Maré de Notícias #26

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Filhos de Angola adotados pela Maré

Por Hélio Euclides

Maré vira um espaço aberto para angolanos morarem e se divertirem nas ‘adegas’, como são chamados os ambientes de cultura do país africano. Boa parte vem para o Brasil cursar o ensino superior.

A Maré é formada por populações de diversos lugares do Brasil e do mundo. Entre os estrangeiros, os angolanos são a grande maioria. Muitos reunidos em comunidades como o Conjunto Esperança, Vila do João, Vila do Pinheiro, Nova Holanda, Parque União e Praia de Ramos. Após anos de guerra civil, eles decidiram tentar um novo destino; e a Maré é um desses locais encontrados para morar, se divertir e formar uma família.

Fortunato Bernado, o Manato, chegou em 1989. “Morei primeiro em Copacabana, depois uma amiga brasileira me falou de um lugar onde o aluguel era mais barato. Daqui não saí mais”, conta. Manato mora no Conjunto Esperança há cinco anos e trabalha no Centro da cidade vendendo bebidas.

Com a vinda de outros conterrâneos, os ambientes de cultura angolana conhecidos como adega, se multiplicaram. Um dos mais conhecidos é o Bar do Fidel, que fica na Vila do Pinheiro e reúne em média 70 angolanos nos finais de semana. Fidel Júlio é o dono do local. “Encontramos turistas nossos, que vem de Angola e passam aqui para conhecer. Procuram música e comida, uma é o Funge (arroz cheio de carne)”, revela. Desde 1996 no Brasil, ele confessa sentir saudades, mas lembra que aqui já formou uma família. “O clima é igual e os dois povos são hospitaleiros”, compara.

Documentário sobre os angolanos

Moradora da Nova Holanda há dois anos, a jovem de 22 anos, Marilena Manoel Alberto, veio à procura de novos horizontes. A escolha do Brasil foi motivada pela mesma língua e pelo clima tropical. “Em Portugal é muito frio, e lá há preconceito com estrangeiros. No Rio de Janeiro a agitação é parecida com Angola, com festa e acolhimento”, afirma.

Ela explica que no seu país natal o custo de vida é alto. Após a guerra civil, Angola se levanta bem devagar, segundo ela. O país está em fase de reconstrução. Já a escolha da Maré se deve aos tios. Marilena hoje é atendente de um mercado árabe e aluna do Ciep 326 Professor Cesar Perneta, onde está engajada no projeto de um documentário “Quero mostrar depoimentos de angolanos, com o seu dia a dia, como se divertem, estudam e trabalham”, esclarece ela, que deseja dar visibilidade aos angolanos.

Bartolomeu, conhecido com Keoma, aponta a Maré como um dos pontos de maior fluxo de angolanos no Rio de Janeiro. Proprietário do quiosque Conexão Angola/Brasil, na Praia de Ramos, ele destaca também o Bar do Jibóia, na Vila do Pinheiro, e o Cafejô, no Salsa e Merengue, como pontos de cultura. “Esses são pedacinhos de Angola. Angola é a casa e o Brasil é o quintal, e vice-versa”, opina.

Bem ao lado do Conexão, na Praia de Ramos, há outro quiosque, o Kudisanga Kuamakamba, que significa encontro de amigos. O dono é Adão Augusto, o Grants, que veio para o Brasil após oito anos como militar em Angola. “Na saída não tive o que merecia financeiramente, então me revoltei e saí da terra natal. Primeiro morei em Copacabana, mas lá o aluguel era caro, passei pela Vila do João e agora já tenho 13 anos de Praia de Ramos”, comenta. Ele já voltou em Angola, mas diz que não tem pretensão de morar por lá novamente.

Enquanto os adultos se adaptam bem, os mais novos sentem mais a distância. Wembel Pedro, de 15 anos, mora há seis meses no Conjunto Esperança. Ele deixou parte da família para estudar aqui e retornar com um diploma e, assim, conseguir um trabalho melhor. “É chato para um adolescente estar fora do seu país, às vezes penso em voltar. Sinto saudades de tudo, mas aqui quero fazer a faculdade”, explica.

