Esporte é vida

Top Team: equipe se prepara para participar do Pan kids de Jiu-Jitsu nos Estados Unidos; familiares arrecadam contribuições | Foto: Douglas Lopes

Lazer, disciplina, respeito aos adversários e saúde: estes são apenas alguns dos muitos benefícios que o esporte traz para pessoas de todas as idades

Maré de Notícias #107 – Dezembro de 2019

Hélio Euclides

A definição de esporte é: prática individual ou coletiva, de jogo ou qualquer atividade que demande exercício físico, com fins de recreação, manutenção do condicionamento corporal e da saúde e/ou competição. Uma atividade sistemática, com uma organização preestabelecida, com regras. Ao andar pela Maré, percebe-se, cada vez mais, o aumento de projetos que estimulam a prática de esportes e atividades físicas. Em alguns casos, para lutar contra o sedentarismo; em outros, para desenvolver uma técnica esportiva.

Mas nem tudo são flores na vida de um atleta. Um dos obstáculos é a especulação imobiliária, que causa a diminuição dos espaços para o esporte e o lazer. Em toda a cidade é escassa a construção de praças e quadras. Na favela, até as calçadas estão desaparecendo.

Cuidados com a prática esportiva

Flávio Alves, professor de Educação Física e gestor de projetos, lembra que antes de começar uma atividade física é recomendado procurar um médico para um check-up. “Isso é para adultos e crianças. Um mínimo de esforço pode ocasionar uma parada cardiorrespiratória. Outro ponto é verificar se o professor é formado. Com o esporte praticado sem um profissional capacitado [para orientar] aumenta o número de pessoas com lesões na coluna e nos joelhos”, lembra.

O professor fica triste quando o esporte é usado para outros fins. Um desses momentos foi o Movimento Esporte Para Todos, que surgiu no Brasil em 1973. “O problema é que vinha por trás, com a política do pão e circo, uma forma de alienação por parte dos governantes militares. Com isso, as pessoas ficavam envolvidas com o esporte e esqueciam as questões políticas discutidas na época”, diz Flávio.

A visão do coração no esporte

Felipe Gomes é um exemplo de superação. Nasceu com glaucoma, teve catarata e ainda descolamento da retina. Com a perda da visão, o menino encontrou no atletismo uma forma de vencer esse obstáculo. Suas últimas conquistas foram duas pratas no Parapan, nos 100 e 400 metros e, recentemente, no Mundial, em Dubai, com dois bronzes, nos 100 e 400 metros. “Muitas vezes não dão importância aos especiais, mas ele conquistou o seu espaço”, acrescenta Denise Ramos, mãe de Felipe.

“Pelo esporte temos outra vivência e ampliamos novos horizontes. Sou morador de favela e o esporte me permitiu conhecer quatro Continentes, participei das maiores competições do mundo e ganhei todas elas”, conta Felipe. Por não ter local onde treinar, o atleta teve de mudar de cidade. “Hoje eu moro em São Paulo, mas tenho minha casa na Nova Holanda, que é minha base e onde encontro minha família”, comenta.

O esporte como paixão

Paixão Fla Maré: segundo diretora Simone Cristina, torcida é a maior do território | Foto: Douglas Lopes

Segundo o Censo Maré, realizado pela Redes da Maré, o conjunto de favelas reúne mais de 76 mil moradores que torcem por algum time de futebol. Desses, mais de 45 mil são flamenguistas. Esse amor rubro-negro fez surgir organizações como a torcida “Paixão Fla Maré”, fundada em 2016. A organização já inspirou outras duas torcidas: a “Paixão Fla Bagdá”, da Vila do João, e a “Fla Merengue”, do Salsa e Merengue. “Hoje somos a maior torcida dentro da favela. Vem gente de todos os lugares”, conta Simone Cristina, diretora da “Paixão Fla Maré”.

Em todos os jogos do Flamengo, o “Paixão Fla Maré” fecha a Via B/3, na Vila dos Pinheiros, com bandeirões no alto das casas e direito à bateria. “O foco é quem não tem condição de ir ao Maracanã, mas quer torcer no mesmo clima”, revela o ex-vascaíno, Nilson Chefão, presidente da torcida. Para quem desejar conhecer, eles garantem que o clima é familiar, com direito a pula-pula para as crianças.

