Quem levanta a Maré

Francisco: cresceu nos canteiros de obra acompanhando seu pai Edilson | Foto: Douglas Lopes

O Bairro não para de crescer e conta com a força e a habilidade de pedreiros, ajudantes e mestres de obras para isso

Maré de Notícias #106 – novembro de 2019

Thaynara Santos

O conjunto de favelas da Maré foi consolidado entre os anos 1940 e 2000, a partir do trabalho coletivo e da necessidade dos próprios moradores ou por meio de programas habitacionais promovidos pelo Estado. Atualmente, 64,3% dos domicílios das 16 favelas da Maré são próprios. Boa parte das casas ainda é habitada pelas mesmas famílias que a ergueram. Em 1994, a Lei Municipal n° 2.119 aprovou a criação do Bairro Maré. Em oito décadas de existência, residências, comércios, bares e mercados foram construídos à margem da Avenida Brasil, por meio de ocupação espontânea (no início, muitas casas eram construídas em palafitas) e de intervenção pública. A Maré não para de crescer e, para isso, conta com o auxílio específico de uma categoria profissional: os trabalhadores da Construção Civil, sejam eles pedreiros, ajudantes ou mestre de obras.

Um desses muitos profissionais mareenses é José Francisco do Nascimento, de 30 anos. Pedreiro e morador da Nova Holanda, Francisco veio de Natal, Rio Grande do Norte, ainda pequeno. O pedreiro conta que o conhecimento da profissão passou de pai para filho e que cresceu em canteiros de obras, acompanhando o trabalho do pai. “Já tem uns 20 anos que eu trabalho nessa profissão, mas eu comecei como ajudante, olhando para aprender. Eu comecei mais por conta do meu pai, que é pedreiro desde que eu o conheço (risos). Gosto muito da minha profissão, porque é o que está me ajudando a sobreviver; está muito difícil conseguir emprego e estou desde criança trabalhando com isso, só sei fazer isso, então procuro fazer o melhor. Cada dia me especializando em alguma coisa. Já trabalhei em obras na Nova Holanda, na Baixa do Sapateiro, Vila dos Pinheiros, Vila do João, muitos lugares.”

José Francisco dos Santos | Foto: Douglas Lopes

Qualidade e compromisso

Por sua vez, Alexandre Goulart, de 37 anos, diz que aprendeu tudo sozinho, apenas “metendo a mão, errando, acertando e com a ajuda de Deus.” O morador do Parque União explica que a profissão que escolheu para sua vida, muitas vezes, é manchada pelas atitudes erradas de outros profissionais. “Para você ser um bom pedreiro, não importa o valor que você vai ganhar, o foco não é ganhar dinheiro. Porque tem duas diferenças, entre quem ganha o dinheiro e quem não entrega a obra. Eu trabalho de outra forma, eu recebo pouco, mas entrego a obra. Eu busco fazer um preço justo, que dê para o cliente pagar e entrego um serviço com qualidade: no prumo, na régua, no nível, na trena. Tudo no bom estado. Não adianta pegar a obra e depois o cliente precisar de mais dinheiro para refazer.”

José Francisco tem a mesma opinião sobre a ética do seu trabalho. “Todas as obras que eu faço, mesmo que seja só um quartinho ou botar uma cerâmica no chão, que leva mais ou menos um dia, são muito importantes para mim, porque eu gosto de mostrar o meu valor e que as pessoas vejam o valor que o pedreiro tem. Sempre tento fazer o melhor possível, não tem essa de obra melhor ou mais importante. A maioria das obras que eu fiz, foi aqui na Maré, apesar de ter trabalhado para alguns famosos. A gente precisa pegar todos os trabalhos que aparecem, mesmo que sejam pequenos e fazer com a maior responsabilidade e comprometimento”, diz o morador da Nova Holanda.

