A pluralidade das favelas em um dicionário

Moradores de favelas e periferias, além de pesquisadores podem colaborar com conteúdos para o dicionário - Foto: Douglas Lopes

Plataforma colaborativa produz conhecimento sobre favelas e periferias

Maré de Notícias #115 – agosto de 2020

Jéssica Pires

O Dicionário de Favelas Marielle Franco é uma iniciativa que surgiu em 2019, para promover e estimular a produção do conhecimento coletivo sobre periferias e favelas. Em pouco mais de um ano, a plataforma digital já acumula mais de 500 “verbetes” produzidos pela equipe do dicionário, em colaboração com coletivos e organizações e por pessoas que, de forma espontânea, podem acessar diretamente o portal. Um dos objetivos da ação é favorecer a preservação da memória das favelas e moradores.

Os verbetes, como são chamadas as inserções de textos, vídeos e fotos, podem ser cadastrados por qualquer pessoa na plataforma. A expectativa da equipe do dicionário era de atingir 150 verbetes em um ano, mas o número já chegou a 562.

Atualmente, a equipe é composta por 12 participantes, incluindo o pessoal de tecnologia. São cinco pesquisadores responsáveis pela produção, que contam com a colaboração voluntária de coletivos, organizações, pesquisadores e moradores de favelas para a produção de todo o conteúdo disponível.

Democratizar a produção de conteúdos sobre favelas

A proposta do dicionário é que pesquisadores e moradores de todos os territórios possam produzir e disponibilizar este conteúdo em um mesmo ambiente, para que não exista uma hierarquização do material. A coordenadora geral do Dicionário de Favelas Marielle Franco, Sonia Fleury, comenta: “A ideia é de democratizar, promover a construção de cidadania, dar espaço aos sujeitos políticos que se constituem na favela para expressar seus pontos de vista e disputar narrativas sobre suas próprias vidas.”  

 A narrativa sobre favela construída pelos veículos hegemônicos e tradicionais de mídia não contemplam a favela. Portanto, elas precisam ser disputadas”, afirma a jornalista Daiene Mendes. A mídia que informa e participa da formação de opinião dos brasileiros é administrada por pessoas de classes sociais e vivências distantes da realidade das favelas. Dessa forma, estes territórios são comumente representados por estereótipos negativos. A dinâmica mudaria, se as pessoas que vivenciam o cotidiano das favelas tivessem espaço nesses veículos de produção de informação.

“A importância e a relevância do Wikifavela (como o dicionário também é chamado) é contar sobre uma favela que não é mostrada na mídia tradicional. Mostrar a outra favela que existe para além da diferença”, complementa Gabriel Nunes, pesquisador do Dicionário de Favelas.

Como uma das apoiadoras do dicionário, Marielle Franco possui um verbete de sua autoria – Foto: Elisângela Leite

Pluralidade vista no conteúdo

 A diversidade vista nos territórios de favelas também é percebida no conteúdo disponível no dicionário. Os temas são variados: habitação, saúde, mobilidade, presença do Estado e o mercado nas favelas; a maneira com que a favela se socializa e expressa a Cultura. Debates sobre gênero e sexualidade também têm crescido, informou a equipe do projeto.

A diversidade de pessoas que produzem o conteúdo também possibilita que os temas sejam desenvolvidos de pontos de vista diferentes: “Muitas vezes, a história da mesma favela é contada de formas diferentes por moradores variados e  pesquisadores que atuaram nessas localidades, por exemplo”, diz Palloma Menezes, coordenadora de produção de verbetes do Dicionário.

Durante a pandemia

  Durante a pandemia, surgiu a necessidade de documentar também as ações que acontecem nas favelas do País. Apesar de um foco maior ainda ser os coletivos e organizações do Rio de Janeiro, estão mapeados e reunidos aqueles que promovem alguma iniciativa de contenção do vírus ou de solidariedade em alguns pontos do Brasil. Prestação de contas e notícias das mídias comunitárias também estão disponíveis no site.

Acesse e colabore com o Wikifavela:

https://wikifavelas.com.br/

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