Após 50 anos, ‘Passarela do Caracol’ entra para galeria de memórias da Maré

Foto: Redes sociais

Após 50 anos, ‘Passarela do Caracol’ entra para galeria de memórias da Maré

Por Hélio Euclides, em 29/09/2021 às 11h50. Editado por Edu Carvalho

O Parque Rubens Vaz se formou a partir de 1954 e, na época, recebia o nome de Areal, devido à areia que recebia. Ao longo do tempo, o local passou a ser conhecido como Parque Caracol. Rcebeu esse apelido carinhoso por causa do formato circular que tinha do outro lado da Avenida Brasil. Hoje, a estrutura que durante anos fez parte da vida dos moradores da Maré, garantindo a travessia segura dos moradores da Maré de um lado para o outro da Avenida Brasil, não existe mais. No último sábado (25/09), a Prefeitura realizou a retirada da estrutura da antiga passagem, deixando apenas dois pilares na Maré e um do outro lado em Ramos, que serão retirados posteriormente depois de uma avaliação técnica.

Em 2011, parte da passarela 10 da Avenida Brasil caiu após colisão de caminhão. Um ano depois, o Maré de Notícias retratava o drama de moradores que tinham que utilizar a passagem com escada, pois ainda não tinha ocorrido o conserto. Já em julho de 2014, na edição 55, trouxe também uma matéria sobre a improvisação de andaimes e degradação das tábuas na passarela, que depois receberam um piso de cimento. As mudanças fazem parte do BRT Transbrasil. 

Por ser passagem para quem vai trabalhar, estudar nas escolas Clotilde Guimarães e Dilermando Cruz, em Ramos, ou simplesmente para o lazer de quem vai curtir os eventos da Praça do Parque União ou até os bailes da Maré, a passarela é famosa e um ponto de referência para os moradores. Na Avenida Brasil ainda é possível ver esse tipo de passarela, no estilo espiral, em Parada de Lucas. O Méier também tem a sua passarela caracol, próximo ao Hospital Salgado Filho. A mais conhecida fica no Centro de Nova Iguaçu, recentemente foi reformada. 

A antiga passarela caracol tinha um valor afetivo para os moradores da Maré. São diversas histórias de amor à passarela. “Essa passarela fez parte da minha infância. Minha mãe e sogra utilizaram por mais de 40 anos, depois eu, e por último minha filha. Tem famílias que chegam a quatro gerações que pisaram na caracol. Está semana se perdeu a história”, diz Talita Portunato

A irmã de Talita, Daniele Portunato, ressalta a importância para o comércio local. “Perdemos o grande movimento de pessoas que utilizavam a passarela, além de ser um ponto de referência”, conta. Para Felipe da Silva, que é comerciante, a passarela ajudava a conseguir mais clientes. “Vai fazer falta para o comércio da praça e até do Rubens Vaz, pois vai cair o movimento. Outro ponto é o sentimento de perda, passei nela por 30 anos, a minha idade”, expõe. 

Faz parte da história da Maré

“Quem não se lembra da passarela caracol, que era um caminho iluminado pelo sol”, trecho do samba do Rubens Vaz, de composição de Jorge Bob´s e Hélio Euclides, especialmente para edição 100, do Maré de Notícias. Esse sentimento saudosista é o mesmo de Edson Diniz, professor e diretor da Redes da Maré. “A passarela do caracol me traz muitas lembranças boas, principalmente na minha infância. Ela ligava a minha casa à Escola Clotilde Guimarães, onde fiz todo o meu ensino fundamental”, recorda.

Muitos moradores já tinham a passarela como ponto de referência, sempre informando nas vans que iriam descer na Caracol. A parte da passarela que ficava em Ramos lembrava um caracol, molusco de concha espiral. Ao batizar a passagem, moradores demostravam que tinham uma relação afetiva com o lugar. “Alguns historiadores dizem que os lugares fazem parte da memória e isso se materializava na passarela do caracol. Gerações de mareense atravessaram essa passarela, em especial estudantes, que tiveram uma relação afetiva com essa travessia”, diz.

Diniz lembra que um dos momentos mais importantes de sua vida aconteceu em cima da passarela. “Estava no ponto de ônibus, do outro lado da Avenida Brasil indo para o trabalho quando lembrei que naquele dia iria sair o resultado da UERJ. Voltei para a Maré e comprei o jornal numa banca, que tem até hoje, no pé da passarela. Retornei para o ponto, mas no meio da passarela quando folheava o jornal descobri que iria ingressar numa universidade. Isso é muito significativo”, detalha. 

Outro que tem laços afetivos junto à passarela é Sinesio Jefferson, músico e professor. “O primeiro sentimento é de tristeza, pois a passarela fez parte da minha infância. Estudei no Jardim Escola Turma da Mônica e morava na Nova Holanda e meu primo Wellington me levava de bicicleta. Não tinha ainda a ponte entre o Rubens Vaz e Parque União, então era necessário usar a passarela. Lembro de um episódio dela ter caído, pois foram alguns acidentes com caminhões que batiam. Ela tinha um histórico de resistência, de cair e depois levantar, tipo fênix”, exalta.

Como Diniz, o músico Jefferson tem também história não só na infância. “Quando já adulto eu comecei a tocar, e o meu conjunto se chamava Passarela 10, pois a travessia era um ponto de referência para os músicos que moravam fora da Maré e precisava ir para casa do baterista. Quando tivemos que escolher um nome, veio logo Passarela 10, que é X em romano, algo forte. Fico triste, pois era um monumento da cidade, principalmente para quem é da Maré, onde as passarelas são muito importantes”, conclui. Para a travessia de moradores foi construída uma nova passarela, agora no Parque União, que vai ligar passageiros à estação do BRT Transbrasil.

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Hélio Euclides

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