A importância do funk na cultura e economia periférica

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Bailes acontecem na Maré desde a década de 80 gerando renda para diversas famílias

Maré de Notícias #148 – maio de 2023

Por Andrezza Paulo

O funk carioca foi o gênero musical brasileiro mais ouvido no exterior em 2022, de acordo com o canal de streaming Spotify e sua importância como gerador de renda não é novidade. A economia gerada pelos bailes auxilia no sustento de centenas de moradores da Maré, além de incentivar a cultura periférica e proporcionar lazer para a população. Hoje um dos mais famosos bailes é o da Disney, na Vila do João, que atrai milhares de pessoas para a comunidade nos fins de semana. Os da Nova Holanda e do Parque União também não ficam para trás, ultrapassando as barreiras territoriais e alcançando multidões.

Os bailes funks acontecem na Maré com frequência desde a década de 1980. Edina Bezerra é mãe solteira de três filhos e tira o sustento nos bailes há 16 anos, com sua barraca de bebidas. “Comecei porque a renda era pouca, trabalhava em casa de família, mas a vida era muito difícil”, relata. 

Seus filhos não morem mais com ela; se não há crianças que a tornam mal vista no mercado de trabalho, hoje são a idade e os problemas de saúde que fazem com que seja virtualmente impossível Edina arranjar um emprego: “Estou com 53 anos e não consigo mais trabalho com carteira assinada. Vim da Paraíba com 11 anos, trabalhei muito, sou hipertensa e já operei o joelho. Continuo nos bailes para pagar minhas contas e conseguir construir minha quitinete. Essa é a minha luta”.

Mc Cabelinho, um dos maiores destaques do funk atual, realizou show lotado no Baile da Nova Holanda, em março deste ano – Foto: Matheus Affonso

Sem dados

Mesmo importante como gerador de renda, o impacto do funk na economia não é avaliado há mais de uma década. Em 2009, o ritmo gerava mais de R$ 10 milhões por mês para o estado do Rio de Janeiro, segundo dados de uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Em 2015, depois de apresentar seu trabalho sobre os trabalhadores dos bailes no 2º Simpósio de Pesquisadores do Funk Carioca, o fotógrafo Bira Carvalho falou em uma entrevista à Agência Brasil sobre a importância dos bailes na economia dos moradores da Maré: “O funk gera renda para a comunidade, para o vendedor de gelo, para o rapaz que vende a bebida e a água, para o salão de beleza, o barbeiro, ele gera renda na questão da roupa”. 

Sonho em real

O funk dá visibilidade às favelas no cenário musical e incentiva os jovens das periferias a acreditar em outras possibilidades através das letras das músicas. Em 2022, foi criado no Rio de Janeiro o #estudeofunk, um programa artístico desenvolvido pela Fundição Progresso para, segundo o programa, “fomentar a cultura do funk carioca e profissionalizar artistas da nova cena musical”.

O projeto tem três ciclos de vivência, e selecionou em cada um deles 50 talentos do funk, incluindo MCs, beatmakers e bailarinos de passinho. Tudo acontece no estúdio equipado na sede da Fundição Progresso, na Lapa; ali, uma equipe técnica especializada (muitos são crias de favelas cariocas como Vidigal, Cidade de Deus e Vila Kennedy) ajuda os artistas emergentes a produzir tanto as músicas como os clipes de divulgação, 

Para Taisa Machado, diretora artística do #estudeofunk, o ritmo representa a coletividade e a voz das favelas: “O funk é o retrato das periferias urbanas do país. Ele é jovem, ousado e marginalizado. É o palco onde nossas vozes são ouvidas, onde nosso corpo é visto. É onde podemos mostrar nosso talento, ganhar dinheiro e realizar nossos sonhos. O funk é uma fábrica de sonhos”, explica.

Os bailes funks acontecem com frequência nas ruas e quadras da Maré desde a década de 1980 – Foto: Matheus Affonso

Mulheres do Funk

Muito antes da Mc Carol cantar proibidão na Europa, Ludmilla fazer uma participação no filme Velozes e Furiosos e Anitta chegar ao Top Global Spotify com Envolver, as mulheres já desempenhavam um papel crucial no cenário do funk carioca. 

Em 2005, Denise Garcia dirigiu Sou feia mas tô na moda, filme que mostra como o funk carioca se reinventou no início dos anos 2000, deixando de ser visto como um espaço masculino, de brigas de corredor e violência, para se tornar “o funk do prazer”. 

