Caveirão Voador efetua disparos próximo à colônia de férias na Maré

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Foto: Douglas Lopes

Em 24/01/2019 – Eliane Salles (com informações fornecidas pelo Eixo Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré)

Tiros disparados de cima para baixo colocam em risco a vida de crianças e milhares de moradores do bairro; ação vai de encontro à proposta da Defensoria Pública de não serem utilizados helicópteros como plataformas de tiros em operações.

Em menos de três dias, a Maré foi alvo de duas operações policiais que trouxeram pânico, terror e desconforto para os moradores e prejuízos para a economia local. No dia de hoje, 24, a operação chegou ao cúmulo de pôr em risco a vida de crianças que participavam de uma colônia de férias na Vila Olímpica da Maré, local próximo às áreas onde ocorreram intensos tiroteios e disparos, de cima para baixo, de um helicóptero, conhecido por Caveirão Voador. Ambas as operações foram realizadas na Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau e Conjunto Bento Ribeiro Dantas, três das 16 favelas que compõem a Maré.
A primeira aconteceu na última terça-feira, 22, quando policiais entraram nas favelas em um carro blindado. Houve muitos tiros, correria e desespero. Moradores tiveram que se proteger dentro de casas e estabelecimentos comerciais – muitos deles sem qualquer refrigeração possível, uma vez que as fiações de telefone, internet e luz foram arrebentadas pelo blindado. Cabe ressaltar que nesse dia, como em todos os outros deste janeiro, o Rio e a Maré registraram altas temperaturas, cuja sensação térmica passa dos 40º.
Os percalços dos mareenses vão além. Postos de saúde tiveram que parar suas atividades e muitos moradores que não estavam na Maré ficaram preocupados com a volta para casa (a operação começou às 15h) e sem poder ter qualquer contato com familiares e amigos. Na ocasião, a polícia ainda invadiu e destruiu casas no Morro do Timbau.
A equipe do Eixo Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré entrou em contato com as assessorias de comunicação das Polícias Militar e Civil com o intuito de obter informações, inclusive de confirmar se se tratava uma operação policial. A assessoria da Polícia Militar negou que estivesse realizando qualquer operação na Maré. Até o fechamento desta reportagem, a assessoria da Polícia Civil não havia se pronunciado. No entanto, moradores identificaram que a incursão foi feita pela Delegacia de Combate às Drogas (DCOD).

Outra operação, mais violência

Hoje, 24, mais uma vez, a Maré viveu um dia de terror com outra operação policial nas mesmas favelas. Desta vez, a ação foi iniciada com voos rasantes, feitos por um helicóptero utilizado como plataforma de tiros (que dispara tiros de cima para baixo), na região da Praça do Dezoito. O Eixo Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré ouviu vários relatos dando conta de tiros, novamente, disparados de cima para baixo. Um deles, comprovado pelas sete marcas de tiros que podem ser conferidas na Avenida dos Patriotas (local de lazer de crianças, jovens e adultos) revela que no momento dos disparos um adolescente e seu pai estavam no local e tiveram que correr para não serem alvejados. A operação desta quinta contou ainda com dois blindados.
Procurada novamente pela equipe da Redes da Maré, as assessorias mais uma vez negaram as incursões policiais, embora as mesmas tenham sido testemunhadas por milhares de moradores e registradas por fotos e vídeos.

Desrespeito à Ação Civil Pública

Operações como as efetuadas esta semana na Maré desrespeitam pontos propostos por uma Ação Civil Pública (ACP) impetrada pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, entre eles, o que estabelece que uma ambulância seja disponibilizada nas ações policiais. Existe ainda um processo em tramitação no qual a Defensoria pede a suspensão do uso de helicópteros como plataforma de tiros em operações policiais. A audiência, que estava marcada para novembro passado, foi suspensa e, até esta data, não foi remarcada. Ações como as de hoje abrem precedentes para que helicópteros voltem a ser usados como plataforma de tiros, algo que coloca em risco a vida milhares de moradores das favelas cariocas – especialmente (como se tem visto nos últimos tempos) de 140 mil crianças, jovens, adultos e idosos da Maré. “Operações com uso de helicóptero já trouxeram muitos danos em outras ocasiões. E nós avaliamos que práticas como essa não garantem o direito à vida dos moradores da Maré. Precisamos ter ações policiais que considerem a vida da população que vive aqui”, afirmou Lidiane Malanquini, coordenadora do Eixo Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré.

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