Mais um dia de medo e tensão na Maré

Maré de Notícias #92 – 03/09/2018

Operação policial, mais uma vez, é marcada por ilegalidade e violação de direitos

Eliane Salles

O dia 20 de agosto de 2018 entrará para a extensa lista de incursões policiais, caracterizadas por truculência, ilegalidade e homicídios, nas favelas cariocas. E, mais uma vez, a favela da Maré esteve no olho do furacão. Foram 14 horas ininterruptas de uma ação cuja tônica, como é recorrente, foi o menosprezo pela vida e pelos direitos dos favelados.

Por volta de 1 hora da madrugada, as Forças Armadas cercaram a comunidade, formando um cinturão na Avenida Brasil. Fogos de artifício e tiros foram disparados. Naquele momento, acontecia, no Parque União, o tradicional pagode do grupo Fundamental, que reúne todos os domingos mais de mil jovens.  Houve pânico e correria. Em meio ao tumulto, muitas pessoas se feriram. Era só o começo de mais um dia de terror na Maré.

Às 5 horas, o que era previsto se confirmou: policiais do 22° Batalhão, do Batalhão de Choque e do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) entraram nas favelas Nova Holanda, Parque Maré, Rubens Vaz e Parque União. Não se sabe, até o momento, quantos policiais foram destacados para essas comunidades. De acordo com o Comando Militar Leste, cerca de 4,2 mil homens – das Forças Armadas e das Polícias Militar e Civil – participaram da operação, deflagrada também na Penha e no Alemão. Não se sabe quantos foram deslocados para a Maré, mas é consenso que não foram poucos.

 A equipe de plantão da Maré de Direitos recebeu, ao longo do dia, várias denúncias de violação de direitos, entre elas, o arrombamento de um carro e a invasão de duas casas, uma no Parque Maré e outra na Nova Holanda. Em ambas, a polícia não tinha mandado de busca e apreensão e deixou rastros de destruição, danificando móveis e eletrodomésticos. Na Nova Holanda, chegaram ao cúmulo de arremessar o cachorro da casa, um poodle, do 3º andar. O animal sobreviveu.

 

Tiros a esmo e homicídio

Por volta das 18h, duas moradoras recorreram à Maré de Direitos. Precisavam que a equipe de plantão fosse à Favela da Galinha (Nova Holanda), onde quatro jovens estariam sendo torturados. Lá chegando, a equipe encontrou um grupo de 50 pessoas, a maioria mulheres, que discutiam com um policial. Eram cidadãos, entre eles, parentes e amigos dos jovens que se encontravam encurralados pela polícia em um beco, que exerciam o seu direito de acompanhar a abordagem policial. A equipe da Maré de Direitos, imediatamente, começou a mediar o conflito, conversando com o policial que estava de guarda, impedindo a entrada das pessoas no beco. “Comecei a conversar com o policial. E fiquei impressionada. Ele estava tão nervoso que não conseguia articular as palavras. Em determinado momento, ele disse: ‘a gente aqui desde às 4 horas da madrugada, de pé, sem comer, sem ir no banheiro, e essa gente vem aqui pra fazer tumulto. Como é que você quer que eu tenha calma?’”, conta Lidiane Malaquini, coordenadora do Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça.

Durante a conversa, alguns policiais saem do beco carregando um corpo, envolto em um cobertor. Não havia dúvidas: um dos jovens morrera. O grupo começou a gritar. Uma jovem tentou se aproximar do corpo. Foi o estopim. Um policial apontou seu fuzil para o grupo e outro disparou tiros a esmo. O grupo se dispersou. Pouco se sabe sobre o rapaz, inclusive sobre sua morte. O que se sabe, apenas, é que seu corpo foi retirado da cena do assassinato antes que a perícia pudesse ser feita.

 

Defensoria Pública vai à Maré

No dia seguinte à operação, a Redes da Maré e outras organizações da região acompanharam representantes da Defensoria Pública do Estado em uma incursão pelos pontos críticos da ação. A Defensoria integra o Circuito Favelas por Direito, um conjunto de organizações da sociedade civil e instituições públicas que se mobilizam para ir aos territórios impactados pelas operações e promoverem uma escuta qualificada dos moradores. O objetivo é coletar informações de violações de direitos para produzir relatórios unificados das operações e, assim, monitorar as violações no contexto da intervenção militar.

 

Repercussão nacional

Reportagens publicadas pelo Maré Online (http://redesdamare.org.br/mareonline/) e posts no Facebook e no Twitter da Redes repercutiram na imprensa nacional. Colunas de jornalistas prestigiados e veículos de grande acesso, como os sites dos jornais O Globo, O Dia e o JB, entre outros, reproduziram as denúncias feitas pela Redes da Maré. Não é esse tipo de notícia que a Redes gosta de divulgar sobre um território tão rico em cultura, costumes e talentos, mas naquela semana, mais uma vez, se fez necessário denunciar para o Rio de Janeiro e para o Brasil o terror frequentemente imposto às nossas favelas.

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