Artigo: Uma Maré de Esperança

Campanha Maré Diz NÃO ao Coronavírus. Foto © Douglas Lopes

Artigo: Uma Maré de Esperança

A resposta da Redes da Maré à pandemia no Rio de Janeiro

Entrevista concedida por Eliana Sousa, em Revista Sur – 12/05/2022

Em anos como 2020 e 2021, quando os problemas trazidos pela pandemia de Covid-19 foram particularmente graves no Brasil, a Redes da Maré conseguiu minimizar os impactos nas 16 favelas do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Por meio da campanha “Maré diz NÃO ao Coronavírus”, a instituição garantiu que 69.542 pessoas tivessem o mínimo necessário para sobreviver.

A perda de mais de 600 mil vidas no Brasil é o resultado mais trágico da combinação entre uma doença praticamente desconhecida e uma administração governamental ineficiente e omissa. Especialistas acreditam, porém, que além do luto dos mortos, o país sentirá por muitos anos os impactos econômicos e sociais dessa crise. E a principal razão para isso é a profunda desigualdade que assola o país.

No Brasil, as questões econômicas, de gênero, raciais e territoriais tiveram grandes impactos na sociedade. Nesse contexto, tornou-se fundamental mobilizar as redes necessárias para proteger os direitos dos moradores da Maré. Diante da inércia do Estado, a sociedade civil e algumas empresas assumiram a liderança na tentativa de ajudar os grupos mais vulneráveis.

Já em março de 2020, a Redes da Maré começou a buscar inspiração no que estava sendo feito no Brasil e principalmente em outros países para ajudar as pessoas que não tinham condições de trabalhar para se sustentarem durante o período de isolamento social. Com base nessas referências e com o apoio necessário, a organização criou uma campanha com seis linhas de ação.

Todo o trabalho realizado na região foi posteriormente reconhecido por meio do Prêmio Empreendedor Social da Folha de S. Paulo e do Prêmio Carolina Maria de Jesus Direitos Humanos da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré, atribui o sucesso da campanha ao processo de organização já existente na região: já trabalhando ou agindo aqui na Redes da Maré. Nossa organização utiliza uma abordagem onde realmente pensamos em estratégias que produzam respostas que estruturem a realidade em que vivemos”.

Um grupo de favelas que é maior que 96% dos municípios do Brasil

Organizar uma campanha social nas 16 favelas da Maré não é uma tarefa fácil, pois mais de 140 mil pessoas vivem na região. Se a Maré fosse uma cidade, seria maior que 96,4% dos 5.570 municípios do Brasil.

Para atender adequadamente os moradores, a Redes da Maré contou com informações do censo da Maré,1que a organização vem realizando desde 2010 para produzir conhecimento sobre o modo de vida da população. Com base nesses dados, a organização identificou inicialmente 6.000 domicílios em situação de maior vulnerabilidade que deveriam ser priorizados na campanha. Porém, já no primeiro mês, em abril de 2020, a demanda por atendimento superou esse número. Ao longo da campanha, foi prestado apoio a 18.000 famílias.

A Redes da Maré descreveu a experiência de atuar em um local com dimensões tão singulares em reportagem sobre a campanha que publicou em 20202: “Temos sentimentos contraditórios por termos conseguido mobilizar um leque de possibilidades e parcerias em um momento tão difícil. Por um lado, reconhecemos a importância de atender as necessidades urgentes de muitas famílias, mas, por outro, observamos algo triste: o abandono quase total e a falta de políticas de proteção social para parte significativa da população brasileira”.03

Seis frentes contra o vírus

Apenas uma semana após a declaração da pandemia, em março de 2020, a Redes da Maré se reuniu com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para entender o cenário em questão. “Isso foi muito decisivo para as respostas que demos. Queríamos responder de forma coerente com nossa história e com tudo que construímos até então”, explicou Silva em relação à parceria com a Fiocruz. Esta parceria envolveu desde medidas práticas, como testes em massa e vacinação3para estudos na área da saúde e sobre os efeitos da vacina produzida pela Fundação. Em um período de seis dias, 37.000 pessoas com mais de 18 anos receberam a primeira dose da vacina e cerca de 20.000 vacinas foram administradas na segunda rodada de vacinação.

