Pintores: temos muitos por aqui

Edson Vital com sua maior incentivadora, sua esposa Inácia Lima, em seu ateliê na laje de sua casa, na favela Roquete Pinto, onde pinta suas telas - Foto: Douglas Lopes

A Maré tem muitos moradores que se dedicam à arte da pintura. São telas, quadros, pinturas nas paredes e letreiros que colorem o dia a dia

Maré de Notícias #108 – janeiro de 2020

Hélio Euclides

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo… e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo… Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu…” Esses dois trechos da música Aquarela, composição de Toquinho, Vinicius de Moraes, G. Morra e M. Fabrizio, retratam numa uma metáfora a infância, adolescência, vida adulta e terceira idade, por meio da pintura. E na Maré não são poucos os moradores que colocam sua emoção na tela, transformam uma vida que poderia ser em preto e branco num presente bem colorido.

Diversos pintores influenciaram o mundo da arte, como Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Jean-Baptiste Debret, Vincent Van Gogh, Leonardo da Vinci e Salvador Dalí. Por inspiração de muitos desses, Edson Vital, de 72 anos, estudou a História da Arte e vive dos seus quadros. Desde a adolescência, deixava as matérias de lado para desenhar na escola. Na época, eram histórias em quadrinhos. Edson concluiu o Ensino Fundamental e logo depois um curso por correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro. E não parou por aí: fez outro curso, desta vez presencial de um ano, na Escola de Belas Artes, em 1988 – seu xodó, do qual mostra, com orgulho, sua carteira escolar.

Edson mostra com orgulho sua carteira da Belas Artes – Foto: Douglas Lopes

Os seus primeiros quadros expostos foram no muro da Escola Municipal Tenente General Napion, na saída da Ilha do Governador, e foram todos vendidos. Hoje tem quadros fora do território brasileiro, um em Angola e outro no Paraguai. Mas até chegar lá não foi fácil, mas valeu a pena. O morador da favela Roquete Pinto, na Maré, que já fabricou sapato Nauru (feito de camurça com solado de borracha) e bonecos de bola de gude, sabe bem sobre o atual ofício. “O pintor precisa ter o conhecimento do desenho, para fazer o esboço. Na pintura é importante saber o que se faz, se é realismo, surrealismo ou cubismo. Esse último me fascina, pelas formas geométricas”, comenta. 

 A esposa Inácia Lima é sua maior incentivadora. “Acho muito bom quando ele sobe para a laje, liga o rádio e, com a música a tocar, coloca toda a sua arte na tela”, revela. Edson também faz cópias de quadros conhecidos, como Mona Lisa e, às vezes, coloca detalhes pessoais. “Cada tela tem a sua história, um tema. Gosto de estudar a história dos artistas, como Leonardo da Vinci que inventou o paraquedas e o helicóptero. Me emociona é pintar o real, gosto de movimento, com técnica de sombra, dobra de roupa, luz e relevo”, detalha. Ele lembra que ser artista não é barato, já que um bom pincel custa 20 reais. A tela também é muito cara, por isso muitas vezes utiliza madeira. Mas ele não desiste da arte. “Não paro de pintar, acho que está no sangue”, conta.

Uma vila colorida

Um atelier em plena Rua Catorze, conhecida como a principal da Vila do João, um dos locais mais movimentados da Maré, onde passam pessoas indo e vindo do trabalho: esse é o local escolhido por Afonso Carlos, de 66 anos, para criar suas obras de arte, um pintor ao ar livre. Esse ambiente eufórico fascina o artista, que acaba pintando de quatro a cinco quadros por dia. A grande maioria é composta de natureza, praias e verde. Ele nunca fez curso, acredita que é um dom de Deus.

