Carnaval da resistência

a Liga Independente das Verdadeiras Raízes das Escolas de Samba (LiDesfile do bloco Tambores de Olokun na Nova Holanda, durante o projeto Maré de Verão no Carnaval de 2017 | Foto: Douglas Lopes

Entre crise financeira e polêmicas, o Carnaval carioca sobrevive nas ruas do Rio de Janeiro

Maré de Notícias #109 – fevereiro de 2020

Hélio Euclides

Nos últimos tempos, o que menos visitou a mesa dos brasileiros foi a carne. O motivo: preço elevado. Nem por isso a festa da carne, ou melhor, o Carnaval vai deixar de ser a maior festa do carioca, apesar de todos os problemas que a cidade enfrenta nas áreas de saúde, educação, abastecimento hídrico e Segurança Pública. No Carnaval não é muito diferente. Desde o ano passado, o auxílio destinado às Escolas de Samba vindo da Prefeitura virou uma enorme polêmica. Agremiações reclamam que, além disso, ainda tem a crise financeira do País. Dessa forma, precisam usar a criatividade. Ou seja, como tudo no Brasil, o Carnaval também vai ser difícil. O importante é recordar Nelson Sargento, que dizia: “O samba agoniza, mas não morre”.

O Carnaval é uma festa que mexe com a economia brasileira. O Rio de Janeiro se enche de turistas e engrandece o mercado formal e informal. Aydano Motta, jornalista e especialista no tema, defende que mais do que a importância econômica, o Carnaval é a identidade da cidade, de um lugar que foi o maior destino dos escravizados. Para ele, o Carnaval é o alicerce do Rio de Janeiro, por isso não se pode pensar como gestão de governo e, sim, como política de Estado. Para Aydano, o Carnaval merece prioridade, junto com a educação, a saúde e o meio ambiente, por fazer parte da cultura de um povo.

“O Carnaval é algo que a elite não gosta e nem os neopentecostais. A elite carioca sonha em morar numa Europa e eliminar o que o pobre gosta. Digo que as igrejas não são inimigas do carnaval, isso fica claro com o desfile da Grande Rio, onde pastores vão desfilar”, afirma. O jornalista acrescenta que não podemos esquecer que a festa é, em parte, também uma herança africana. “Essa sociedade critica o Carnaval dizendo que ele é do mal, um preconceito, por ter ligação com religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda”, comenta.

Sobre a crise no Carnaval, ele acredita que a festa ainda vai sofrer em 2021, mas vai sobreviver. “Não vamos ouvir do prefeito que ele não gosta de Carnaval, mas asfixiou o evento, tirando o dinheiro das Escolas de Samba”, acrescenta. Aydano vê uma cidade desenhada para se divertir, e que os blocos de rua são um fenômeno no qual todos brincam juntos. Que esse movimento precisa crescer, já que há três anos, São Paulo tem mais blocos que o Rio.

Por uma Maré de folia

Para Aydano, a Maré precisa de mais Escolas de Samba e Blocos. Precisa mostrar que está ganhando a briga na cultura, de que a favela tem a vocação da alegria e da diversão. “Acho que precisa acabar com esse vexame, de um conjunto de favelas tão grande só ter duas Escolas de Samba, sendo que o Gato (de Bonsucesso) está enrolando a bandeira. Não podemos deixar o samba morrer, Carnaval de rua é diversidade e algo democrático”, conclui.

Para os moradores mais antigos, a empolgação era garantida com os dois Blocos. O Corações Unidos fazia a população do Morro do Timbau e Baixa do Sapateiro balançar. Enquanto o Mataram Meu Gato, que além do tamborim feito com a pele do felino, agitava a Nova Holanda. O primeiro foi extinto e o segundo deu lugar à Escola de Samba Gato de Bonsucesso. Em 2018, o Gato ficou em penúltimo lugar no Grupo E e, pela regra, ficará dois anos suspenso. Como solução, foi criada a Acadêmicos da Maré, que até hoje não desfilou. No site Galeria do Samba, as duas agremiações aparecem como inativas ou extintas.

