Da Maré para Tóquio

Morador da Nova Holanda consegue bolsa para estudar em universidade do Japão em 2020

Ana Clara Alves e Jonatas Magno

Os cursos preparatórios e pré-vestibulares comunitários espalhados pela Maré tem preparado moradores a ingressar em instituições de excelência há anos. Com isso, vem aumentando o número de moradores da Maré em colégios Federais e Estaduais, assim como nas instituições de ensino superior. Um deles é Matheus Motta, 18 anos, morador da Nova Holanda. Ele fez preparatório para o 6º ano e foi aprovado no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-UERJ), estudando no colégio de aplicação até o final do ensino médio, em 2019. Recentemente foi aceito na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio, a Tokyo University of Foreign Studies (TUFS), onde será bolsista ao longo dos quatro anos de ensino.

Matheus sempre estudou na rede pública de ensino e o que o motivou a tentar o curso no Japão foi a vontade de estudar no exterior. Apesar do interesse no campo das ciências humanas, ele não sabia qual faculdade iria fazer. Ao tomar conhecimento que o curso na TUFS abrangia a sua área de interesse, uniu essa certeza com a vontade de estudar fora e iniciou o processo seletivo para concorrer à vaga. Em Tóquio, ele vai cursar Estudos Japoneses, além de adquirir fluência em japonês para que ele possa se comunicar no país. A proposta é que a UERJ reconheça o diploma dele com base nas disciplinas eletivas que forem escolhidas.

Percurso 

A longo de sua trajetória estudantil, Matheus sofreu dificuldades que qualquer outro morador periférico sofre, como lidar com uma realidade naturalmente opressora analisando a questão da violência. Isso porque, por mais que estudasse fora da Nova Holanda, ele ficou impossibilitado de sair de casa antes de alguma operação começar, perdendo dias de aula. Apesar disto, percebe que essa dificuldade não pode se comparar a de moradores que estudam dentro da Maré, e que quase toda semana tem suas aulas paralisadas por conta de operações. Ele acredita que seu diferencial para os outros moradores da comunidade foi o acesso a informações e as oportunidades que teve. Enquanto estudava na Maré, passou por testes e conseguiu ingressar em um preparatório, conhecido atualmente como Instituto Apontar, que o auxiliou no ingresso em escolas de excelência. Isso o possibilitou entrar no CAp-UERJ, onde recebeu uma educação de qualidade e o fez crescer como estudante e cidadão. 

De início, os pais de Matheus ficaram bastante receosos com o fato do filho ir estudar no Japão. Após reunião no colégio com uma pedagoga e um aluno que já participou do projeto, eles ficaram mais tranquilos. Antes de embarcar para Tóquio,  ainda deu tempo para ele dar mais orgulho para sua família ao passar para Jornalismo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Matheus não sabia de fato o que queria, mas escolheu Jornalismo por considerar que fala bastante, gostar muito de contar história, se achar bastante comunicativo e gostar de escrever também. Por já ter feito a primeira fase da prova, resolveu fazer a específica também e acabou conseguindo ingressar, mas por agora, a sua escolha será estudar no Japão. 

Perguntado sobre um sonho, Matheus não conseguiu pensar em algo material. Ele só espera que daqui a quatro anos esteja de fato se formando, feliz, com a certeza de que fez a escolha certa e que tenha conhecido não só o Japão, mas também o mundo, e tido contato com várias culturas que resultaria num crescimento pessoal. 

A Maré em números

Segundo o Censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), contou-se 135.989 moradores na Maré, incluindo a favela Marcílio Dias. Já o Censo Maré, realizado três anos após o do órgão estatal, fez o levantamento de 139.073 pessoas. 

Devido à mobilização de organizações locais e ao movimento Maré Que Queremos – uma parceria da Redes da Maré com diversas organizações das 16 favelas, incluindo associações de moradores -,  a oferta de escolas de educação infantil e de ensino fundamental na Maré aumentou. Hoje o território tem 44 escolas, mais que o dobro de 2013, época da realização do censo. Esses espaços oferecem de creche ao ensino médio em um complexo chamado “Campus Educacional da Maré”.

Dentre os habitantes das favelas, 6.302 (6%) dos entrevistados não sabem ler ou escrever, sendo 3.356 (6,2%) mulheres e 2.925 (5,8%) homens. Além disso, os dados do Censo apontam que entre os moradores do Complexo da Maré, 11.145  (8,01%) nunca frequentaram a escola e 74.359 (53,47%) não chegaram a completar o Ensino Fundamental. Dos 25.866 que concluíram o ensino fundamental, apenas 835 não deram continuidade no ensino médio. E apenas 1334 habitantes ingressaram no ensino superior. 

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