Os riscos de uma reabertura precoce

Foto © Douglas Lopes

Por pressão econômica, cidade diminui isolamento e começa reabertura enquanto pesquisadores avaliam a medida como arriscada

Hélio Euclides

O governador do estado, Wilson Witzel, publicou decreto no dia 5 de junho, liberando a reabertura de shoppings, bares, restaurantes, igrejas, estádios e pontos turísticos. Antes, a Prefeitura do Rio já tinha iniciado, no dia 2 de junho, as seis fases de flexibilização das medidas de isolamento social, com a reabertura gradual dos serviços não essenciais. Na capital, a reabertura gradual já entrou na segunda fase, permitindo o funcionamento de shoppings, além de alguns tipos de comércio de rua. A terceira etapa está prevista já para o início de julho, com a reabertura de lanchonetes, bares, restaurantes, academias e salões de beleza. Com a flexibilização, ficou visível que o número de pessoas circulando pelas ruas aumentou: do dia 13 ao dia 27 de junho – duas semanas -, o índice de de isolamento social caiu de 71% para 39%.

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) divulgou um documento em que se posiciona contrária à flexibilização. Em relatório enviado ao Ministério Público do Estado, a UERJ recomendou a revogação do decreto que autoriza a suspensão das medidas restritivas. A organização humanitária Médicos Sem Fronteira também alerta para o risco de se fazer o relaxamento precoce, elevando o risco de espalhar o vírus. Segundo a organização, a pandemia de COVID-19 no Brasil se moveu das camadas mais ricas para as mais pobres da população, como as favelas. Relaxar o isolamento não significa que o comércio conquistou clientes. 

O assunto fica mais evidente em conversa com alguns comerciantes: “A venda caiu no mínimo 10%. O povo não tem dinheiro. A flexibilização não influenciou em nada, no final do mês a tendência é piorar”, comenta Valmir Martins, comerciante de um petshop na Vila dos Pinheiros. “O comércio está uma bomba, sem movimento nenhum de clientes. A minha esperança é o fim do ano”, diz Ângela Oliveira, dona de um salão de beleza também na Vila dos Pinheiros. Os mercados, farmácias e casas de material de construção não sentiram tanto a pandemia. “Não fechei a loja e tive sempre clientes que precisam realizar reparos em casa”, conta Maria Aparecida, proprietária de casa de material de construção na Vila do João, um dos comércios que foram considerados como serviço essencial no período do isolamento.

A pandemia ainda não acabou

O grande debate sobre o relaxamento se dá em torno da economia e saúde. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 3 milhões de pessoas perderam o trabalho entre os meses de março e abril. Especialistas em economia projetam que os 12 milhões de desempregados no País cheguem a quase 20 milhões até o fim do segundo trimestre de 2020, justificando a necessidade da abertura do comércio. Em contrapartida, esta reabertura, na opinião de especialistas da área de saúde, pode significar um aumento significativo de pessoas infectadas. 

A justificativa dada pela Prefeitura para a reabertura dos serviços foi a redução dos índices de ocupação de UTIs e a diminuição dos óbitos da cidade, comparando os números com o mesmo período do ano passado. Entretanto, o Boletim De Olho no Corona! do dia 02 de julho analisa justamente o avanço dos novos casos tanto na cidade do Rio quanto na Maré, usando como base os dados do Painel Rio Covid-19, da Prefeitura. Os pesquisadores fizeram uma análise começando em 14 de março, observando a quantidade de novos casos no decorrer de cada semana. 

Assim, segundo a análise feita pelo boletim, a cidade do Rio teria chegado ao seu pico entre 19 a 25 de maio, com 9.023 novos casos em uma semana, que vieram diminuindo semanas seguintes. Entretanto, na terceira semana de flexibilização ocorreu um aumento significativo na cidade, chegando a 8.045 novos casos entre os dias 16 e 22 de junho. Após esses dias, o número de novos casos diminuiu. Já a Maré teve o pico na semana seguinte ao pico da cidade, entre os dias 26 de maio e 01 de junho, quando apresentou 69 novos casos. Nos 15 dias seguintes os números foram diminuindo, mas nas duas últimas semanas, já durante a flexibilização, os números de novos casos voltaram a aumentar.

A cidade do Rio soma hoje, dia 02 de julho, mais 58 mil pessoas que foram contaminadas e 6.689 que morreram por complicações do novo coronavírus. No Painel Rio Covid-19, da Prefeitura, são 357 casos confirmados na Maré e 80 mortes. Já o nono boletim De Olho no Corona! aponta para 1.053 casos, considerando os confirmados e os suspeitos, e 110 óbitos.

Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, acredita que para a abertura é preciso segurança, um cuidado rígido, com apenas duas pessoas por loja, evitar colocar a mão no balcão, pois isso pode ser um rápido contágio. “No País, há lugares em que ocorreu o relaxamento do isolamento e depois o fechamento de tudo. Não foi a segunda onda da doença e sim a continuação da primeira”, expõe. O período do inverno pode representar um risco a mais, com surtos de gripes, viroses, influenzas, vírus e outros coronavírus. Para Margareth, relaxar o isolamento na cidade foi um ato apressado. “A pressão do comércio foi grande. Além disso, o isolamento da cidade foi meia-boca, com muitas pessoas tendo de trabalhar. Para piorar, se perdeu o momento adequado em abril de um lockdown”, observa. Ela alerta que a ocasião não é de comemoração. “Não é o período de churrasco, baile funk e tampouco festinha de aniversário. É o momento de chorar os mortos e de se proteger para evitar o contágio”, conclui.

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