam luvas e teriam desfeito a cena do crime jogando os corpos dos jovens pelo segundo andar da casa onde ocorreu o crime, demonstrando a não garantia de investigação e perícia.

Por volta das 11h, policiais dificultavam a circulação de moradores na favela e a tensão ainda era muito grande. Ainda segundo relatos, casas foram arrombadas e invadidas pelos agentes do Estado mesmo sem mandado judicial, outra ilegalidade.

A equipe da Redes da Maré também entrou em contato com a Polícia Civil, mas não obteve qualquer resposta sobre a operação. Em contato com a assessoria de imprensa do Exército, esta afirmou por email que “apoia a operação da Polícia Civil logisticamente com dois veículos blindados”.

Ações como as de hoje demonstram o quanto a política de Segurança Pública, não cumpre seu papel na garantia de direitos. Ações policiais nas proximidades de escolas, uso de helicóptero blindado atirando de cima para baixo, o desprezo do Estado pelas vidas de moradores da Maré – com a execução sumária de 5 jovens – é um verdadeiro absurdo.

Porém, a Maré já se levanta. Menos de uma hora após cessar os confrontos, moradores da Maré, Associações de Moradores e a equipe da Redes da Maré sinalizavam com tinta ( como o trabalho da perícia) contabilizando os tiros dados pelo “caveirão voador”. Uma moradora falava em alto e bom som: “Se eles vem aqui nos matar e não fazem perícia, nós temos que fazer”. Outros movimentos e manifestações contra a barbárie desse dia 20 de junho, estão sendo planejadas por moradores.

1 COMENTÁRIO

  1. Registro aqui minha solidariedade ao povo oprimido da Maré e de tantas outras comunidades carentes vitimadas pela brutalidade policial.

    Fato é que as agressões covardes e as inúmeras ilegalidades cometidas diariamente pelos agentes do estado, asseclas da insegurança pública, já constituem crimes hediondos. E a prática de realizar vôos rasantes de helicópteros para metralhar áreas densamente povoadas, constitui crime de guerra contra a população brasileira.

    A violência policial testemunhada em nosso país precisa ser enfrentada na arena política, através do uso dos meios democráticos.

    [Neste sentido, vale transcrever a seguir um breve comentário que escrevi no dia 22/06]

    FRENTE AMPLA CONTRA A EXCEÇÃO E O EXTERMÍNIO

    É preciso denunciar e repudiar em todas as esferas a barbárie desencadeada pelo estado policial, implantado pelo governo ilegítimo e temerário, que se apossou do poder para servir aos interesses predatórios da usurpação e da desestabilização.

    Os crimes aviltantes cometidos pela brutalidade policial são de responsabilidade direta dos poderes executivo, legislativo e judiciário, que se mostram coniventes e cúmplices do extermínio genocida, evidenciado à exaustão na favela da Maré.

    A inexistência de coibição rigorosa para obstar a prática das atrocidades perpetradas contra a população nos morros e nas periferias induz, de maneira direta, o acirramento da violência policial, conduzida à escala da desumanidade hedionda.

    Urge promover a formação de uma frente política em defesa da ética e da dignidade, mediante lançamento de candidatura à presidência da república com compromisso real firmado sobre plataforma democrática, que tenha por base o efetivo e imediato resgate da legalidade constitucional, rompida pelos asseclas da construção do caos.

    É indispensável que os partidos políticos que têm efetivo compromisso com as causas populares percebam a necessidade de construir um projeto de programa de governo de união nacional, capaz de reverter os retrocessos promovidos pelo estado de exceção mal dissimulado, que hoje vigora de fato, e que viola o estado democrático de direito.

    Urge difundir uma plataforma política que fale e linguagem do povo, que seja feita por pessoas que tenham suas origens e suas vivências identificadas com a realidade do povo e que seja voltada para a garantia dos direitos sociais e do pleno respeito à dignidade humana, pois assim o povo saberá escolher seus verdadeiros representantes.

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