Costura de melhorias

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Amor à primeira vista: o maranhense Atanásio Amorim chegou à Baixa do Sapateiro em 1954 e se apaixonou pela localidade | Douglas Lopes

Alfaiate relembra a costura de melhorias em tempos de palafitas

Maré de Notícias #100

Hélio Euclides

“Na Baixa do Sapateiro, encontrei um dia, a morena mais frajola da Bahia…”, essa canção de Ary Barroso, de 1938, menciona a localidade do Nordeste, mas poderia muito bem falar do amor à nossa Baixa do Sapateiro. Esse amor contagiou Atanásio Amorim, que, ao conhecer o espaço, se apaixonou. A Baixa do Sapateiro teve sua ocupação em 1947, a partir de um pequeno grupo de palafitas de madeira conhecido como Favelinha do Mangue de Bonsucesso. Segundo o Censo Maré 2013, a Baixa do Sapateiro tem 9.329 habitantes e 3.287 domicílios.

Existem três versões para a origem do nome: haveria um sapateiro na ocupação inicial; uma alusão à Baixa dos Sapateiros, de Salvador, na Bahia; ou, ainda, uma referência à vegetação de manguezal, denominada popularmente como sapateiro. Atanásio tem uma quarta versão. “Aqui não era habitado, e tinha um capinzal, no pé do morro. Vinham soltar os burros aqui. O dono pediu para cercar e colocou um vigia, que era sapateiro”, comenta.

Atanásio nasceu em Santo Antônio dos Pretos, no Maranhão, há 88 anos. Em 1954, já com a profissão de alfaiate, saiu de São Luiz e veio para o Rio de Janeiro, direto para a Baixa do Sapateiro, na Rua Pedro Torres. Ele relata que na favela todos colocavam o endereço de Antônio Bento, morador em cuja casa o carteiro deixava as correspondências de todos os moradores da Baixa do Sapateiro. Ao buscar as suas cartas, encontrou o seu amor. Assim, se casou e construiu uma casa feita de estuque. Isso há 58 anos.

Sua primeira luta foi no final dos anos 1960. Na época, a energia era fornecida por cabines de luz, cada uma gerenciada por um morador. “Celso deixou a dele com os outros para tomar conta e apareceram extensões, que não pagavam, e a Light cortou. Formamos uma comissão, pagamos a dívida e transformamos em cabine Santa Luzia, de responsabilidade da Comissão de Luz”, detalha. Ele lembra que a sua casa na Travessa Oliveira foi a primeira que teve iluminação na frente, antes era um breu. A comissão de luz também conseguiu que a Light colocasse iluminação nas ruas.

Atanásio esteve no Primeiro Encontro Estadual de Favelas e já no segundo, o vice-presidente da Baixa do Sapateiro propôs a tese, que foi aprovada, de que as favelas que tinham 20% de construção de alvenaria não poderiam ser removidas, só em caso de utilidade pública. “Combinei com o presidente da Associação do Parque União, Francisco de Souza, para incentivarmos escondidos a construção de alvenaria das casas, para o encaixe no projeto. Esse foi um triunfo”, destaca. Os moradores que não tinham condição de passar para alvenaria, a associação ajudava.

Seu Atanásio foi vice-presidente por oito anos. Na sua gestão não tinha água encanada. “Nos juntamos e trouxemos água da Avenida Brasil, mas na maioria dos dias a torneira ficava seca. Uma vez ficamos uma semana sem água. Procuramos o Departamento de Água, eles disseram que nossa água era clandestina”, conta. A resposta da distribuidora é que não tinha verba para subir com a água. Conseguimos o dinheiro e a distribuidora colocou uma caixa d’água, isso na década de 1970.

Um marco do bairro foi a formação da Comissão de Defesa da Maré (Condefam), que tinha seis representantes de associações. “Lembro de Zé Careca e Agamenon, dois guerreiros. Pela proximidade, eu estava sempre junto com Agamenon, um homem bom, que sempre procurava a união”, conclui.

Atanásio, primeiro à esquerda, na década de 1980: reunião para discutir os problemas da comunidade

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