Cada vez mais visíveis

Data:

Maré de Notícias #92 – 03/09/2018

Para celebrar, com certo atraso, O Dia da Visibilidade Lésbica, convidamos moradores da Maré para falarem da sua luta como lésbicas e faveladas

Eliane Salles

Os avanços sociais, científicos, de pensamento e de costumes não ocorrem, infelizmente, no mesmo ritmo que as necessidades individuais e coletivas exigem. Mas, apesar de caminharem lentamente, eles vão se dando. O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado em 29 de agosto, é um desses passos adiante. Pode parecer algo pequeno (a data é pouca conhecida e menos ainda celebrada), mas sua instituição abre caminhos e reforça a esperança de dias mais fáceis para as milhões de lésbicas brasileiras – afinal, defender a visibilidade é defender o direito de existirem, de serem respeitadas e terem reconhecidas suas necessidades, afetividades e particularidades.


Ser lésbica na favela é…

Embora o Dia da Visibilidade Lésbica já tenha ocorrido, o Maré de Notícias convidou três mulheres lésbicas para compartilharem com os nossos

 leitores sua experiência em vivenciar sua orientação sexual no bairro em que foram criadas. Confira:

“Acho que o ser lésbica na favela é como ser lésbica em qualquer lugar, o que muda um pouco é o que é ser lésbica de favela. Começando pela lésbica de favela que não tem passabilidade*, ser “taxada” de lésbica favelada, mesmo sendo bem-educada ou coisas desse tipo, mesmo sabendo que ser favelada não é ruim ou errado, é complicado. A posição financeira da lésbica de favela implica círculos de amizade, o que ela faz pra se manter é uma pergunta muito recorrente. Quanto menos passabilidade ela tem, menos trabalho ela consegue. Aí tem de se colocar no mercado de favela, que são

 serviços como mototaxista, entregadora, assistente de obra. Eu, inclusive, sou mototaxista apesar de ser uma sapatão com passabilidade”. Carol Caldas, 25 anos, cake designer e mototaxista, nascida e criada na Maré.

“Ser lésbica na favela deve ser bem parecido como ser lésbica numa cidade de interior, onde todo mundo se conhece. A maioria das pessoas onde moro, no Sem Terra (Parque União), me conhece e conhece minha família. Senti minha sexualidade muito comentada tanto que, quando fui me assumir para minha mãe, ela nem se espantou, já que os comentários sobre eu beijar meninas rolavam pela rua há muito tempo. Uma das dificuldades que enfrento como lésbica de favela é a falta de órgãos públicos atuantes no lugar onde moro, pois se sofro lesbofobia*, não tenho a quem recorrer, já que o poder público não atua aqui, fora a negligência na [área] da Saúde. Mal consigo uma consulta com ginecologista e não tenho com quem tirar dúvidas sobre as IST* que podem ser transmitidas com o sexo lésbico e como me proteger”. Joana Dark, nascida em Itapetim (Pernambuco), chegou à Maré (onde vive até hoje) aos 8 anos. Tem 24 anos e é terapeuta holística.

“Acredito que em toda a sociedade há uma naturalização de diversos tipos de violência contra lésbicas, mas na favela isso, infelizmente, parece pior. Não conheço nenhuma sapatão de favela que não tenha sofrido violência (verbal, psicológica e, às vezes, até física) de familiares, vizinhos, etc., pela condição de ser mulher lésbica. Eu somente entendi que era lésbica com 16 anos. Mas antes disso as pessoas do meu convívio já tinham entendido e me rotulado a partir das brincadeiras que eu gostava (futebol, bola de gude, pipa, peão, etc.). Tenho amigas que adoravam todas essas brincadeiras e hoje são heterossexuais… Já sofri preconceito de vários tipos. Quando se é mulher negra lésbica favelada – sem vírgula – a gente mal sabe diferenciar qual tipo de ataque está sofrendo”. Kamilla Valentim, 24 anos, estudante de Psicologia (UERJ).

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