As maiores protagonistas deste fenômeno foram, sem dúvida, as mulheres: Verônica Costa, Bonde das Faz Gostoso, Gaiola das Popozudas, Bonde das Boladas, As Tchutchucas, Juliana e As Fogosas, As Danadinhas, Mc Kátia e Nem, Mc Sabrina, Valesca Popozuda, Deize Tigrona e Tati Quebra-barraco são os maiores expoentes. Esses nomes continuam a inspirar as funkeiras contemporâneas e não só como MCs. 

É o caso de Taisa, que além de diretora artística, é atriz, escritora, roteirista e “chefe” no Afrofunk Rio. “O Afrofunk tem como foco a memória e a equidade racial e de gênero”, conta. No final de 2014, ela decidiu juntar suas pesquisas em funk e danças de matriz africana e iniciar uma oficina para, segundo ela, “descolonizar os quadris”, mas não sabia onde isso a levaria. “O meu amor pelo funk e pelos bailes atravessou a minha vida e me levou para esse lugar que é estar no Afrofunk. Sempre curti um baile, mas nunca imaginei que ia ser reconhecida como uma pessoa que trabalha com funk.”

MC Carolzinha é moradora da Cidade Alta e iniciou no funk há mais de 20 anos. “O espaço que eu conquisto sendo mulher preta e periférica é muito importante por falar nas minhas letras o que eu penso, o que eu vivo, o que eu conquisto. Apesar de o racismo ainda ser muito grande, hoje a gente consegue dialogar e ser ouvida, e me sinto privilegiada por fazer parte desse movimento”, revela.

A artista também fala dos desafios enfrentados como mulher no mundo do funk: “Nós damos a vida a um ser humano, sustentamos a casa, alimentamos uma família, então o sexo frágil, na verdade, é o mais forte da sociedade. Dentro desse movimento do funk, o nosso sexo sempre foi vulgarizado e fazer parte dele me trouxe mais posicionamento, me fez entender a mulher preta que eu sou, me fez abrir os olhos como mãe e como filha, e de enfrentar coisas que eu jamais saberia que existiam por trás dos muros da minha favela. É entender a mulher como potência não só do lar, como também potência da sociedade.”

DJ Rennan Valle toca em bailes de diversas favelas desde os 13 anos. Cria da Maré, hoje é DJ dos bailes do Parque União e Nova Holanda – Foto: Matheus Affonso

Criminalização

O ritmo já era considerado “som de preto” quando chegou ao país nos anos 1970, inspirado na música afro-americana de James Brown. Um dos nomes mais importantes para o desenvolvimento do funk foi o DJ Marlboro, que introduziu a batida eletrônica ao ritmo e lançou, em 1989, o CD Funk Brasil, que ganharia o Brasil. 

Não demorou muito para o funk se integrar à cultura carioca e, alinhados com a batida extremamente dançante, os artistas ousaram criar letras que falavam abertamente sobre a realidade das favelas. Assim como a capoeira, o samba e outras manifestações culturais de raízes negras foram perseguidos no passado, o funk sofre constantes ataques e criminalização.

A lei estadual nº 5543, de setembro de 2009, definiu o funk como um movimento cultural e musical de caráter popular e é responsabilidade do poder público garantir que o movimento tenha espaço para realizar suas manifestações. Além disso, os assuntos relativos ao funk deverão, prioritariamente, ser tratados pelos órgãos do Estado relacionados à cultura.

Para Taisa Machado, “o funk segue sendo perseguido pelo Estado, apesar de algumas iniciativas de incentivo e valorização já estarem ocorrendo. Em geral, ele é tratado com violência, como caso de polícia e não, como movimento cultural. O mais interessante nisso tudo é como a favela resiste”.

A produtora revela que, apesar do histórico repleto de desafios, o ritmo também avança enquanto cultura e movimento: “É o caso do #estudeofunk, do Afrofunk Rio, da Casa Funk e de mais um monte de gente que está mergulhada nessa ideia de estudar e entender o funk carioca. Quanto mais soubermos sobre a nossa cultura, mais forte ela e nós ficamos. A meta é fazer o Estado e a sociedade reconhecerem a importância do funk, respeitar nossos bailes, nosso público e nossos artistas.”

Jornal do Brasil de 1992 classificava o funk como um movimento que levava “desesperança”

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