Senhoras do destino

A formanda Rozilda Severina Vicente, da turma da Marcílio Dias, no dia da celebração da formatura fez um discurso emocionante - Foto: Douglas Lopes

Projeto educacional oferece novos horizontes às mulheres da Maré

Maré de Notícias #108 – janeiro de 2020

Thaynara Santos

“A rotina é complicada, você chega tarde do trabalho, vai direto dormir, depois acorda só para fazer tudo novamente. Aí chega o final de semana, tem de arrumar a casa. É muito cansativo. Então a vida passa e você não conhece as coisas, não conhece nada da rua para fora. Uma vez, arrumaram um emprego para mim em Copacabana. Eu fui, mas só tinha a passagem de ida. Tive de pedir a um senhor a passagem de volta. Ele me deu e ainda pagou um lanche para mim. Agora eu já peguei a primeira letra do meu ônibus, só me atrapalho às vezes. Eu já sabia ler um pouco, mas agora tenho outras estratégias.” A dona do relato é Luzinete Silva dos Santos, de 50 anos, moradora da Nova Holanda. A paraibana, que chegou na Maré em 1989, decidiu investir nos estudos após criar seus três filhos. Atualmente, é uma das alunas do  “Escreva Seu Futuro – Alfabetização de Mulheres da Maré”, um Projeto da Redes da Maré, com apoio da L’Oréal/Lâncome e parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As aulas são para moradoras das 16 favelas da Maré, que tenham mais de 15 anos, que nunca frequentaram a escola, não completaram o Ensino Fundamental ou declaram não saber ler/escrever. Muitas têm o desafio de conciliar formação, responsabilidades familiares, domésticas e profissionais.

Segundo o Censo Maré, apenas 37,6% dos moradores da Maré completaram o Ensino Fundamental. A maior taxa de analfabetismo se encontra entre as pessoas pretas e indígenas. Esses dados alertam para os obstáculos oferecidos pela desigualdade social e racial que afeta a favela e a periferia.

Sala de aula: um espaço de escuta e acolhimento

 O primeiro ano do projeto na Casa das Mulheres foi em 2019. A sal de aula no Parque União é formada por diversos perfis: mães, tias, avós; algumas trabalham fora e outras são donas de casa; mulheres negras, brancas, de origem nordestina ou não.

As educadoras explicam que muitos são os fatores que influenciam na decisão de tantas mulheres retornarem aos estudos, ou começarem do zero. Um deles é a vontade de pensar um pouco em si mesmas, investirem em um futuro melhor, o desejo de ingressarem no mercado de trabalho, a valorização da educação, de saber ler e escrever, que vai além da leitura de mundo. Entretanto, há obstáculos como a rotina de cuidar da família, pois muitas vezes elas são a única fonte de renda dos familiares. Luzinete, por exemplo, conta que não recebeu o apoio de familiares e amigos quando decidiu voltar a estudar. Muitos criticavam ou não entenderam a necessidade do retorno à escola aos 50 anos. “Eu nunca fui à escola; na minha época, infância era para trabalhar, meu pai não me deixou estudar. Esse tempo todo era só cuidar da casa, trabalhar e olhar as crianças. Fiz tudo o que podia pelos meus filhos, agora vou olhar um pouco para mim. Não pude terminar meus estudos e hoje em dia as pessoas não contratam alguém sem estudos. Passou um carro de som na rua divulgando o Projeto, aí eu peguei meus documentos e fui fazer minha matrícula. E é isso, estou aqui e gostei. Sei que já trouxe mais três para cá.”

A educadora Alcicleia Ramos frisa que muitos aprendizados vão além da sala de aula. “A aprendizagem não precisa ser da forma tradicional, dentro de um quadrado. Passeios a museus e espaços de lazer também são significativos para o conhecimento e o saber. As alunas têm aulas regulares, de segunda a quinta-feira e, às sextas-feiras, fazemos o planejamento da semana seguinte. Nós precisamos respeitar e entender os perfis das nossas alunas; eu não posso trazer a mesma aula ou o mesmo tema de uma mesma forma. No nosso diálogo, percebemos que muitas tinham medo de sair e conhecer outros lugares, com um forte sentimento de não pertencer àquele espaço. E isso não é bobagem, é a realidade. Por isso fizemos muitos passeios e todos de transporte público. Queríamos que esse hábito fosse criado nelas”, diz.

Uma parceria que gerou frutos

A supervisora pedagógica do projeto Edvânia Ferreira Bezerra, de 30 anos, explica  que, no município, a EJA (Educação de Jovens e Adultos) é dividida em dois blocos: a EJA I, que são os níveis iniciais, do primeiro ao quinto ano, e a EJA II, que são os níveis finais do Ensino Fundamental (do sexto ao nono ano). No Projeto “Escrevendo Seu Futuro”, a parceria é com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e, a princípio, só há a alfabetização, mas já existem parceiras para as que queiram continuar o processo de aprendizagem formal. “No fim do ano passado, conseguimos uma parceria com o CEJA Maré, Centro de Educação de Jovens e Adultos, e muitas alunas alfabetizadas serão encaminhadas para lá e darão continuidade aos estudos”, completa.

São sete turmas que acontecem em três turnos (manhã/tarde/noite) localizadas em diferentes comunidades que compõem o conjunto de favelas da Maré: Nova Holanda, Parque União, Baixa do Sapateiro, Marcílio Dias e Vila do João; e seis alfabetizadoras. Para ingressar no curso é necessário ser mulher, preferencialmente moradora da Maré e ter passado pelo Programa Integrado da UFRJ. O Projeto já teve mais de 20 turmas, só na Maré. Hoje em dia, a falta de verbas das universidades reduziu esse número, mas não à força. “Com o ‘Escreva seu Futuro’ nós devolvemos um direito negado a essas mulheres, que é o direito à Educação. E isso é muito importante para a gente. Todos deveriam ter acesso, mas por diversas questões – como uma família que não estimula os estudos, ou por necessidades financeiras – não conseguem estudar no período regular. Por isso percebemos a importância de ter o acesso ao estudo em diferentes horários, não só no turno da noite.

E os relatos das alunas confirmam isso. Por ser uma turma só de mulheres, acredito que elas se sintam mais confortáveis em se abrir nesse espaço mais acolhedor”, explica Alcicleia, que faz parte da equipe pedagógica junto com  Ana Cláudia de Araújo, Carla Beatriz Barreto dos Reis, Jaqueline Soares da Silva, Maria Cleani da Silva da Costa, Jessica da Costa Pinheiro, Edvânia Ferreira Bezerra (UFRJ), Ana Paula Abreu Moura (UFRJ) e  Alessandra Pinheiro (Redes da Maré).

Coordenadores do curso, representantes da Redes da Maré e L’Oréal junto com as formandas – Foto: Douglas Lopes

Saiba mais em: https://redesdamare.org.br/br/info/48/projeto-escreva-seu-futuro

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