10 anos do Maré de Notícias: Jornal feito pra comunidade

Foto: Douglas Lopes

Jornal que teve o nome escolhido por moradores, hoje tem novos distribuidores e é usado como ferramenta pedagógica nas escolas da Maré

Maré de Notícias #108 – janeiro de 2020

Dani Moura

Em dezembro de 2009, nascia, ainda sem nome, o jornal comunitário da Maré feito para e pelos mareenses. O nome, que foi sugerido por dois moradores, passando pelas pautas, reportagens, fotos, edição, revisão e diagramação, é pensado para quem mora, vivencia ou trabalha na Maré. O objetivo de informar, formar, criar opiniões críticas, reforçar a potência da favela e também denunciar violações de direitos tem sido cumprido ao longo desses anos. E não foi, e nem é fácil, fazer isto. São 16 favelas com especificidades diferentes, com desejos e demandas diferentes. 

Estreitando laços

Uma das estratégicas para a comunicação ser efetiva entre os moradores e o periódico é o número de WhatsApp para receber denúncias e sugestões de pauta (97271-9410). Mas não para por aí. A distribuição, desde setembro de 2019, ganhou força com frequentadores do Espaço Normal. O lugar é referência no atendimento à população de rua, ex-usuários e usuários de crack e outras drogas, pessoas que conhecem meticulosamente todos os becos, ruas e vielas que compõem as 16 favelas da Maré.  A equipe é mista, formada por moradores da Maré, frequentadores do Espaço Normal e também tecedores da Redes da Maré. Douglas Thimoteo Pereira Lima é um deles. “Acho muito bom contribuir em prol da comunidade, distribuindo o Jornal, conversando com os moradores, trocando ideias com cada um, andando pela comunidade… a gente acaba vendo o quanto nossa comunidade é bonita”

Nova equipe de distribuidores é formada por moradores da Maré, frequentadores do Espaço Normal e tecedores da Redes – Foto: Arthur Viana

A distribuição começa todo 1º dia útil do mês e conta com 12 distribuidores, além do Douglas, que leem a Edição do Jornal antes de começarem o trabalho de campo, que leva em torno de cinco dias. Ao fim desse tempo, há uma reunião com toda a equipe quando as sugestões dos moradores ouvidas pelos distribuidores são compartilhadas.

Inúmeras reportagens vieram dessas reuniões. Uma deles chamou a atenção da equipe de jornalistas: “Beco, ruas e vielas: a importância e a história de seus nomes”, do repórter Hélio Euclides, na Edição de novembro de 2019, foi usada como ferramenta pedagógica para uma turma do Ensino Fundamental da Escola Municipal Tenente General Napion, localizada na Avenida Almirante Frontin, n° 50, em Ramos. A professora Aline Pereira Botelho, de 39 anos, já conheceu o Jornal em 2017, quando começou a dar aulas na Maré: “De lá pra cá, tenho alterado minha prática devido à escuta impressionante das vozes desses alunos e ao fato de a escola receber o Jornal Maré de Notícias.” Mas foi em 2019 que um projeto pedagógico nasceu. “Iniciei um Projeto que me acompanharia durante todo o ano letivo (…) com a questão do pertencimento territorial, pois eles não se viam como moradores da Maré e, para isso, as reportagens sobre o nosso território foram importantíssimas como a ‘Becos, ruas e vielas. A importância e a história de seus nomes’. O reconhecimento de algumas pessoas que estavam no Jornal, o nome de algumas ruas que os estudantes conheciam e o fato de eles já identificarem o Jornal, pois alguns o recebem em casa, enriqueceu ainda mais nossa aula”, conclui a docente.