O diretor da entidade resume isso dizendo: “A resposta do estado [à pandemia na Maré] foi dada pela Fiocruz. Eles começaram a dar e criar protocolos para nós para que pudéssemos trabalhar nas ruas como agentes de saúde”.

No entanto, ao preparar a campanha, a organização percebeu que os problemas que afetavam as famílias da Maré iam muito além das questões de saúde. Por isso, a organização definiu seis linhas de ação: segurança alimentar e nutricional; atendimento à população em situação de rua; geração de trabalho e renda; acesso a direitos, saúde e prevenção; produção e divulgação de informações e conteúdos seguros e apoio a artistas, produtores e grupos culturais locais.

A resposta na primeira frente – segurança alimentar e nutricional – consistiu na entrega de cestas recheadas de alimentos básicos, higiene pessoal e limpeza. Posteriormente, um novo método foi utilizado: cartões voucher com crédito equivalente ao valor de cada cesta foram distribuídos para dar maior autonomia às famílias e apoiar o comércio local. Entre 2020 e 2021, foram distribuídas cestas para 22.433 famílias.

Refeições foram distribuídas para a população na rua. Mais de 75 mil refeições foram distribuídas ao longo da campanha por uma equipe especializada em redução de danos, que presta apoio a pessoas com dependência de drogas, faz encaminhamentos e coordena com outras organizações e instituições públicas.4É importante destacar que como essas pessoas estão em situações ainda mais vulneráveis, elas foram testadas semanalmente. Nenhum deles morreu.

Além de receber as refeições, a população em situação de rua também se engajou na campanha trabalhando em outras frentes. Para algumas dessas pessoas, esse foi um ponto de virada em suas vidas, pois o envolvimento com a campanha possibilitou não apenas a sobrevivência, mas a organização financeira para sair da rua.

Na frente de geração de trabalho e renda, a Redes da Maré mobilizou 20 mulheres vinculadas à Casa das Mulheres da Maré, outro projeto da organização, que preparava as refeições diárias distribuídas à população em situação de rua. Também envolveu 53 costureiras na produção de cerca de 300 mil máscaras, que foram entregues nas casas das pessoas. Além disso, 20 motoristas trabalharam para entregar cestas básicas e kits de higiene para famílias em situação de insegurança alimentar.

Na ausência do Estado, a entidade garantiu que os moradores tivessem acesso a atendimento online todos os dias para tirar dúvidas relacionadas à saúde, violações e dúvidas sobre como fazer valer seus direitos.

A campanha arrecadou equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras e luvas, para os postos de saúde da região. “A Maré tem sete clínicas da família, e eles estavam completamente sem EPI”, relatou Silva. Máscaras e desinfetante para as mãos também foram distribuídos à população. A organização também desinfetou cerca de 900 mil ruas, becos e vielas nas 16 favelas da Maré, aplicando produtos específicos que dificultam a aderência do coronavírus às coisas.

Além disso, nesta quarta linha de ação, foram implementados projetos de testagem, assistência médica online e isolamento domiciliar seguro. Quando alguém testou positivo para o vírus, Redes da Maré levou um oxímetro para que pudessem monitorar seus níveis de saturação de oxigênio no sangue e entregou duas refeições por dia para que ficassem em isolamento. Isso foi feito através do projeto chamado “Isolamento Seguro”.5

Em tempos de fake news e do que ficou conhecido como “infodemia” (a pandemia da desinformação), houve também a necessidade de trabalhar na produção e divulgação de informações e conteúdos precisos. Assim, a campanha divulgou conteúdo para informar os moradores sobre a situação das favelas e periferias em relação à pandemia e instruí-los sobre como se proteger. O “Guia de Isolamento Domiciliar” e o “De Olho no Corona!” (De olho no Corona!) merecem destaque aqui.

Por fim, a Redes da Maré trabalhou para apoiar a produção de conteúdo jornalístico sobre a pandemia e desenvolver projetos que visassem reconhecer e fortalecer os artistas locais que foram fortemente afetados, pois a pandemia os impossibilitou de exercer suas atividades artísticas.6

Ficou claro desde o início que houve uma ampla aceitação da campanha devido ao alto nível de participação dos moradores. 

