A obra que não anda

BRT Transbrasil se estende por dois governos municipais; cariocas sofrem com o transtorno

Maré de Notícias #105 – outubro de 2019

Thaynara Santos e Hélio Euclides

Em janeiro de 2015, as obras do Transporte Rápido por Ônibus (BRT) Transbrasil tiveram início com um orçamento contratual de 1,3 bilhão de reais. O primeiro prazo para seu término era dezembro de 2016, fim do mandato do ex-prefeito Eduardo Paes. Isso não aconteceu. As obras foram suspensas em agosto de 2016, por causa das Olimpíadas do Rio. O processo foi retomado em abril do ano seguinte e pararam, novamente, em março de 2018. Em 2019, a Prefeitura deu continuidade às obras na metade do ano, em junho, e promete entregá-las em dezembro.

O BRT Transbrasil já passou por inúmeras mudanças em diferentes períodos de sua construção. A ideia mais recente é conectar Deodoro ao Centro do Rio. O projeto original previa um trajeto entre os bairros de Deodoro e Caju, mas foi estendido até o Terminal Américo Fontenelle, localizado na Rua Barão de São Félix, próximo à Central do Brasil, em função de um ajuste no projeto exigido pela Caixa Econômica, financiadora da continuidade da obra. A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação (SMIH) informou que a obra já está 95% concluída, referindo-se aos 23 km que ela é responsável, que vão de Deodoro à Rodoviária Novo Rio. No entanto, a sensação é de que ainda falta muita coisa para a sua conclusão. Os outros 9 km, que completariam seus 32 quilômetros, estão a cargo da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (CDURP).

De acordo com a nova proposta, serão 18 estações, ligando Deodoro ao Terminal Américo Fontenelle. A previsão é de que as plataformas receberão 500 mil pessoas por dia, a partir do segundo semestre de 2020. Os consórcios integrantes do Sistema de Transporte Público por Ônibus (SPPO) assinaram, com a Secretaria Municipal de Transportes, um termo comprometendo-se a iniciar a operação do BRT Transbrasil tão logo as obras fiquem prontas.

Obra do BRT irrita lideranças da Maré

O sistema de BRT Transbrasil, considerado um dos maiores projetos de mobilidade para a cidade do Rio, já deveria estar operando desde maio de 2017, mas na Vila do João parece que, além de não progredir, a obra regrediu: parte da estrutura da estação, que estava instalada, foi removida. Pedro Francisco, presidente da Associação do Conjunto Esperança, reclama do distanciamento: “Teríamos de ter uma proximidade maior com os órgãos responsáveis. A dúvida é com a construção da estação em frente à Vila do João. Não sei como vai ficar o acesso dos moradores do Conjunto Esperança”, reclama.

Com a demora na conclusão, moradores queixam-se dos transtornos, como engarrafamentos, desvios e rotas improvisadas, além da ausência de manutenção e estrutura precária das passarelas. “Estou pessimista, a tendência é só piorar. Temos uma passarela que, no meio, só falta cair; será que só vão construir outra quando acontecer uma tragédia?”,desabafa Ana Neris, moradora do Conjunto Esperança.

Em outra parte da Maré, também tem uma passarela de infraestrutura ruim, feita de tubos de ferro. Maria da Graça, moradora do Parque União, se preocupa com sua segurança. “Acho péssima. Para piorar, esses motoqueiros e ciclistas que a utilizam, deixam ainda menos segura a travessia. A gente fica na espera, pois só Deus sabe quando essa obra vai acabar.”

Vilmar Gomes Crisóstomo, o popular Magá, presidente da Associação de Moradores do Rubens Vaz, afirma que se esqueceram de fazer a drenagem da Avenida Brasil. “No verão, nas comunidades houve enchentes, após as chuvas. Também não entendo a mudança de lugar da Passarela 10, que causou a remoção de comerciantes. Por isso, estamos com um abaixo-assinado de 1.000 assinaturas”, critica. A saída da passarela da entrada do Rubens Vaz para o Parque União trouxe problemas também para o outro lado da Avenida Brasil. A Escola Municipal Clotilde Guimarães perdeu parte do seu pátio.