A outra agremiação da Maré é o Siri de Ramos que, junto com oito Escolas de Samba da Série B, criou a Liga Independente das Verdadeiras Raízes das Escolas de Samba (Livres). Insatisfeitas com a atual gestão da Liga Independente das Escolas de Samba do Brasil (Liesb), as agremiações criaram a nova aliança. Mateus Medeiros, carnavalesco do Siri, foge da polêmica. “O Siri vai com 600 componentes para a avenida, divididos em 16 alas. O enredo ‘Ganga Zumba, a dinastia de um guerreiro’ é especial. Uma temática africana, nasceu de uma pesquisa profunda sobre essa pessoa importante para a nossa História. A Escola vai surpreender pelo colorido”, revela.

O Bloco Gargalo da Vila promete superar a crise e desfilar pelas ruas da Vila do João. “Estou confiante que vamos conseguir patrocinadores. O nosso diferencial é que temos 18 anos e nunca tivemos uma briga. Realizamos um carnaval de lazer e paz”, lembra Marco Antonio, conhecido como Marquinho Gargalo, fundador do Bloco. Para o Se Benze Que Dá, Bloco que desfila em dois sábados, um antes e outro depois do Carnaval, é um ano marcante. O grupo completa 15 anos de enredos críticos e que lutam pela dignidade da Maré.

Confira as datas dos eventos carnavalescos na página das Dicas Culturais.

Uma festa profana introduzida na religiosa

Acredita-se que as primeiras festas que deram origem ao Carnaval são de 4.000 anos antes de Cristo, com festas agrárias. Posteriormente, a festa era em homenagem ao deus grego do vinho. Folias etílicas eram realizadas em homenagem a Baco e Saturnália. Mais tarde, os romanos católicos definiram o tom para as celebrações, com uma festa antecedendo a Quarta-Feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão.

Os primeiros carnavais na Europa eram, geralmente, bailes de máscaras com fantasias. O Carnaval do Brasil teve influência do Entrudo, um festival português de grandes bonecos, e também inspirações do Carnaval de Veneza, com seus pierrôs, colombinas e máscaras típicas. A festa chegou oficialmente no Brasil no século XVII.

Já o primeiro baile de Carnaval do Rio foi em 1840, com os participantes dançando polca e valsa, e o samba introduzido nos anos 1920. Alguns anos depois, além do samba, surgiram os cordões e marchinhas, que deram origem aos Blocos e Escolas de Samba.  Esse termo, “Escola de Samba” foi criado por Ismael Silva, porque os sambistas eram denominados professores, pelo prestígio que possuíam. A “Deixa Falar” foi a primeira Escola de Samba, surgida em 1928.

Luiz Antônio Simas, escritor e historiador, destaca um ponto marcante: descendentes de africanos inventaram as Escolas de Samba. “Elas se originam no Rio de Janeiro pelas comunidades negras, que adaptaram ao mundo do samba algumas características dos ranchos carnavalescos. Só na década de 1960 é que as Escolas de Samba vão deixando de ser predominantemente afrodescendentes. O Carnaval não ficou embranquecido, a força das comunidades negras continua marcante, isso fica claro na bateria, na ala das baianas e em toques de baterias que são inspirados em toques de orixás”, explica.

1984 foi o ano de construção da Marquês de Sapucaí, a Passarela do Samba. Projetada por Oscar Niemeyer, a construção foi batizada de Sambódromo e tornou-se palco dos desfiles. As colunas das arquibancadas são vazadas com uma lágrima, que remete ao pierrô, que chora pelo amor da colombina.

Você Sabia?

O termo Carnaval é derivado de “Carne Vale”, que significa “Adeus à carne”. O propósito da festa é ter uma última semana de festas antes da abstinência de 40 dias. Os dias do Carnaval mudam todos os anos de acordo com a data da Páscoa, que é determinada pela lua, fórmula feita pelo Conselho de Nicéa, em 325 antes de Cristo.

Desde 2017, a subvenção, verba da Prefeitura dada às Escolas de Samba do Grupo Especial, vem diminuindo, até ser cortada para o Carnaval de 2020, como anunciado em agosto de 2019. As agremiações dos Grupos B, C, D e E, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, e as escolas mirins, que desfilam no Sambódromo na terça de Carnaval, seguem recebendo o subsídio.

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