Pelo simples direito de ser pai

Gilmara Cunha, do Grupo Conexão G, lembra que ainda hoje outras pessoas desempenham o papel de pai além do homem - Foto: Elisângela Leite

Em pleno 2020, o preconceito ainda é um obstáculo a ser superado

Hélio Euclides

Neste ano, o Dia dos Pais não chamou atenção pelos preços dos presentes, a ida às lojas nos últimos momentos ou por ser mais uma data em que o distanciamento social deve ser respeitado por conta da pandemia. O que causou comoção foi o preconceito. Ao organizar uma campanha publicitária para a festividade paterna, a Natura reuniu influenciadores digitais, como Rafael Zulu, Babu Santana, Henrique Fogaça, Fernando Ferraz, Rodrigo Capita, Thammy Miranda, entre outros, para realizarem posts em suas redes sociais. O único nome questionado pelos internautas foi o de Thammy, por não se sentirem representados por ele como pai, por ser um homem trans. Esse se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais na última semana, vésperas da festividade.

A empresa apostou em nomes para potencializar sua campanha de Dia dos Pais deste ano com um time de influenciadores que está divulgando a #MeuPaiPresente nas redes sociais. O problema foi que figuras como o pastor Silas Malafaia e o deputado federal Eduardo Bolsonaro disseram que Thammy Miranda não poderia ser pai do pequeno Bento, de 6 meses, pelo fato de ele ser um homem trans. Influencers conservadores convocaram seus seguidores a não comprarem mais produtos da Natura, responsável pela ação. Com uma atitude de ódio, Thammy sofreu incontáveis ataques transfóbicos após a publicação. 

Vídeo da campanha de Dia dos Pais da Natura #MeuPaiPresente

Até o momento, a polêmica gerada em torno de um pai ao falar do amor pelo seu filho mostrou que o discurso de ódio persiste e que a defesa da liberdade e igualdade entre as pessoas, independente de suas orientações sexuais e de gênero, precisa sair vitoriosa. Thammy comentou em uma rede social que nunca teve a pretensão de ser representante de todos os pais e que não esperava essas atitudes de preconceito. “Eu não fui contratado sozinho. Quem não se sentir representado pela minha pessoa, pode procurar outra representação. Eu represento um nicho, que deseja liberdade e respeito às diferenças. Um grupo de pessoas que não precisa ouvir um monte de besteira. Percebo uma falta de respeito, não só comigo, mas agressões a todas as pessoas que represento nesta ação. A Natura busca com a campanha o respeito e a representatividade”, comenta.

O influenciador fala sobre o papel do pai. “Uma pena que o ser humano ainda precise passar por mais catástrofes para evoluir. Não sou melhor ou pior, só sou um pai atencioso que abraça, educa, protege, amoroso, carinhoso e que dá a vida pelo seu filho. Algo que todos deveriam ser, um pai presente que faz a diferença”, expõe. Thammy cita que todos deveriam estar discutindo por que no Brasil são 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo o Conselho Nacional de Justiça, com base no Censo Escolar, divulgado em 2013.

Direito é direito está na constituição

Para Gilmara Cunha, diretora executiva do Grupo Conexão G, moradora da Nova Holanda, mulher trans, negra e favelada, a sociedade precisa entender o que é ser pai. “Não é algo que passa pela genitália, e sim pela referência e identificação. Existe vários casais LGBTQIA+, que fazem o papel de mãe e pai. Podemos também identificar que uma avó ocupa esse papel de mãe e pai em diversos momentos”, diz. Para ela, esses comentários são de puro preconceito, pois esquecem que ser diferente não é ser melhor nem pior do que ninguém. “Quando o diferente não é aceito, aí surgem os problemas. Muita gente que tem o modelo de vida diferente do comum é marginalizada e sofre com o isolamento e a discriminação. A nossa sociedade é diversa e precisa compreender que não seguimos as padronizações da heterossexualidade”, conclui.

Enquanto o número de mortes devido à Covid-19 só cresce, com proximidade aos 100 mil óbitos, políticos e líderes religiosos perdem tempo com comentários que incentivam ataques transfóbicos. Luiz Costa, professor, pai de dois filhos, membro do Especiais da Maré e da instituição Espaço Linha de Conversa, no Morro do Timbau, acredita que é o momento que a sociedade necessita de expressão reflexiva. “Agosto continua sendo o melhor mês para tocar o homem amoroso possível a cada um de nós. O problema é que o machismo deixa um rastro de medo quase sempre travestido de negação do outro”, diz.

