A incerteza do abraço nos que ficaram no Rio Grande do Sul

Prefeitura de Porto Alegre faz sanitização do Terminal Triângulo, ponto de grande circulação de pessoas — Foto: Cristine Rochol/PMPA

A incerteza do abraço nos que ficaram no Rio Grande do Sul

Com política negacionista e 103% de ocupação nas UTIS, estado gaúcho é responsável por 1 a cada 10 mortes por coronavírus em março

Especial por Ariel Freitas 

Entre mensagens de preocupações e alertas de despedidas de amigos e pessoas próximas, a rotina de um gaúcho que reside longe do Rio Grande do Sul pode ser definida pela palavra ansiedade. Através do peso e da expectativa de quem conhece rostos e histórias que entraram para as estatísticas das pessoas vitimizadas pelo coronavírus no sul do Brasil – já que cerca de 10% das mortes ocorridas nas primeiras semanas de março carregam o DDD 51 – a preocupação pelos entes queridos atravessa as tarefas diárias.  

Em mais um dia distante do meu local de origem, aguardo a mensagem de familiares e das amizades mais próximas afirmando que está tudo bem por lá. De uns, recebo que os cuidados estão redobrados. De outros, o sinal de mensagem recebida não é demonstrado. Por quê? A inquietação toma conta do corpo e da mente. Distante de todos que admiro, não posso cuidar ou remediar caso o extremo aconteça.  

Durante essa aflição constante, os feeds das redes sociais tomam conta e apresentam o desleixo da população e dos representantes das políticas públicas do Estado, que hasteia a bandeira preta em todo território e é responsável por uma a cada 10 mortes de coronavírus no Brasil. Apesar da situação de colapso em solos gaúchos, a mensagem compartilhada na Capital do Rio Grande Sul pela gestão municipal é de “sacrifício” por um suposto salvamento econômico na cidade e de prevenção com medicamentos ineficazes (comprovados cientificamente).  

Tais discursos herdados pela necropolítica imposta nos últimos tempos eleitorais, onde temia-se o avanço de uma suposta violência e de discursos com viés ideológicos de esquerda, trouxeram a incerteza no abraço de amanhã em entes queridos e a ocupação de 103% nas UTIS do Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo que essa realidade existe, o negacionismo nutrido por identidades públicas e na população empilha copos, aglomerações e mais casos de Covid-19 diagnósticos dias depois. 

Analisar o colapso no meu Estado natal, é uma tarefa delicada pois enxergo amigos e familiares em cada estatística compartilhada sobre o Rio Grande do Sul. Eu tenho a certeza que, em uma delas, a minha mensagem de “luto” ou de conforto estará mais próxima. Muito mais do que deveria.  

Ariel Freitas é jornalista, escritor, rapper e ativista. Criado nos becos estreitos da Vila Estrutural e pelas esquinas do Morro Santana, ambos localizados na zona norte de Porto Alegre. Aos 16 anos, Ariel Freitas era campeão de freestyle na maior batalha do estado do Rio Grande do Sul, a famosa Batalha do Mercado. Atualmente, Ariel Freitas escreve sobre os impactos do racismo na Capital da desigualdade racial. Uma Porto nem tão Alegre assim.

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