É lixo? Nem sempre

Foto: Douglas Lopes

Na segunda reportagem da série Educação Tecnológica, o tema é lixo eletrônico: o que é? Onde e como descartá-lo? Entenda os riscos que o meio ambiente enfrenta com os avanços tecnológicos

Maré de Notícias #103 – agosto de 2019

Flávia Veloso

O que você faz com o seu aparelho eletrônico ou eletrodoméstico, quando quer descartá-lo por defeito ou, simplesmente, porque quer trocá-lo por um mais atualizado?  Jogar no lixo comum não é a solução. O chamado lixo eletrônico ou e-lixo tem suas especificações para o descarte, devido aos prejuízos que causa ao meio ambiente; além disso, o que não serve para uns pode ser de grande serventia para outros.

 Não é à toa que aparelhos eletrônicos são substituídos ou descartados com dois ou três anos de uso. Estes equipamentos, em pouco tempo, perdem a capacidade de atualização e armazenamento, apresentando lentidão no processamento. As empresas de eletrônicos trabalham com a chamada obsolescência programada, fabricando produtos que têm “data de validade” – o que leva o consumidor a adquirir versões mais atualizadas. Em países como Itália e França, é proibido que as empresas trabalhem dessa maneira, e o descumprimento acarreta multa, como já aconteceu com Samsung e Apple. Esta prática não só dói no bolso do cidadão, mas também pode agravar a questão do e-lixo, uma vez que, quanto mais se compra, mais se descarta.

 Os exemplos italiano e francês não são seguidos no Brasil, que não tem qualquer lei que impeça a obsolescência programada. A falta de durabilidade dos eletrônicos faz com que os brasileiros, por exemplo, adquiram muitos telefones celulares, o que se demonstra pela grande quantidade destes aparelhos no País. De acordo com dados de 2018, da Fundação Getúlio Vargas, no Brasil há mais de um celular por habitante. E, segundo a Organização das Nações Unidas, em 2016, só o Brasil produziu 1,5 milhão de toneladas de lixo eletrônico, mas somente menos de 3% foram reciclados, indo contra a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei n° 12.305/2010). A PNRS foi instituída em 2010 e aborda, em seu conteúdo, todo o tipo de resíduo, inclusive o eletrônico, e estipula que é dever de empresas fabricantes, distribuidoras, transportadoras e vendedoras, consumidores e poder público lidarem com o descarte, recolhimento e tratamento dos produtos eletrônicos, dando uma nova utilidade para esse material ou destinando a disposição final, em aterros sanitários. Esta prática, a logística reversa, colocaria o País ao lado das nações que melhor tratam a questão do lixo, com uma legislação avançada e responsável. Contudo, apesar do amparo legal, a realidade brasileira é outra. Passados quase 10 anos da aprovação da PNRS, o lixo eletrônico ainda tem um destino errado e perigoso no Brasil.

Danos ao meio ambiente e à saúde

Prejuízos causados pelos componentes eletrônicos

As substâncias abaixo poluem o planeta e causam, entre outros problemas, doenças neurológicas, pulmonares, nos rins, fígado e ossos.

  • Chumbo, bário e outros metais pesados

Em contato com o solo, podem penetrar até atingir camadas aquíferas, causando contaminação.

Presentes em: televisores, monitores, câmeras fotográficas, entre outros.

  • Mercúrio e cadmio, entre outros.

Emitem gases poluentes ao ar e rios.

Presentes em: chips, entre outros itens.

  • Hidrocarbonetos

A queima de equipamentos que possuem esta substância polui o ar e o solo, também emitindo gases tóxicos.

Presentes em: chips e fios de cobre, entre outros.

Cada material em seu devido lugar

É assim que trabalha a empresa carioca de gestão de lixo eletrônico Tech Trash. A empresa presta serviços para pessoas jurídicas e físicas, fazendo recolhimento e descarte corretos. Os aparelhos são desmontados para separar todos os componentes e enviá-los aos seus respectivos locais de reciclagem. Há materiais, inclusive, como circuitos de placa-mãe, que são enviados ao Exterior para serem devidamente reciclados. Entretanto, nem tudo é realmente lixo, pois as peças de computador recebidas podem ser ainda usadas. Técnicos contratados pela Tech Trash testam cada peça, para consertarem e doá-las às instituições parceiras da empresa.