“Na minha juventude conheci um casal de homens nordestinos gays que cuidavam de duas irmãs de um deles. Elas hoje são mulheres muito bem formadas, bem posicionadas socialmente e com uma família linda. Não faltou nada para que elas fossem o que são hoje. Ser homem e/ou pai amoroso independe da vivência sexual”, fala. Para o professor, todos têm o direito à família. “Thammy falou também sobre uma quantidade enorme de pessoas que sequer tem nome do pai na certidão de nascimento. Eu me enquadro nesta categoria”, finaliza.

O avanço e a sedimentação do fundamentalismo religioso que quer impor seus modos de pensar sobre todos os corpos existentes, incitando punição para os divergentes já traz resultados ruins. “Essa é uma das razões do Brasil ser o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo. Nesse sentido, é esperado que os principais adversários dessa campanha da Natura sejam pessoas ligadas a esses segmentos religiosos”, expõe Dayana Gusmão, assistente social da Redes da Maré, moradora do Conjunto Bento Ribeiro Dantas e membro do Coletivo Resistência Lésbica da Maré.

“Particularmente me assusta perceber o quanto algumas pessoas se sentem afetadas quando outro grupo de pessoas alcança direitos que elas sempre tiveram. No caso dos homens trans o direito paternal é conquista. Então ouso dizer que todo esse repúdio não tem bases racionais. É apenas ódio mesmo. As pessoas negras e pessoas com deficiência passam por preconceitos muito parecidos e muitas vezes são vítimas do mesmo ódio”, comenta. Para Dayana, infelizmente o Brasil é um país racista, machista e lgbtfóbico, com uma amarga realidade que se lança sobre todos os grupos minoritários e divergentes como a ponta da lança da morte.

Uma ação que visa a igualdade

Nos últimos anos tem se tornado comum que pessoas boicotem marcas por elas trazerem diversidade às suas campanhas publicitárias. Em 2015, o Boticário realizou campanha do Dia dos Namorados onde trazia um casal LGBTQIA+ trocando presentes e carinhos ao som de “Toda forma de amor” de Lulu Santos, reforçando a bandeira da diversidade. Na época, o vídeo causou revolta a milhares de consumidores, que organizaram mutirões  e correntes nas redes sociais para dar dislike (não gostei) no vídeo no YouTube. 

O Maré de Notícias entrou em contato com Natura, que enviou uma nota de repúdio às declarações ofensivas:

“A Natura acredita na diversidade. Esse valor está expresso em nossas crenças há mais de vinte anos, estando sempre presente em nossas campanhas publicitárias e projetos patrocinados. A campanha de Dia dos Pais mergulha na rotina desafiadora que todos estão vivendo durante a quarentena e mostra como esse intenso convívio pode fortalecer a relação entre pais e filhos, mostrando que a presença paterna é o maior presente. A Natura celebra todas as maneiras de ser homem, livre de estereótipos e preconceitos, e acredita que essa masculinidade, quando encontra a paternidade, transforma relações.”

Um Brasil sem pai

O direito à convivência familiar é reconhecido constitucionalmente e assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, assim como a criança ou o adolescente tem o direito de ser criado pela sua própria família, de um modo geral e, excepcionalmente, por família substituta. Contudo, dados do Instituto Data Popular, divulgados pela Agência Brasil em 2015, apontam que o país conta com 67 milhões de mães, das quais 31% são mães solos. Isso significa que pouco mais de 20 milhões cuidam sozinhas de seus filhos ou com ajuda de algum familiar. No Censo Populacional da Maré 2013, os resultados indicam uma importante participação feminina na responsabilidade dos domicílios. Na condição de única ou principal responsável, estão 30,3% das mulheres maiores de 15 anos. Além destas, 19,1% exercem a responsabilidade de forma compartilhada nos demais domicílios, mas em igualdade de condições com as outras pessoas responsáveis. Portanto, praticamente a metade das mulheres com 15 anos ou mais de idade é responsável por domicílios na Maré. Ou seja, uma boa parte das mulheres mareenses e brasileiras já desempenha o papel econômico e afetivo que deveria ser feito por um pai, homem, hétero. Infelizmente, poucos se preocupam com esse quadro.

O grupo de samba Nova Cor gravou em 1994 a música Ser Pai Ser Mãe, de Chiquinho Fabiano, Cizinho e Paulinho Carioca, que traz em seus versos a responsabilidade de ser cuidar de um filho: “Ser pai não é pra qualquer mané. Ser mãe não é pra qualquer mulher. Tem gente que sabe ser pai e ser mãe, dá olé! Ser mãe não é só dar a luz. Ser pai não é só pôr no mundo…”

Que o Brasil seja um país com menos preconceito e mais responsabilidade. 

Feliz Dia dos Pais!

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