Afonso Carlos em seu atelier na Vila do João

Tudo começou no período de infância, quando fugia da escola para fazer desenho de letra japonesa. Por isso, só terminou o curso primário. Mas o talento acompanhou a sua vida. Contudo, Carlos fez outras atividades como segurança da Linha Vermelha e pescador. Seu retorno à arte foi fazendo quadro em madeira, mas sobre a pintura ele diz:”É com o que criei meus filhos, com dinheiro da pesca e da pintura. Agora quero passar a profissão para frente. Tem um neto de 6 anos que mostra um dom para trabalhar com pincel, chora para pintar”, conta. Carlos usa para pintura tinta plástica Acrilex, e se destaca por reciclar madeiras e criar seus próprios quadros.

Ele fica emocionado quando lembra que a pintura o tirou do caminho errado e diz que seus quadros já chegaram nos Estados Unidos e em Portugal. “Isso me faz chorar de emoção, ter quadros no exterior”, resume.  Mas é na Maré que ele se realiza. “Falam que há um artista na comunidade. As escolas daqui me chamam para expor e ainda vendo para os pais e professoras. O que me deixa feliz é a o sorriso dos clientes, de orelha a orelha”, comenta. 

Um artista da tesoura e dos pincéis

Por meio de suas pinturas nos quadros e telas, Zezinho retrata a sua infância, na cidade de Reriutaba, no Ceará – Douglas Lopes

Num salão de cabeleireiro na Baixa do Sapateiro, poucos imaginam que além de um artista dos cabelos, há também um talento da tela. José Carlos de Medeiros, de 53 anos, é mais conhecido por Zezinho. Ele nasceu em Reriutaba, no Ceará e desde criança gosta de pintar. Na escola, já fazia os primeiros traços. Mas na sua vida atuou como garçom e depois retornou para a pintura. Isso foi possível após um curso, onde aprendeu o bê-á-bá dos pincéis. Depois disso, em 2012, fez exposições com inspirações no Nordeste. 

Ele se divide entre as pinturas dos cabelos e dos quadros. “Tenho gratidão por cuidar dos cabelos; é algo que me sustenta, e também trato como uma arte pintar cabelos. Quando pinto a tela também sou feliz; a tinta tem cor e passa um sentimento”, diz. Os clientes do salão admiram o artista. “A primeira coisa que chama a atenção no salão são os quadros. Algumas telas retratam a fé do nordestino, acho muito bonitas, um trabalho perfeito”, conta Ramires da Silva, morador da Baixa do Sapateiro.

No destaque do salão, a pintura do Cristo Redentor sangrando. “Esse sangue representa a violência; fiz em homenagem às crianças que morreram em virtude de tiros no Rio de Janeiro. Mas na maioria das vezes pinto com pensamento no meu Ceará. Sinto a calma de lá”, revela, olhando para o quadro que mais gosta, que junta três paisagens do povoado onde foi criado, Campo Limpo. 

Um artista sem quadro

De uma vida difícil surge a superação. Nilton Sérgio, de 48 anos, morador da Praia de Ramos, teve sua história marcada pela separação dos pais e assim teve de abandonar a escola. Uma tia o ensinou a ler, mas pouco sabe escrever. Para tentar uma vida melhor, em 1991, saiu de João Pessoa e veio para o Rio. Na cidade, não encontrou domicílio, dormia na Ceasa e depois em um banheiro da antiga Praia de Ramos. Sua vida começou a mudar quando começou a olhar o trabalho de um amigo e aprendeu a técnica de cartazista. “Sou agradecido à minha esposa e à pintura, foram elas que me tiraram da dependência química”, conta.

Um diferencial de Sérgio é pintar letras sem saber ler. “Por isso, preciso de um texto pronto para escrever na parede, faixa ou no cartaz. Me sinto feliz com a profissão de cartazista; o desenho das letras, quando pinto, me sinto abrindo a mente e cheio de vida”, conclui. Além das letras, o artista ajuda a colorir a favela, porque também desenha personagens infantis como Hulk, Pica-pau, Piu-piu e Os Simpsons.

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