Aline enviou uma carta à redação doJornal, na qual agradece a equipe. “Gostaria de agradecer, utilizando o meu lugar de fala como educadora, pelo grande recurso pedagógico que o Jornal se tornou para mim e para a turma 1203. A turma confirma o entusiasmo. “É muito legal estudar, porque isso vai ajudar o nosso futuro. Achei muito legal ver as coisas que a gente não vê.”, diz Isaac Gomes da Silva, de 8 anos de idade

Além da Maré

Aline teve o apoio do Diogo Nascimento, professor de Educação Física da escola, que utilizou o Jornal em seu doutorado, para explicar a importância da construção de novas narrativas sobre o território periférico, valorizando as potências locais. “O Jornal é imprescindível, ainda mais no contexto multidisciplinar, porque ele traz o protagonismo para a Maré. A Maré é um mundo. E eu acho legal trabalhar essa identidade desde cedo com as crianças, porque eu mesmo que nasci na Maré só fui criar essa identidade já na faculdade. Sempre neguei o território, falava que morava em Bonsucesso. É legal ver crianças tão pequenas sentirem orgulho dessa identidade mareense”, diz o professor, que é morador do Morro do Timbau, na Maré.

 Na escola da Maré, Diogo usou a agenda cultural do Jornal, um dos destaques na sala de aula dos pequenos. “A agenda cultural do Jornal possibilita à criança ter acesso a espaços que muitas vezes ela nem sabia que existiam, com a divulgação de cursos, apresentações, eventos, e isso proporciona um entendimento melhor sobre o que é a Maré, o Jornal ajuda a construir o Bairro Maré, diferente de outros veículos que reforçam os estigmas de não lugar. Isso muda a perspectiva do lugar que eles moram. O Jornal é uma ferramenta importante, por ser algo físico, ser impresso e trazer tantas imagens, que podem ser usadas como práticas pedagógicas no cotidiano da escola. Ele ajuda a mudar a visão sobre um lugar que é marcado com essa vivência negativa, com todos esses estigmas.”

Paulo Freire e Maré de Notícias 

 São 50 mil exemplares que são distribuídos nos domicílios, nas associações de moradores, organizações não governamentais, instituições que atuam no território, além das 48 escolas da Maré. 

Na Escola Municipal Paulo Freire, na Vila do Pinheiro, uma matéria eletiva foi criada, inspirada no Maré de Notícias. No início, o Jornal era esmiuçado pelos professores e alunos que trabalhavam a oralidade, a interpretação de texto, análise crítica pelas reportagens apresentadas. “O Jornal traz outro suporte de leitura; a gente faz uma leitura crítica e isso forma um senso crítico incrível! Lemos, a cada dia, uma notícia e o Jornal tem um papel importantíssimo, porque falam do local onde eles moram, traz notícias que interessam e isso causa impacto na vida deles”, diz Mônica Bezerra do Nascimento Pinheiro, professora do 5° ano da escola.

O impacto foi tamanho que, hoje, na eletiva, os alunos têm o seu próprio Jornal, editam e produzem conteúdo audiovisual. O repórter fotográfico do Maré de Notícias, Douglas Lopes, foi convidado a ir à escola e ficou impressionado com o trabalho dos alunos. “Muito importante para eles aprenderem com as notícias sobre as favelas, sobretudo sobre os espaços que eles têm afeto, que são os locais onde moram.  Eles já produzem, pelo celular, notícias, entrevistam pessoas, editam o material e veiculam na internet. E ninguém melhor pra falar sobre o território do que os próprios moradores.” 

Outra professora da mesma escola, confirma: “O Jornal é muito relevante e eles gostam muito, porque é uma notícia muito próxima a eles. Falar sobre o espaço deles, mesmo que eles já conheçam, é muito legal, diz a professora Adriana Bezerra do Nascimento Pinheiro, também do 5º ano. Ela destaca a Edição de número 100, que teve uma reportagem especial com um mapa de toda a Maré. “Na Edição 100, do mapa, eles amaram!  Esse Jornal está guardado lá!  Se ver dentro do Jornal é a parte mais positiva!”

Portanto, vida longa ao Maré de Notícias!

Página da edição número 100 do Maré de Notícias com o mapa das 16 favelas que a professora Aline guardou

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