 E não basta só enviar para o ferro-velho. Estes depósitos, como explica Lucas Palazzo, fundador da Tech Trash, são verdadeiros inimigos do descarte correto do e-lixo. Além de não promoverem reutilização, os materiais não são devidamente reciclados. Por mais que os ferros-velhos comprem os aparelhos, as pessoas precisam se conscientizar e buscar locais que tratem devidamente os materiais.

Instâncias públicas e o papel cidadão

Parte da cadeia de responsabilidade pelo e-lixo é do governo. É previsto pela PNRS que cada prefeitura tenha seu plano de coleta seletiva, lidando corretamente com todos os tipos de resíduo, além do dever de fiscalizar o cumprimento das normas de destinação do lixo. Mesmo com estas regras previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos, observa-se, em contrapartida, uma grande quantidade de lixões e aterros sanitários como destino do lixo tecnológico, quando este tipo de resíduo precisa de um tratamento especial, por causa dos metais pesados que contém. A população também deve estar consciente de sua responsabilidade em relação ao descarte de seus produtos tecnológicos. Canais e rios nunca poderão ser o local de descarte de qualquer tipo de lixo.

Potencial econômico do lixo eletrônico

Lixo é dinheiro, e não enxergar isso é negar o poder de geração de empregos nesse setor. Assim como há catadores de diversos materiais recicláveis, os catadores de lixo eletrônico também estão no mercado. Mas não é simples, os trabalhadores desta categoria precisam de uma série de licenciamentos ambientais para que seu trabalho seja legal, como acontece com as cooperativas Coopama, de Maria da Graça, e Coop Céu Azul, de Vigário Geral. São poucos os trabalhadores da área de lixo eletrônico, devido à falta de incentivo e à quantidade de licenças necessárias para se trabalhar com esse tipo de material. Entretanto, na questão geral do lixo, são os catadores os responsáveis por 90% de todo o lixo reciclado no Brasil (Ipea, 2018), o que evidencia a enorme importância ambiental desta categoria.

E onde a favela fica no meio de tudo isso?

Se dificilmente as políticas públicas em prol de uma boa gestão do e-lixo estão presentes na cidade do Rio, nas favelas o cenário é ainda pior. Assim como as coletas seletivas não chegam a esses lugares, campanhas de conscientização não fazem parte do dia a dia dos moradores de periferias, agravando a forma como se lida com o lixo eletrônico.

 Por alguns anos, o projeto Fábrica Verde, uma parceria entre a Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro (SEA RJ) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), funcionava em algumas favelas, ensinando jovens favelados a consertarem computadores, depois destinando essas máquinas a escolas, ONGs, associações de moradores e centros comunitários. Os itens sem conserto, a Fábrica doava a cooperativas legalizadas, que se encarregavam da destinação dentro das normas ambientais. Os itens vinham de doações, que poderiam ser deixados no Ecoponto da Fiocruz. O projeto foi um respiro de sustentabilidade e responsabilidade ambiental no território favelado, com uma cadeia que ia desde a formação tecnológica de jovens, por meio da reutilização, até a destinação final correta. A Fábrica Verde já não funciona desde 2016, mas o Ecoponto da Fiocruz continua recebendo e-lixo.

Locais na Zona Norte do Rio que recebem lixo eletrônico:

– E-lixo (Coop Céu Azul)

Recebe todo o tipo e volume de eletrônicos e eletrodomésticos.

(21) 3474-2901

contato@e-lixo-rj.com.br

www.e-lixo-rj.com.br

Rua Isidro Rocha, nº 70 – Vigário Geral

– Coopama

Recebe todo o tipo e volume de eletrônicos e eletrodomésticos.

(21) 3215-7030

Rua Miguel Ângelo, nº 385 – Maria da Graça

– Instituto Vida Real

(21) 3105-3245

Rua Teixeira Ribeiro, s/nº – Nova Holanda (Complexo da Maré)

www.techtrashbrasil.com.br/pontosdecoletalixoeletronico

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