Outro que veio estudar foi Leonel Martins, que concluiu a faculdade de Jornalismo e retornou. “Qualifico a minha presença na Maré como o começo de uma nova vida, porque tive muito apoio tanto da parte dos angolanos como dos brasileiros”, revela. Hoje em Angola, ele pensa em voltar para o Brasil. “Não tem como ficar distante desta terra, porque tenho no Brasil a minha esposa e os meus filhos”, revelou ele, em entrevista por e-mail.

Leonel, entretanto, acha que o número de angolanos na Maré vem diminuindo gradativamente. “Nos anos 1990, devido à retomada da guerra em Angola, o número era muito significativo, chegamos a uma cifra de quase 1.000 angolanos”, deduz. No plano nacional, o jornalista diz que a busca pela faculdade promoveu outro tipo de imigrantes. “Hoje o maior motivo de angolanos se encontrarem no Brasil é em virtude de frequentar um curso superior”, observa ele.

Semelhanças e diferenças
Apesar do uso da língua portuguesa nos dois países, os angolanos são taxativos em afirmar que eles se expressam mais corretamente. E quando o assunto é comida, eles também mostram sabedoria. “O nome do nosso leite é Nido, que aqui é só instantâneo e lá é gordo. Há diferença na comida: comemos a folha da mandioca, chouriço e três tipos de farofas”, detalha Marilena.

Sobre cerveja, Fidel divulga que lá em Angola elas são mais fortes, com nome de Cuca e Nokal. Ele completa que em Angola até nos momentos tristes há alegria. “Depois do enterro se bebe e come”, conta. Outro que não consegue esquecer os detalhes é Wembel. “Todos têm freezer, pois as casas de lá são maiores, com seis quartos. Lembro até os nomes das operadoras telefônicas: Unitel e Mobicel”, especifica.

Quanto o tema é cultura, há muito respeito. “Acham extravagante as roupas dos angolanos, mas um diferencial é que no nosso país natal não ficamos sem blusa na rua, e não podemos entrar na casa de ninguém sem a parte de cima da roupa”, retruca Fidel.

Wembel fica assustado com o comportamento de seus colegas brasileiros. “Aqui os estudantes não têm respeito com os professores. Lá é proibido o celular na sala de aula. Não há bagunça na escola e não se pode entrar de boné na casa das pessoas”, alerta. Para Grants a cultura angolana prioriza os deveres ao pai e mãe. “O boné esconde a cara, e por isso não colocamos em casa”, ilustra. Outro ponto do vestuário são as cores. “Lá as roupas são coloridas, as formas são diferentes, não há o básico. São chamadas de tradicionais”, expõe Marilena.

Angolanos escolhem o Brasil

Por Robb Sawers (jornalista convidado)

Aumenta o número de africanos que deixam o continente, em particular angolanos que escolhem o Brasil ao invés de destinos tradicionais como Europa e América do Norte.

Aos sábados à tarde, um pequeno número de imigrantes africanos se reúne no Aterro do Flamengo para o futebol e churrasco. Quase todos são homens jovens de Angola, mas há alguns da Costa do Marfim, Camarões e Guiné Bissau. A conversa entre eles vai e volta entre português e francês. A maioria mora no Brasil há alguns anos e pode confortavelmente chamar o Rio de Janeiro de sua casa. Embora a maioria viva na Maré, o Aterro do Flamengo é um bom ponto de encontro para um futebol no final de semana.

Esses jovens fazem parte do crescente processo de deslocamento de africanos que escolhem destinos na América Latina ao invés dos tradicionais países da Europa. Muitos vêm como refugiados. Em agosto de 2011, o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) verificou que o Brasil atualmente hospeda 4.400 refugiados, 64% deles de países africanos e 40% de Angola (aproximadamente 1.125 angolanos).

