MARÉ DE NOTÍCIAS #54

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[toggle title=”A Copa da polêmica”]

Por: Silvia Noronha

Dias antes do início dos jogos do Mundial, o visual na Maré era bem diferente das Copas anteriores. A ani- mação dos moradores para decorar as ruas foi bem mais tímida este ano do que em 2010, mas aos poucos o verde e o amarelo foram surgindo aqui e ali. Pelas conversas era pos- sível perceber que as críticas sobre os gastos públicos com os megaeventos Copa e Olimpíada estavam presentes também pela Maré.

“Eu nem estava animado desta vez, mas uma vizinha apareceu com um pacote de fita verde e amarela e aí começamos a arrecadar dinheiro com o pessoal. É muita polêmica, mas é tradição da nossa rua”, explica Carlos Friedrich, o Fred, morador da Rua 1, uma das primeiras situadas na Vila do João a pendurar bandeirinhas. Nos dias de jogo do Brasil, a programação inclui telão na rua e música no final. “A gente precisa de muita coisa, saúde, educação, concordo com a polêmica, mas brasileiro gosta de futebol, né, então vou torcer”, ressalta Fred.

Muitas pessoas com quem o Maré de Notícias conversou têm opinião semelhante, a exemplo do presidente da Associação de Moradores da Vila do João, Marco Antonio Barcellos, o Marquinho Gargalo. Na Copa de 2010, ele instituiu até uma premiação para as ruas mais enfeitadas. Este ano não haverá prêmio, mas a torcida pelo Brasil está garantida.

“Estou sentindo que as pessoas levam o evento para o lado político”, diz ele, que apoia as manifestações, mas vai sim torcer para o Brasil. “Podiam ter feito um plebiscito para ver se o povo queria a Copa no Brasil. Queríamos mais hospitais funcionando e outros serviços públicos, é verdade, mas agora é preciso usar o bom senso. Quem não quer o Brasil campeão?”, questiona ele.

José Maciel, morador da Travessa 4, uma das ruas premiadas na Copa de 2010, também sente diferença no clima. “Investiram muito nessa Copa e estamos vendo saúde e segurança pública horríveis, mas sou brasileiro. Estou confiante
de que a taça vai ficar aqui.”

Na Vila do Pinheiro, uma das primeiras ruas enfeitadas foi a Travessa 8, onde os moradores contribuíram com R$ 5 cada um para alegrar o visual. Antônia Monteiro de Lima aprovou. “A ideia é ver o jogo na rua. Fica bom para caramba, com bebida, comida e os vizinhos reunidos”, conta.

Pluralidade de opiniões

Nem tudo será festa. Um grupo de moradores está organizando uma decoração em forma de protesto na Rua São Jorge, na Nova Holanda. A escolha é uma referência simbólica à chacina da Maré, que completa um ano durante a Copa. Nessa rua, três pessoas foram mortas em uma mesma casa, na madrugada de 24 para 25 de junho do ano passado, na operação do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) que vitimou nove pessoas. Os crimes ocorreram após um sargento ter sido morto.

Assim, seja comemorando com as vitórias da seleção brasileira de futebol, seja protestando contra os gastos com a Copa, o importante é que o espírito democrático se fortaleça e se amplie. Que todos possam expressar o que pensam e se manifestar do jeito que acham mais justo. Pode ser enfeitando as ruas, organizando o churrasco com os vizinhos ou realizando atos e manifestações de contestação. O fundamental é garantir a pluralidade de opiniões. Todos têm o direito de manifestar suas ideias. Respeitar esse direito é fundamental para construirmos uma sociedade mais democrática, tolerante e aberta ao diálogo.

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[toggle title=”Maré terá plano de atuação da Comlurb”]

Dirigentes das Associações de Moradores das 16 comunidades da Maré estão cobrando da prefeitura a implantação de um plano local de atuação da Comlurb, que atenda as reais necessidades locais.

No dia 10 deste mês de junho, os líderes estiveram reunidos com a representante da prefeitura na Maré, Terezinha Lameira, que pediu um pouco de paciência. “A intenção é atender a Maré como bairro”, explica ela. Entre as principais reivindicações está aumentar o número de garis para varredura das
ruas e também para os caminhões.

Outra novidade foi anunciada por Terezinha: até julho, a Clínica da Saúde da Família Augusto Boal passará a contar com aparelho de ultrassonografia. Falta ainda o Raio-x também prometido, porém sem data para ser instalado.

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[toggle title=”Maré recebe Flupp Brasil”]

Escritores do Brasil e de outros quatro países participaram da primeira Festa Literária das Periferias (Flupp) realizada na Maré, para debater sobre suas obras e a diversidade. Mas assuntos como a Copa no Brasil e a violência contra a mulher também surgiram durante o encontro.

