A Maré presente na Bienal do Livro

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Comemorando quatro décadas, a Bienal do Livro recebe crianças escritoras

Foto: Marko Costa

A Bienal do Livro Rio completou 40 anos. Na cidade do Rio ela está na 21ª edição. Uma das novidades desta edição foi a presença das crianças escritoras da Biblioteca Popular Lima Barreto, da Nova Holanda, e da Biblioteca Popular Municipal Jorge Amado, localizada dentro da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna, na Nova Maré, no dia da abertura (01/09). Na festa literária, elas contaram a experiência de lançar nove livros, com textos e desenhos próprios.

Este ano, o maior festival de literatura, reúne mais de 300 autores, com cerca de 300 editoras do país inteiro. Com 200 horas de programação para toda a família. Os visitantes podem escolher entre participar das contações de histórias e encontrar os escritores nos mais de 80 encontros programados para os dez dias da Bienal. A última edição aconteceu de forma reduzida, em modelo híbrido, por conta da pandemia. 

As crianças da rede municipal que visitaram a Bienal receberam um vale com crédito de R$ 50 para a compra de livros. E o voucher oferecido aos jovens da rede estadual é de R$ 100. “Eu estou feliz, pois esse evento literário é o mais democrático. É bom saber que tem programas que levam as crianças das periferias e favelas para a Bienal. É muito legal ver a quantidade de crianças e adolescentes da rede pública de ensino, utilizando o voucher para adquirir o livro e conhecer o universo literário”, comenta Thalita Rebouças, escritora. 

Os escritores da Maré

Duas vans saíram da Maré cheias de crianças com destino ao Riocentro, local onde tradicionalmente acontece a Bienal do Livro. As crianças tinham um propósito, lançar os nove livros infantis criados com histórias vividas por elas no território: Se eu fosse presidente…; Se eu governasse a Maré!, Maré herança ancestral, O diário de uma pandemia; O monstro que invadiu o mundo; Maré de alegria; Maré de encontros; A construção da Praça da Paz.

O projeto dos livros tem a realização da Redes da Maré, em parceria com o programa O Escritor para o Futuro, do projeto Era uma Vez e da Prefeitura do Rio. As crianças puderam colocar as suas experiências com a construção dos livros no estande da Paixão de Ler. “Desde que cheguei há seis meses na secretaria, logo fui apresentada ao projeto. Acabou se tornando um projeto que tenho muito carinho e respeito. Percebo pessoas envolvidas na organização, algo muito simbólico, que se empenharam no lançamento dos livros das crianças na Bienal”, comenta Aladia Araújo, gerente de livro e leitura da Secretaria Municipal de Cultura.

Ela conta qual é a importância dessa iniciativa. “Eu já fui uma dessas crianças da rede municipal de ensino. Hoje, ocupando esse cargo, disponibilizo esse estande para as crianças da periferia, da mais diversa gama cultural. Outro ponto é que pela primeira vez esse espaço homenageia três autores pretos, Carolina de Jesus, Lima Barreto e Luiz Gama. Falando de temas tão incríveis, que são a imaginação, a escrita, a palavra e a liberdade. Ver as crianças aqui é um movimento da imaginação e da criatividade”, explica. 

As crianças contaram sobre a experiência. “As pessoas nem acreditam que sou escritora. Outro dia falei com a minha professora e ficaram duvidando, então levei o livro para a escola e todos ficaram de boca aberta”, revela Lara Lúcia, de 11 anos, moradora da Nova Holanda. Ser escritora traz uma reflexão. “Escrever o livro Se eu fosse presidente…, me fez refletir em melhorar o mundo. Eu compraria uma casa bem grande para colocar todos que moram na rua, mostrando que todos somos iguais e cuidaria da fauna”, sugere Jamilly Vitória, de 12 anos, moradora da Nova Maré.

Uma tarde de festa

Após o lançamento dos livros, as crianças puderam apreciar uma contação de história no estande da Paixão de Ler, com a participação de Rodrigo Maré, ator e músico. “Acompanho a Kemla, que vem contar uma história que ela criou, que se chama Alausa da Menina. Um movimento do carnaval de Recife, no qual pessoas se vestem com roupa peluda grande para pedir dinheiro e quem não dá é chamado de pirangueiro. Uma brincadeira do Nordeste. Eu compartilho hoje o que aprendi como músico favelado, de uma formação em parte da Maré. Muito bom mostrar isso para as crianças que estão aqui, me deixa emocionado”, diz.

Kemla Batista, pedagoga, escritora e contadora de histórias, aproveitou para lembrar o tempo que trabalhou como educadora na Maré, nas escolas públicas do território. “Estar com as crianças da Maré é uma reconexão de um tempo muito especial, como contadora de história. Hoje trago uma apresentação autoral que vai sair no meu quarto livro. Falar de uma brincadeira do carnaval, de uma tradição relevante, uma possibilidade de ampliar horizonte por meio da leitura, da história, da oralidade, da música e da cultura popular”, conclui.

Agenda mareense na Bienal

Na próxima quinta-feira (07/09), às 12 horas, na Rua V, estande dez da Bienal, Jaqueline Luzia, cria da Maré e professora da Faculdade de Educação da UERJ, estará autografando livros. Haverá o relançamento dos livros “Letramento: uma prática em busca da releitura do mundo”; “Formação de Professores na Educação de Jovens e Adultos: temas em debate”; “Educação de Jovens e Adultos: reflexões a partir da prática” e “Orientação e Supervisão Educacional: reflexões sobre o fazer pedagógico”, publicados pela Editora Wak. O primeiro é de autoria da Jaqueline e os outros três são organizados por ela.

Já no dia seguinte (08/09), às 14 horas, é a vez de Jessé Andarilho participar da tarde de autógrafo na Bienal, no estande da Editora Malê, no Pavilhão Verde. O livro infantil Cadu Quer Brincar é uma homenagem a Cadu Barcellos (1986-2020), cineasta cria da Maré. “Em 2012, estávamos no bar Cadu, o escritor Renato Cafuzo e uma galera, todos trocando ideias e falei que desejava fazer um curta de um moleque saindo da escola, chegando em casa, pegando uma bola e chamando os amigos para jogar. Todos acharam maneiro. Em 2016, uma editora pediu um trabalho de esporte, então escrevi uma história ambientada na favela. Na época, expliquei ao Cadu sobre a homenagem. O projeto não foi concluído. Só em 2021, por meio de outra editora, finalizei o livro falando sobre uma personalidade negra”, conta. 

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