Esqueceram de mim: Marcilio Dias fica sem estação de BRT

Um problema que o Maré de Notícias já mostrou na Edição 82, de novembro de 2017, e na Edição 90, de julho de 2018, é a ausência de estação em Marcílio Dias. Ana Joventino, presidente da Associação de Moradores de Marcílio Dias, questiona o fato. “Vamos ter de andar até a Casa dos Marinheiros para pegar um ônibus do novo Sistema. Pela quantidade de moradores, não entendo por que nos deixaram sem acesso. Estamos até pensando em fazer um abaixo-assinado para entregar à Prefeitura”, alerta Ana.

A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação (SMIH) confirmou ao Maré de Notícias que os moradores de Marcílio Dias serão atendidos pela Estação Marinha do Brasil, que fica na Passarela 15, localizada a quase 400 metros da entrada da comunidade, e que estão previstas linhas de ônibus na pista lateral para operarem como alimentadoras. Uma equipe do Maré de Notícias fez a caminhada da Passarela 16 até à futura Estação. Serão mais 10 minutos, além daqueles que o morador já realiza todos os dias, para chegar à favela. Essa distância prejudica a mobilidade de deficientes e idosos, além de trazer riscos de assaltos.

Uma obra ainda indefinida

Apesar da promessa de conclusão ainda este ano, há dúvidas sobre como os ônibus irão atender à população. Em matéria publicada pelo Jornal O Globo, de 2 de setembro de 2019, a Prefeitura disse que ainda não há um plano operacional; que os ônibus articulados só devem começar a circular em agosto de 2020 e que será necessária uma fase de transição. O problema é que os ônibus convencionais não são compatíveis com as estações, já que a abertura de suas portas é do lado direito e as estações estão sendo feitas para veículos com acesso pelo lado esquerdo. Isso sem falar na altura das estações, que pode causar desconforto, confusão e dificultar o acesso dos passageiros. Questionada pelo Maré de Notícias, a SMIH declarou que, quanto às estações, isso está sendo estudado pelas secretarias de Infraestrutura e de Transportes.

Para Orlando Santos Junior, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, antes da construção do BRT Transbrasil, deveria ter ocorrido uma avaliação sobre a escolha do modal, o trajeto e as formas de participação. “Agora a discussão é centrada na ausência de planejamento para a conclusão de uma obra já iniciada, em 2015, e até agora não concluída. Isso é um descaso, um desrespeito com a população, que mora na cidade e na Baixada Fluminense, afetada pelas obras”, avalia.

Ronaldo Balassiano, do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, lembra que o projeto inicial ligava Deodoro ao Aeroporto Santos Dumont, passando pelas avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas e que o BRT precisa chegar ao Centro da Cidade e as integrações são fundamentais para desafogar a Avenida Brasil. “É importante também que, na chegada a Deodoro, o BRT Transbrasil esteja integrado com o BRT TransOlímpica. Já no caso do Centro da Cidade é importante fazer a integração com o metrô, trens, VLT e barcas”, acrescenta Ronaldo.

O Povo Fala:

 “Esta obra não termina não, já tem muitos anos. A iluminação da passarela em frente ao Conjunto Esperança melhorou um pouquinho, mas mesmo assim tem vezes que falta. Acho que não vai mudar nada com as obras. No Brasil, são 100 anos para mudar alguma coisa (risos). Só tem corrupto, não acredito na mudança.” Erasmo Carlos, vendedor.

 “Acho que a passarela é perigosa. Precisa de uma melhor, pois essa não tem nenhuma estrutura. A escada é perigosa e as madeiras desniveladas. Eu uso essa passarela quase todos os dias. Parece que se bater um vento, leva a passarela. Espero que, com o fim da obra do BRT, melhore.” Myllena Soares, funcionária da Fiocruz, referindo-se à passarela que fica na altura do Conjunto Esperança.

“A travessia na passarela em frente à Fiocruz é difícil, com piso íngreme e degraus irregulares. O ideal na inclusão da obra é a construção de uma passarela nova.” Samuel Ferreira, funcionário da Fiocruz.

Passarela na altura da Vila do João: estrutura da estação, que já estava instalada, foi removida | Douglas Lopes

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