A luta das crianças

Caio Yarlen, de 12 anos; Guilherme Vieira; Vivana Gentil; e Pedro Yago, todos de 14 anos, tentam derrubar seu principal adversário: a falta de patrocínio para participar do Campeonato Pan kids de Jiu-Jitsu, na Califórnia/Estados Unidos. Para conseguir o objetivo, os pais realizam rifas e devem criar uma vaquinha virtual única para os quatro. As crianças fazem parte do “Maré Top Team” (que significa melhor time), localizado no Parque União. O grupo é liderado pelo mestre Douglas Gentil, pai da atleta Vivana. “No início, quando chegávamos, os adversários falavam que não aceitavam perder para aluno de projeto e favelado. Hoje, somos favoritos nas competições que disputamos”, conta.

Apesar de não terem ainda passaporte, visto, passagens, estadia e alimentação, os atletas não param de treinar para fazer bonito nos Estados Unidos. “Eu luto contra a discriminação, para mostrar que aqui tem futuro. Me sinto orgulhoso de levar o nome da favela nas competições”, destaca Pedro. Para Caio, o esporte é uma realização: “Sinto alegria em estar no tatame, não consigo ficar sem lutar”, afirma. Agora, fica a torcida para que os quatro atletas cheguem ao tão esperado objetivo de participar dessa competição mundial.

Outro projeto que trabalha as artes marciais na infância é o “Luta pela Paz”. A instituição trabalha o esporte por meio de cinco linhas de ação: Boxe e artes marciais; Educação; Empregabilidade; Suporte Social e Liderança Juvenil. O objetivo é trabalhar o esporte e o desenvolvimento social. “Entendemos que não é só o esporte que vai mudar lá na frente, tem de ter um conjunto de ações para obter um resultado. O esporte com outras atividades faz a diferença”, conta Ana Caroline Belo, gerente de programa do “Luta Pela Paz”.

O projeto atendeu 1.800 jovens, de janeiro a setembro deste ano, todos estudando. Roberto Custódio é coordenador esportivo e educador do “Luta Pela Paz”, mas antes foi boxeador medalhista de ouro no Pan 2015 e, por 11 anos, atuou na seleção. “O esporte é benéfico para o desenvolvimento integral, trabalha a mente, ajuda no comportamento e na vivência”, explica.

BOXE:

Alguns espaços para a prática de esportes

Treino Funcional – Rua Joaquim Nabuco, 69 – Parque Maré

De segunda a sexta, das 6h às 15h; e das 18h às 22h

Mensalidade: R$ 30,00

Treino Funcional – na Praça da Nova Holanda

De segunda a sexta, das 6h às 7h; e das 19h às 20h

Mensalidade: R$ 30,00

Treino Funcional – na areia da Praia de Ramos

Segunda, quarta e sexta, das 17 às 19h; terça, quarta e quinta, das 9h às 10h

Mensalidade: R$ 40,00

Escolinha de futebol do Flávio – no Campo da Paty, Nova Holanda

Segunda, terça, quarta e quinta, das 15h20 até 16h40

Inscrições abertas em 2020, para a faixa etária de 3 a 25 anos

Mensalidade: R$ 30,00

Escolinha de futebol do Jandré – no Campo do São Cristóvão

Av. Brigadeiro Trompowski, 580 – Parque União

Faixa etária: de 6 a 14 anos

Mensalidade: R$ 50,00

Maré Top Team – Rua Ari Leão, 33 (3º andar da Associação de Moradores do Parque União)

Oferece Jiu-Jitsu, karatê, capoeira, Muay thai e boxe.

Oferece Jiu-Jitsu, karatê, capoeira, Muay thai e boxe.
De segunda a sexta: das 10h às 22h

Modalidades gratuitas.

Luta pela Paz – Rua Teixeira Ribeiro, 900 – Nova Holanda

Boxe, capoeira, luta olímpica, luta livre, judô, Jiu-Jitsu, Muay thai.

Faixa etária: de 6 a 29 anos

Modalidades gratuitas, com fornecimento de equipamento e uniforme.

Vila Olímpica da Maré – Rua Tancredo Neves, s/nº – Nova Maré

Alongamento, ballet baby, ballet infantil, ballet fitness adulto, caminhada orientada, dança de salão, equilíbrio, futebol, ginástica mix, karatê, hidroginástica, iniciação esportiva, natação família, natação infantil, natação adulto, Muay thai, treinamento funcional e zumba. Futsal em parceria com a Fundação Barcelona. Atividades esportivas para pessoas com deficiência em parceria com o Instituto Jacqueline Terto.

Modalidades gratuitas.

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