As razões para a crescente importância do Brasil como destino para imigração africana são múltiplas e uma delas é que os destinos na Europa estão perdendo rapidamente seu apelo. A economia em Portugal está passando por momentos de crise e há poucos empregos para imigrantes. Na verdade cidadãos portugueses também estão migrando para o Brasil, por causa da sua economia crescente. Além disso, o clima político na Europa está se tornando cada vez mais xenófobo e muitos imigrantes descobrem que o sonho europeu já não vale mais a pena. Enquanto isso, o panorama político brasileiro não é anti-imigração e há exigências relativamente baixas com relação a anistia política e para os vistos de trabalho e estudo.

Fabrício Dom, artista e designer de moda angolano, conseguiu anistia política no Brasil e achou todo o processo de apelação e visto surpreendentemente fácil. Dom veio de uma família que tradicionalmente tem apoiado a União Nacional para Independência Total da Angola (Unita), grupo de oposição ao Movimento Popular pela Liberação da Angola (MPLA). Ele fugiu em 1999 durante o último suspiro de violência na guerra civil angolana que dura décadas entre os dois lados. Apesar de não ter sofrido qualquer abuso dos seus direitos humanos, foi dado a Dom um visto que permite que fique no Brasil por tempo indeterminado.

Refugiados e requerentes de asilo compõem apenas uma pequena parcela da comunidade diáspora africana no Brasil. De acordo com Leandro de Almeida, vice-cônsul de Angola no Rio, a maioria dos cidadãos angolanos do país possui visto de estudante ou trabalho. Isso fica evidente entre os jogadores do Aterro, onde a maioria é estudante.

Laços históricos
Os laços culturais entre Brasil e Angola vêm dos tempos do tráfico de escravos e da expansão colonial portuguesa. É estimado que quase 40% de todos os escravos trazidos para as Américas ficaram no Brasil e quase 40% dos escravos que cruzaram o Atlântico eram do que hoje é Angola. Séculos de escravidão e genocídio corromperam a língua, religião e os costumes, mas grande parte da tradicional sociedade brasileira é de origem angolana.

O Samba é a marca da música brasileira, mas sua origem encontra-se nos ritmos do Semba Angolano. Combinação das artes marciais e dança chamada Capoeira, foi desenvolvida pelos escravos angolanos como um meio de entretenimento e resistência à hegemonia cultural portuguesa.

Na memória dos moradores

Quando D. Olízia chegou à Nova Holanda, na década de 1960, com seus cinco filhos, tomou um grande susto, pois não havia água, a luz era muito precária e as ruas se enchiam de lama todas as vezes que chovia. Ela e os vizinhos tinham de levar água para lavar os pés antes de sair da comunidade para trabalhar. Os moradores, completa o Sr. Genival, usavam o “rolarola” – uma espécie de barril puxado por vergalhões de ferro que eram “rolados” pelas ruas – para apanhar água na Av. Brasil (ainda chamada de variante).

O Sr. Adevanir se lembra de como era difícil, mas ao mesmo tempo gratificante, fazer o carnaval do bloco “Mataram meu Gato” (hoje escola de samba Gato de Bonsucesso) e também de como era bom participar dos campeonatos de futebol disputados no campo da Paty. Já a D. Maria Lopes recorda dos constantes incêndios que apavoravam os moradores quando consumiam muitos “barracos” de uma única vez e, por sua vez, o Sr Joaquim, mesmo reconhecendo as dificuldades, diz que adora morar nesse lugar onde criou seus filhos e se considera muito feliz.

Essas e muitas outras histórias contam como foi a chegada dos primeiros moradores em Nova Holanda, uma das 16 comunidades que formam a Maré, maior conjunto de favelas da cidade. Tais histórias estão registradas no livro Memória e Identidade dos moradores de Nova Holanda, que será lançado no início de março (data ainda a ser marcada) pela Redes da Maré através de seu Núcleo de Memória e Identidade da Maré (NUMIM). O trabalho contou com apoio do da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPC).

A ideia é que o livro seja o primeiro de uma coleção histórica que abordará a questão da memória e da identidade dos moradores das 16 comunidades. Por isso, considero esse um trabalho fundamental, pois a cada dia a memória local se perde, uma vez que não há uma preocupação em preservar documentos, lugares e depoimentos dos moradores que construíram a Maré.

