Campanha de aleitamento e doação de leite na Maré é retomada

Data:

Mobilização nas unidades de saúde é para aumentar o coleta de leite materno e incentivar a amamentação

Por Edu Carvalho, em 16/09/2021 às 10h40. Editado por Daniele Moura.

Numa conversa trivial durante o almoço de domingo, sentados na sala, recordando lembranças através dos albúns de fotos, possivelmente sua mãe relembra o quanto foi bonita a trajetória até o seu nascimento, toda apreensão para que você nascesse ‘’na hora’’. E as lembranças, em geral, se estendem ao  o pós-parto, com  a bendita frase ‘’Você mamou por muito tempo’’. A série de ações poderia passar batida, se não fosse um questionamento simples: você já parou pra pensar o quanto foi importante receber o leite materno na sua infância?

Pode acontecer falta ou abundância de leite, situações que tornam importantes a presença de profissionais como Zilda Santos, técnica de enfermagem. Pelas mãos de Zilda e diversos outras agentes de saúde em territórios gigantescos como a Maré e a Penha, milhares de mães puderam doar seus leites e tantas outras centenas de crianças puderam ter uma vida mais saudável. 

‘’Foi assim que criei um projeto de doação de leite, que aconteceu por causa das mulheres que faziam parte do grupo de acompanhamento da gravidez. Elas começaram a voltar com a mama cheia, e ela corre risco de febre, pode ter mastite (uma infecção), além de muita dor’’, conta a atual apoiadora técnica da linha da criança e do adolescente da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. 

Inicialmente o que era para dar auxílio às mulheres passou a virar contribuição indispensável em uma UTI. Quando ouviu de um pediatra “Tem leite humano pasteurizado?”, logo pensou “eu jogo um monte de leite fora, como vou fazer esse leite chegar aqui?” À época, não tinha o sistema de gerência e o grupo técnico auxiliava . Conversando com uma integrante do grupo da unidade, soube que para o armazenar o leite , seria necessário um freezer, o que logo foi adquirido por meio de doação de moradores da comunidade. 

Agente de saúde com frasco de leite recebido em unidade. Foto: arquivo pessoal

Naquele período, as melhores embalagens para guardar o leite eram potes de vidros com tampas de plásticos, comuns para embalagens de maionese (hoje muitas viraram de plástico) e café solúvel. “O leite humano precisa ser preservado em frasco de vidro com tampa de plástico, se não oxida. Se for em plástico comum, o produto tem substâncias cancerígenas e acaba liberando ali. E para limpeza, o frasco de vidro é reaproveitado milhares de vezes, sempre esterilizado, afirma a enfermeira.

Zilda começou a fazer a coleta em todas as comunidades da Maré e região, num fluxo criado diretamente no Hospital Fernandes Figueira.

Numa conversa que teve com uma atendente, ouviu de que seu trabalho estava sendo fundamental, mas que a iniciativa não poderia entrar nas favelas. “Ela me parabenizou e perguntou se eu não podia descer com o leite até a via mais próxima, que de lá eles pegavam. Fiz um fluxo direto com ela, descendo com isopor e eles iam”. O processo durou cerca de dois anos. 

Em um curso de especialização que fez na maternidade Herculano Pinheiro, comentou com o nutricionista chefe do banco de leite o trabalho de coleta que fazia na comunidade, que propôs que destinasse o leite para o banco de leite para lá, pois tinham muita dificuldade de conseguir doação. Na época, Zilda estava lotada na unidade de saúde PSF Sereno Paz e Fé, que hoje é a Clínica da Família Aloísio Novis, na Penha. No ano de 2011, desenvolveu um treinamento interno para agentes, passando no ano seguinte para gestão que coordenava a região da Maré. Com a mudança, ainda mais pontos de coleta de leite humano foram abertos. 

No ano de 2015, convidada para tornar sua ação um projeto instituído pela Coordenação da Área Programática de Atenção Primária 3.1. Com fomento, mais de 600 profissionais por ano eram capacitados para fazer o recolhimento, com total de 15 postos de coleta. Por semana, em média, cerca de 60 frascos de leite eram distribuídos. O projeto foi descontinuado na gestão do ex-prefeito Marcelo Crivella (2016-2020). “Ele não achou importante”, lamenta. 

Com o fim da proposta, tudo voltava à estaca zero. Todo o esforço de   15 anos recomeçava.. “Pegava tudo com meu carro. As pessoas não tinham mais o incentivo, foram parando. Quando a pandemia veio, acabou mesmo”. Mas como  a esperança é “a última que morre”, uma pontinha de motivação restava aos que fizeram parte das formações nos anos anteriores. 

