“A pandemia ainda pode se agravar no Brasil”, diz Carlos Machado, coordenador do Observatório Covid,   ligado à Fiocruz

“A pandemia ainda pode se agravar no Brasil”, diz Carlos Machado, coordenador do Observatório Covid, ligado à Fiocruz

Por Redação, em 21/06/2021 às 06h

Baixa porcentagem da população vacinada, flexibilização das medidas de distanciamento social, desincentivo ao uso de máscaras, falta de coordenação nacional no enfrentamento da pandemia, chegada do inverno, período de férias, surgimento de novas variantes…

São muitos os motivos elencados por Carlos Machado de Freitas, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública e coordenador do Observatório da Covid , ligado à Fiocruz, para alertar sobre a gravidade do cenário da pandemia no Brasil nos próximos meses.

“Soma-se a isso o desinvestimento e a desestruturação da atenção primária à saúde no País, deixando muita gente, principalmente nos municípios menores e mais pobres, com pouco ou precário atendimento à saúde”, completa.

Os elementos da equação apontam para um horizonte nebuloso, onde vacinação em massa e cuidados não farmacológicos (como uso de máscara e higienização das mãos) aliados a políticas que viabilizem distanciamento físico e social em lugares públicos e privados serão absolutamente necessários nos próximos meses – independente do que se convencionou chamar de “terceira onda”.

“Estamos tendo que reafirmar o básico. O governo federal deveria fazer uma distribuição ampla de máscaras de boa qualidade para a população e não jogar contra uma ferramenta tão simples de prevenção”, observa.

A entrevista foi feita por Luciana Bento, coordenadora de comunicação do Conexão Saúde, na Maré

Existe a possibilidade de uma terceira onda da pandemia no País? Que consequências ela teria?
Carlos: Ainda não é possível falar de uma terceira onda no País porque não houve até agora uma queda sustentada do número de casos e óbitos no Brasil. Seria necessário configur uma baixa para chegar a um novo pico e assim o surgimento de uma nova onda.

Em maio, quando a situação estava crítica, alertamos que a elevação do número de casos constituiria um agravamento da situação e isso foi interpretado como uma terceira onda. Mas o que aconteceu foi uma certa estabilização em um patamar altíssimo e agora uma elevação lenta e gradual do número de casos e óbitos no Brasil.

Já temos pelo menos 18 estados e 16 capitais na zona de alerta crítico em relação ao sistema de saúde, com uma taxa de ocupação de leitos alta, em 80% ou mais. Ou seja, temos um cenário de elevação do número de casos e de níveis de transmissão e um sistema de saúde sobrecarregado.

Um copo cheio, já quase na borda, precisa de pequenas gotas pra transbordar. É este cenário que estamos vivendo agora. Sem uma queda sustentada no número de casos e óbitos, o sistema de saúde que já está sobrecarregado, pode entrar em colapso novamente.

Pela média de mortes por dia, é provável que ultrapassemos à marca de 500 mil mortes por Covid – ou meio milhão de pessoas que perderam suas vidas para a doença – no Brasil. Como o senhor avalia este cenário?
Temos nitidamente uma aceleração do número de óbitos que tem a ver também com a saturação e o colapso do sistema de saúde. Vamos lembrar que poucos casos evoluem para situações críticas ou graves, mas mesmo sendo poucos, em uma grande quantidade de número de casos, o número absoluto é muito alto.

Você não tendo acesso ao sistema de saúde – e o último recurso são os leitos de UTI Covid – você vê pessoas com poucas chances de sobreviver. É um cenário de bastante preocupação que a gente vivencia atualmente: uma baixa porcentagem de pessoas vacinadas com as duas doses no Brasil e um afrouxamento perigoso das medidas não farmacológicas de prevenção – distanciamento social e uso de máscaras, principalmente.

Falando da vacinação, mesmo lento, o processo está em andamento. Ele não deveria contribuir para a diminuição dos casos e óbitos no Brasil?

Carlos: A vacinação é fundamental, é da maior importância, mas ainda estamos com pouca gente vacinada no Brasil. Ela tem contribuído para reduzir as internações e óbitos de pessoas com mais idade. Mas como a pandemia não acabou, o que a gente tem assistido é internação e óbito de pessoas mais jovens, com 50 anos ou menos.

Uma das principais questões levantadas na CPI da Covid, em andamento no Senado Federal, é a falta de uma coordenação nacional para enfrentamento da pandemia ao lado de orientações desencontradas sobre prevenção da população. Até que ponto estes sinais trocados impactam no número de mortes por Covid no Brasil?

Carlos: O que vemos é uma aposta na confusão sobre formas absolutamente básicas e necessárias de prevenção, como o uso de máscaras e o distanciamento físico e social, não só nas casas, mas em espaços públicos como transporte coletivo, locais de trabalho e escolas.

Nós tivemos, desde o início da pandemia, uma campanha sistemática partindo principalmente do governo federal – no caso o Presidente e alguns de seus aliados mais próximos, mas também de alguns governadores e prefeitos – contrária às medidas de distanciamento físico e social. Isso contribuiu para um ambiente dissonante, de incongruência entre as evidências científicas e as experiências de outros países, e propostas sem evidências científicas, que partiam de outros
pressupostos, com um projeto político de desorganização do enfrentamento da pandemia. Esta campanha confrontou claramente a ciência e as medidas sanitárias e ajudou a criar inúmeras confusões e reduzir uma adesão maciça da população a elas.

Também não conseguimos fazer uma coordenação regional, entre municípios e estados. Vamos dar o exemplo o município do Rio de Janeiro, que concentra a maior parte dos recursos e dos leitos hospitalares de UTI Covid. A Capital pode adotar medidas restritivas, de distanciamento social, estruturar seu sistema de saúde, fazer o monitoramento das pessoas com comorbidade… Mas se os municípios do entorno não fazem o mesmo e aumentam o número de casos graves, o sistema de saúde da Capital vai ficar sobrecarregado do mesmo jeito.

Então esta coordenação entre os poderes públicos é absolutamente fundamental, não só a nível regional, mas principalmente a nível federal. A pandemia não respeita fronteiras então alguns estados adotam medidas mais rigorosas e outros não, mas o vírus continua circulando. Vide o caso da variante P1 que surgiu em Manaus e se espalhou por todo o País. A ausência de uma coordenação nacional entre os estados é um entrave para o bom enfrentamento da pandemia no Brasil.

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Edu Carvalho

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