“Muitas pessoas da Maré se envolveram na campanha. Pessoas que nunca haviam participado de nenhum grupo e atividade comunitária começaram a vir todos os dias para estar conosco.”

Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré

Além da campanha

Continuando as dificuldades causadas pela pandemia de Covid-19, a campanha foi estendida até 2021. Também deu origem a outros dois projetos: “Impacto na Vida” e “Conexão Saúde”.7

O “Impacto na Vida” apoia atualmente 300 famílias. O objetivo é realizar várias formas de ação regularmente para ajudar as famílias a ter acesso aos seus direitos. Oferece cestas básicas, tablets e planos de internet para jovens em idade escolar, além de apoio psicossocial.

O projeto também oferece apoio às pessoas que testaram positivo para Covid-19 e estão em isolamento domiciliar, além de assistência jurídica e psicossocial. O projeto Impacto na Vida visa atingir 2.000 famílias em 2022.

Outro resultado da campanha “Maré diz NÃO ao Coronavírus” é a campanha “Conexão Saúde”. Essa parceria com seis organizações, incluindo a Fiocruz, busca oferecer suporte para testagem em massa, serviços de telessaúde, isolamento domiciliar e atividades de comunicação.

Além desses projetos, a Redes da Maré aproveitou o conhecimento adquirido sobre as comunidades para trabalhar intensamente no apoio à vacinação em massa em julho no grupo de favelas. A ação foi desenvolvida por meio de uma parceria da Secretaria Municipal de Saúde com a Fiocruz e Redes da Maré.

Obviamente, no contexto de calamidade pública, os esforços das instituições da sociedade civil e de seus parceiros não foram suficientes para proteger completamente a Maré dos horrores da pandemia. Para homenagear as vidas perdidas, a Redes da Maré ergueu um memorial. “Esse trabalho é feito com as famílias para redefinir o significado dessa dor, desse sofrimento”, explica Silva.

Os 20m2painel de azulejos com os nomes de 72 vítimas e exposto na rua Bittencourt Sampaio, na favela Nova Holanda. No momento da redação deste artigo, 388 moradores das favelas da Maré morreram de Covid-19. Todos serão homenageados em um painel maior que será instalado nos escritórios da Fiocruz.05

Uma nova Redes da Maré

Quanto à própria Redes da Maré, a organização ampliou seu olhar e, consequentemente, sua forma de atuação. Até então, o trabalho da ONG estava focado principalmente nas violações mais evidentes nas favelas – aquelas resultantes de operações policiais. Nessa experiência, a Redes da Maré criou novos canais – inclusive via WhatsApp – para recebimento de denúncias, denúncias e dúvidas sobre outros problemas que a população da região vive.

No entanto, os impactos da campanha foram muito além disso e, como a própria Silva argumenta, as mudanças mais profundas podem não ser perceptíveis ainda. O fato é que os moradores não foram os únicos afetados. A organização como um todo, e seus membros individualmente, foram transformados por essa experiência. “Existe o impacto imediato de podermos realmente fazer a diferença, mas acho que do ponto de vista institucional, ainda estamos tentando entender o quanto a pandemia nos mudou, o quanto nos forçou a sair o lugar em que estávamos – que às vezes era até confortável – institucionalmente. Não seremos os mesmos depois dessa experiência”, explicou o diretor da Redes da Maré.

Ao final, fica claro que todo o trabalho realizado ao longo da campanha “Maré diz NÃO ao Coronavírus” foi resultado direto do conhecimento acumulado ao longo do tempo e de uma longa história, e os impactos gerados foram muito maiores do que esperado.

Quando questionado sobre o impacto pessoal desse trabalho, Silva resumiu dizendo: “Sei que fizemos muito, mas isso só foi possível graças a essa sensibilidade, esse cuidado. É como se eu tivesse preparado toda a minha vida para viver isso”.

***

Este texto foi elaborado com base em entrevista concedida por Eliana Sousa Silva (Diretora da Redes da Maré) à equipe do Jornal Sur em novembro de 2021, na reportagem sobre a campanha “Maré diz NÃO ao Coronavírus” e outros materiais produzidos pela Redes da Maré . Maré sobre suas ações antes e durante a pandemia, que estão disponíveis na página da organização.8

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Eliana Sousa Silva

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