Importância da ligação do agente com o morador é ponto chave para doação 

Atualmente são 20 frascos de leite recolhidos atualmente. Para Zilda, a maior dificuldade está na relação direta do agente de saúde com o morador. “A mulher está com bebê no colo, ele às vezes não consegue sair de casa. Se não tiver orientação adequada, ela não vai coletar, acaba indo pra debaixo do chuveiro e ela despreza esse leite. Por isso a importância do profissional estar atento na hora de abordar e acompanhar essa mãe”, diz. 

Durante os três anos que a Secretaria de Saúde apoiou o  projeto, uma metodologia foi criada  para treinar o profissional de saúde para incentivar, durante todo o período da gravidez, o aleitamento materno. “Se você pensar, o aleitamento não é só comida. Aleitamento é vínculo, saúde. Uma gota desse leite tem mais de duzentas vacinas. Quando você trabalha nesse processo, essa mãe faz (o aleitamento) até o sexto mês do bebê, ela é uma criança que estará protegida”, explica. 

Em maio deste ano, no lançamento da Campanha Nacional de Doação de Leite Materno 2021, o Ministério da Saúde divulgou números com objetivo de ampliar ainda mais a prática para atender à demanda no país. Atualmente, o Brasil conta com 222 bancos de leite materno e 220 pontos de coleta. Em 2020, foram doados 229 mil litros de leite materno por 182 mil mulheres. Esses números marcaram um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior.

O produto fabricado pela melhor indústria – o corpo feminino influenciado pela maternidade – acaba por reduzir as chances da criança ter uma enfermidade que a coloque em um leito do SUS, de custo diário de dois mil reais. Caso apresente infecção respiratória, ele tem que ficar por 14 dias internado. A conta seria de 28 mil reais. 

“A mãe que amamenta também não usa fórmula, que custa caro, em média 80$. Para uma mãe de favela, esse dinheiro é muito. Você acha que nossa população vai ter essa quantia e comprar a fórmula? Não vai”, enfatiza. Segundo ela, se torna urgente disseminar os benefícios do aleitamento materno e por sua vez, a doação de leite humano.. E é prioritário que o trabalho comece dentro da unidade de saúde. 

Mobilização na unidade de saúde. Foto: arquivo pessoal

“Quando a mãe vem à unidade para o teste do pezinho, cabe um entendimento maior sobre tudo. Escuta-lá sobre o pré-natal, o parto, se teve trauma, se sofreu violência obstétrica, se tem problemas para amamentar, ensinar a retirar o leite de forma correta e dar o frasco. Pronto: se tudo isso for feito, ela vai ser uma doadora”. 

Os resultados de campanhas de incentivo nos territórios sobre gerência da CAP 3.1 comprovam. De 2015 a 2018, o número da mortalidade foi reduzido em 48%. Nesses anos, eventos de incentivo e mobilização aconteceram, como: o Mamaço Maré, que de uma vez só colocou 400 mulheres na Vila Olímpica; a  Caminhada da Amamentação com Vigário Geral, Jardim América e Heitor dos Prazeres; ou mesmo a reunião, em 2017, de 1.500 pessoas na Igreja da Penha. ‘’Não tinha espaço na escadaria’’, Zilda comenta, feliz. 

Um dos eventos feitos para campanha de amamentação, na Igreja da Penha, com cerca de 1.500 pessoas. Foto: Arquivo pessoal

É por essas e outras que neste momento, as clínicas da famílias e unidades de saúde de toda região voltam a concentrar esforços na busca por aumento da doação de leite materno. Para doar, basta acessar seu agente de saúde direto, ou mesmo ir até o posto mais próximo. E se tiver frascos de vidro, também é possível doar nas unidades de saúde da Maré. Nele, também há espaço para recebimento do frasco de vidro. 

Assim, a cena inicial do texto poderá se repetir. A família que, reunida revendo fotos, lembrará o quão foi necessário o leite materno e a doação. 

Compartilhar notícia:

Inscreva-se

Mais notícias
Related

Sementes de Marielle; confira segunda parte da entrevista com Mãe da vereadora

Nessa segunda parte da entrevista, Marinete fala sobre as sementes deixadas por Marielle, do protagonismo de mulheres negras em espaços de poder e a partir do contexto do assassinato da vereadora, como acreditar em justiça.

‘Não há uma política de reparação’, diz Mãe de Marielle sobre vítimas do estado

Além de criticar o Estado e o Judiciário, que, em diversas instâncias, colaboraram pela impunidade do crime, Marinete aproveitou para reforçar o sonho que a família tem: inaugurar, via Instituto, o Centro de Memória e Ancestralidade