Um trabalho ainda desvalorizado

O trabalho exercido pelo pedreiro pode ser entendido como um dos ofícios mais antigos do mundo. Mesmo assim, seus profissionais ainda sofrem preconceitos e nem sempre têm seu trabalho valorizado. Nas vagas formais da área, divulgadas em sites de emprego, muitas vezes os únicos requisitos do contratante são o Ensino Fundamental incompleto e experiência anterior em obras. Existem alguns cursos e escolas de formação na área da Construção Civil, mas o aprendizado, normalmente, acontece no dia a dia de um canteiro de obras.

Muitos acreditam que pedreiros não possuem um nível alto de escolaridade e que são pessoas pobres que só servem para serviços pesados. Mas isso não corresponde à realidade: um pedreiro precisa ter noções básicas de diferentes aspectos que envolvem uma construção, como rede hidráulica e elétrica, saber fazer cálculos, escolher materiais, estar antenado com as novidades do mercado da Construção Civil, manusear diferentes ferramentas, entre muitos requisitos. “Não tem muita formação para essas coisas de pedreiro, então a gente precisa demonstrar conhecimentos, ter boas ferramentas, ter um material de qualidade, chegar no horário certo, ter respeito ao cliente e entregar o serviço sempre no prazo”, explica Francisco.

Construção Civil: geração de empregos e potencialização da economia na Maré | Foto: Douglas Lopes

Mulheres com a mão na massa

A Construção Civil ainda é uma área dominada por homens, mas o número de mulheres atuando em obras aumenta a cada dia. O surgimento de novos equipamentos e materiais de qualidade ajudam na mudança desse cenário. A presença feminina nos canteiros de obras busca confrontar o senso comum que afirma que mulheres não podem empreender os mesmos esforços físicos que os homens.

No Rio de Janeiro, o projeto Mão na Massa oferece cursos de formação, palestras e a possibilidade de inclusão no mercado de trabalho para mulheres que desejam trabalhar com Construção Civil. A iniciativa é da engenheira civil Deise Gravina, que realiza este ano a 16ª Edição do projeto. O público-alvo são mulheres de 18 a 45 anos, com Ensino Fundamental incompleto. A execução do projeto é do Instituto Maria Imaculada (IPPCAMI) e o financiamento é da Petrobras.

Especialização e mercado de trabalho

Existem muitos cursos na área e a dica é procurar um mais próximo de casa, com o melhor custo/benefício e ficar atento aos requisitos como idade e escolaridade. Instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e o Serviço Social da Indústria da Construção do Rio de Janeiro (Seconci-Rio) oferecem cursos de qualificação profissional, como: pedreiro de alvenaria, mestre de obras, pedreiro de revestimento, encanador, carpinteiro, entre outros.

A Redes da Maré oferece o curso Drywall (280 horas). Drywall significa “parede seca”, em Português, e é uma tecnologia que substitui as vedações internas convencionais de edifícios, como paredes, tetos e revestimentos, por placas de gesso parafusadas em estruturas de perfis de aço galvanizado. O curso tem como objetivo oferecer uma qualificação técnica na área da Construção Civil e tem duração de cinco meses. Público-alvo:  moradores da Maré, de 18 a 30 anos e que tenham o Ensino Fundamental completo.

Você sabia?

  • Em Portugal, o pedreiro é, por vezes, chamado de trolha, palavra que significa, em geral, ajudante ou servente de pedreiro.
  • O Dia do Pedreiro é comemorado em 13 de dezembro. 
  • A palavra “pedreiro” teve sua origem do latim petrarium, ou seja, relativo à rocha, rochedo, penhasco, penedo; pedra.
  • Piso Salarial – Construção Civil (Brasil 2019) – Pedreiro de obra: R$ 2.074,72 (Dados do site SINTRACONST – Rio)
  • Os trabalhadores cariocas da Construção Civil têm um sindicato, o SINTRACONST-Rio (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil do município do Rio de Janeiro), fundado em 1931.



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