Conceição Evaristo pode ser a primeira mulher negra na ABL

Maré de Notícias #91 – 01/08/2018

Campanha #ConceiçãoEvaristoNaABL ganha força para a escritora ocupar a cadeira número 7

Maria Morganti

A escritora mineira Maria da Conceição Evaristo de Brito, Conceição Evaristo, poderá ser a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. A instituição foi criada pelo escritor – também negro – Machado de Assis, em 1897, para “cultivo da língua e da literatura nacional” e é considerada a entidade de maior prestígio intelectual do País. A Redes da Maré, o Observatório de Favelas e o Instituto Maria e João Aleixo uniram forças para lançar a campanha #ConceiçãoEvaristoNaABL no fim de maio. Mais de um abaixo-assinado foram criados e, juntos, somam mais de 20 mil assinaturas. A movimentação começou após o falecimento do cineasta Nelson Pereira dos Santos, que ocupava a cadeira de número 7, deixando-a vaga.

Preta, favelada e premiada

Nascida na Favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte, no ano de 1946, Conceição Evaristo é autora de romances, contos e poemas como “Ponciá vicêncio”, 2003; “Becos da memória”, 2006; e “Olhos d’água”, 2014, este último contemplado com o Prêmio Jabuti em 2015, na Categoria Contos e Crônicas. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Conceição oficializou a sua candidatura em junho. Os interessados têm dois meses, a partir da abertura oficial da vaga, para formalizar o seu interesse em ser um imortal. O pedido é feito por meio de uma carta que é enviada ao Presidente da Instituição, hoje, o poeta Marco Lucchesi. Para se candidatar, é preciso ser brasileiro ou brasileira nato/a e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, “livros de valor literário”, como descrito no site oficial da Academia.

Campanha pressiona

Pelo voto secreto, os 40 membros efetivos e perpétuos decidem quem será o novo ou a nova imortal. Para ser eleito, é preciso ter a maioria absoluta de votos. Após a definição, os papéis com o nome dos escolhidos são queimados em um caldeirão. De olho nesse calendário, a campanha segue a todo vapor. Estão marcados para os dias 16 e 30 de agosto – datas da votação, vários “twitaços”.

Enquanto o número de pessoas que aderem a campanha só aumenta, segundo o colunista do Jornal O Globo, Ancelmo Gois, o frisson não tem sido bem visto pelos membros da ABL. “A reação entre os imortais da ABL à candidatura da querida Conceição Evaristo, de 71 anos, não é boa. Por lá, estão dizendo que a Casa não funciona na base de pressão, como vem fazendo a campanha em prol da escritora mineira. A candidatura dela é apoiada pelo movimento negro e mobiliza milhares de pessoas na internet”, afirmou o colunista no início de junho.

Divisor de águas

No último dia 20 de julho, a ABL completará 121 anos de fundação. Nesse tempo, apenas oito mulheres ocuparam uma cadeira de imortal. A primeira delas foi a escritora Rachel de Queiroz, em 1977. Para Michele Fanini, pós-doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Sociologia da cultura, da literatura e de gênero, uma possível vitória de Conceição Evaristo será um divisor de águas na história da ABL. “Por certo que a vitória no pleito representará um importante divisor de águas na história da ABL, mas a formalização da candidatura de Conceição Evaristo já é, em si, um marco histórico”, declarou à Revista Gênero e Número. E complementou: “Não poderia haver nome mais apropriado para compor tal genealogia literária do que uma escritora que faz de sua literatura palco de ‘escrevivência’”, afirmou.

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