Para os mais jovens é fundamental conhecer o trabalho empreendido pelos primeiros moradores para que as comunidades da Maré adquirissem a configuração que têm hoje. Na verdade, isso significa entrar em contato com a própria identidade – ou identidades – construída e reconstruída a partir de uma determinada memória compartilhada ao longo do tempo.

Por isso, o NUMIM, cuja equipe é formada por jovens moradores locais, realizou entrevistas com as pessoas mais antigas e criou um acervo onde estão protegidos depoimentos e imagens que nos ajudarão a preservar a memória da Maré. Esses documentos serão disponibilizados para consultas e servirão de base para novos trabalhos sobre a memória local.

Preservar a memória das comunidades da Maré significa garantir um direito fundamental de toda pessoa, ou seja, a de ter sua história de vida e sua identidade reconhecidas e respeitadas. Por isso, ao exercitarem o direito de contar suas memórias, os moradores da Maré afirmam seu espaço na cidade e, ao fazer isso, contribuem para tornar o Rio de Janeiro um espaço mais plural, que aceita a diversidade e reconhece a importância de todos os seus cidadãos independente do espaço em que habitam. A história da Maré é a história do Rio de janeiro.

Geração saúde!

Por Rosilene Ricardo

Mais de cem moradores da faixa da terceira idade – e alguns mais jovens também – participam de aulas gratuitas no Conjunto Pinheiro e na Vila do João.

“Saúde é o que interessa! O resto não tem pressa!” O bordão que estava em nossas telinhas na década de 1990 representa o que muitas pessoas vivem hoje em dia. Quem disse que para ter saúde e disposição você precisa ter 20 anos de idade? A prova viva disso é o grupo da terceira idade da Maré, que faz exercícios pelo menos três vezes por semana e alterna suas atividades com caminhadas cidade afora.

O projeto teve início há nove anos na ciclovia do Conjunto Pinheiro, na Semana da Mulher, sob o incentivo do professor de educação física, Luiz Mario Ramos. A iniciativa deu tão certo que existe até hoje, firme e forte, e ainda ganhou mais um núcleo, na Vila do João. Há pouco mais de dois anos, a turma do Conjunto Pinheiro conquistou o apoio do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio-2016, e passou a contar com o serviço de medição da pressão antes das aulas e orientações sobre cuidados necessários à saúde.

No total, as duas turmas possuem 110 alunos. Entre eles está Dona Cândida, de 72 anos, que depois de enfrentar uma depressão, viu nesses encontros mais uma razão para viver. “Hoje sou muito mais feliz comigo e vejo que tenho disposição de sobra para fazer todas as coisas que antes já não me interessavam mais”, diz, animada.

Embora o foco seja a terceira idade, o professor Luiz conta que recebe alunos de 20 a 80 anos. “As pessoas vêm e perguntam como fazem para participar e eu apenas digo: ‘É só vir’. Uma atividade ao ar livre é sempre saudável”. O objetivo é conscientizar a todos a respeito da importância de se cuidar e, também, de compreender melhor quem possui alguma restrição física. “A família toda precisa abraçar a ideia, ja que é muito complicado você ter que comer uma cenoura enquanto as outras pessoas na sua frente comem uma feijoada”, esclarece.

O professor conta que sua mãe faleceu logo após ele ter começado a dar aulas para a terceira idade. Ele, então, sente como se tivesse sido adotado por todas as alunas. “Eu trabalho em uma academia e sou treinador de goleiros, já tive convites para trabalhar nesse horário das aulas daqui, mas não abro mão. Essa é a minha cachaça! Já trabalhei muitos anos sem patrocínio e posso dizer que tenho muito retorno das senhoras! Elas não deixam passar uma data comemorativa em branco, e sempre me tratam com muito carinho. Acredito que se minha mãe tivesse tido uma atividade dessas, ela não teria ficado doente”, finaliza ele, emocionado.

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