Inspirada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a Flupp é um projeto que se diferencia por buscar um processo continuado de formação de leitores e autores nas periferias. A ideia é promover encontros com autores profissionais para afirmar que é possível ser escritor. “O poder público ainda não leva fé na possibilidade de discutir literatura na periferia. Além disso, fomos educados a acreditar que não podíamos ser algo que prestasse, que dirá escritor”, afirma Ecio Sales, idealizador do projeto junto com Julio Ludemir.

O evento aconteceu no Galpão Bela Maré, na Nova Holanda, no início de junho, contando na abertura com um jogo de futebol no Campo da Paty, no Parque Maré, disputada por escritores brasileiros e alemães.

Entre os moradores presentes aos debates estavam Aline Melo, da Vila do Pinheiro, e Ana Maria de Souza, da Vila do João. Ambas gostam de escrever, principalmente poesia, mas também prosa. “Senti a necessidade de escrever contos infantis e recentemente lancei o livro ‘A fadinha Maria e sua boneca de pano’ e a venda ajuda a manter o projeto Maré Latina”, conta Aline. O projeto desenvolve atividades gratuitas, entre elas curso de espanhol.

Autores da periferia em livro

Antes de chegar à Maré, a Flupp Brasil passou pela periferia de Curitiba, Salvador e São Paulo. De acordo com Ecio, essa trajetória ajudou a acumular experiência e a travar diálogos com vários atores. Julio, por sua vez, diz que “hoje a Maré está no foco do Rio de Janeiro e que é preciso atrair olhares para cá que não sejam a mira de um fuzil.”

A Flupp Brasil apresentará 40 novos autores que terão seus textos reunidos em um livro, com lançamento previsto para agosto. “A diferença desta vez é que o tema remeterá a uma reflexão sobre o país. Por isso, foram eleitos quatro pensadores brasileiros que terão suas obras discutidas com total abertura crítica”, explica Júlio. Os nomes dos escolhidos ainda não foram divulgados.

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[toggle title=”Nosso leitor também é escritor”]

Elpídio Bernardes da Costa, morador da Maré há 50 anos, é um camarada de ideias criativas. “Minhas histórias são inspiradas em fatos reais que eu fantasio”, conta ele.

Seu Elpídio veio de Ivolândia, município de Goiás. Primeiro foi para São Paulo, depois para o Rio de Janeiro. Passou uma temporada na casa de um amigo que ele conheceu logo que chegou e que lhe deu abrigo. Era na Rua Teixeira Ribeiro. Em seguida foi para o Morro do Timbau e há 32 anos está no Conjunto Esperança.

“Cheguei sem ter onde morar. Aqui conquistei esposa, moradia, tive uma filha”, afirma ele, que há seis anos é agente de saúde do Posto da Vila do João.

Escolhemos um de seus textos para publicar no mês de seu aniversário (ele completou 70 anos em 15 de junho). Parabéns, Seu Elpídio, pelo aniversário e pelas histórias!

O GORDO

Por: Elpídio Bernardes da Costa

— O gordo ta de travesso, com aquela guimba de cigarro atravessada na boca… a baforar fumaça,a empestear de picumã as suas narinas… — A não conseguir-se realizar o seu objetivo, o dono de um restaurante na rua principal da Vila
do João intenta convencê-lo a deixar o nocivo vício: — Esse Inácio Normandes é um jongo, nas garras do vício… enxertado na hipertensão e adoçado na diabete, o seu confete…

— Esse gorducho é um bruxo, só que não existe vassoura que o aguente… a sua vassoura é especial, a varrer o lixo do luxo… — Ao prosseguir-se, o comentário é irônico a afetar diretamente o cozinheiro, que era indivíduo tranquilo, a não
importar-se com os indiscretos ditos: — Ao descortinar-se da fama, na medida certa do tempero… ele, que anda a cheirar alho e cebola, sob o seu labor de cozinheiro, o seu destempero…

— Ora, destemperado o Gordo sempre foi… assim diz o falso feirante Boi, seu amigo… — A uma afirmativa injuriosa, acrescenta um outro cozinheiro, que investigava os seus conhecimentos culinários, após sentir-se liberto para impor-se as suas minguadas habilidades de mestre cuca: — Ultimamente, ele só estava sabendo, era só preparar farofa com toicinho de fumeiro… que já vem temperada, e dá cheiro…

— Uai Batista, levanta a crista… ao cozinhar-se do falo, vai-se um e vem-se outro… — Ao perceber-se que o dono do restaurante estava deprimido, com a passagem do cozinheiro, um mineiro se amigo intenta reanimá-lo, a utilizar-se palavras de conforto: — O Gordo foi-se, e o Magro vem-se… pois a vida é emprestada, ela não é de ninguém…

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