Forma pioneira de distribuição de jornal completa um ano

Após cinco meses de pausa, equipe de distribuição se reencontra para conversar antes de entregar os jornais pelas 16 favelas da Maré - Foto: Douglas Lopes

Iniciativa coletiva do Maré de Notícias com Espaço Normal permite que todos os moradores recebam o veículo de porta em porta

Daniele Moura

Desde a primeira edição do jornal Maré de Notícias até agosto do ano passado a distribuição dos 50 mil exemplares era feita em conjunto com as Associações de Moradores da Maré. Cada associação recebia um lote determinado de fardos do jornal e era responsável pela entrega nas casas dos moradores de cada uma das 16 favelas da Maré. A parceria deu certo, mas tinha algo em que era fundamental avançar: a interação entre a redação e os moradores. Os editores do veículo tinham pouco retorno da população sobre o conteúdo do jornal e o interesse dos leitores. Como encarar esse desafio?

Em maio de 2018 nasce, por meio da Redes da Maré, o primeiro espaço de referência no atendimento da população de rua e usuária de drogas em um território de favela. O objetivo do Espaço Normal, nome dado em homenagem a um usuário de crack morto em 2017, é pautar uma agenda positiva sobre práticas de redução de danos para pessoas que usam crack, álcool e outras drogas. Tudo isso a partir da convivência e da articulação de uma ampla rede de cuidado no território, estimulando a criação de vínculos, diálogos e narrativas alternativas para denunciar os efeitos da guerra às drogas. Um dos projetos do Espaço Normal é o Entre Bicos, uma forma de oferecer geração de renda com trabalhos pontuais e que ajuda a reinserção social da população de rua e usuários e ex-usuários de crack e outras drogas.

Um ano e três meses depois desta inauguração, surge a ideia da parceria com o Espaço Normal para a distribuição do jornal impresso. Ora, como não levar em conta o conhecimento desta população que viveu e vive na rua sobre o território? Afinal, existe objetivo maior de um jornal comunitário do que tornar pública as demandas da comunidade? Mas como saber em detalhes essas demandas? Só gastando sola de sapato para percorrer e dialogar com os 140 mil moradores das 16 favelas que compõem a Maré. E como fazer isso? Com eles! Assim, há um ano começou um modelo pioneiro de distribuição de jornal impresso. 

Com o Entre Bicos, 4 pessoas atendidas pelo Espaço Normal são contratadas durante seis dias no mês. Por dia, durante 5 horas, eles têm a função de percorrer ruas, becos e vielas – que por muitas vezes foram usadas como abrigo – para entregar o jornal. Mas eles não estão só.

Os distribuidores se misturam entre os quatro atendidos pelo Espaço Normal, e mais 8 moradores, incluindo jovens de um outro projeto da Redes da Maré chamado de CRIA, articulação de jovens das 16 favelas para a luta de direitos da juventude no território. O processo da distribuição começa com a leitura do jornal para que cada distribuidor saiba na ponta da língua o conteúdo que está entregando aos moradores. Editores e repórteres do jornal fazem parte da leitura das 16 páginas e discutem com os distribuidores o conteúdo ali retratado. Após a leitura, é hora de botar o pé na pista. Dois grupos são feitos e cada um deles tem uma coordenação. Cada grupo é dividido em trio ou em dupla e ali começa o grande diferencial deste trabalho. A cada casa entregue, o distribuidor, já identificado com camisa do Maré de Notícias, tenta conversar para apresentar o conteúdo do jornal. A cada 50 casas, um morador responde e o distribuidor anota, grava e até fotografa as demandas ouvidas.

Legenda: Foto da equipe em dezembro de 2019 para edição #108 do jornal, que pode ser lida neste link – Foto: Arthur Viana

Desde que esse processo começou há um ano, o jornal ganhou novo conteúdo, nova forma de abordar os problemas e ficou mais próximo de cada mareense. Muitas matérias – incluindo capas – foram sugeridas pelos moradores durante a distribuição. Isso sem contar com a força da inserção social desta população invisibilizada que, a partir desse processo, ganha casa, celular e respeito. Não foram poucos os casos de distribuidores que viviam na rua e que a partir do trabalho da distribuição, conseguiram dividir um aluguel, comprar um celular usado e voltar a ter mínimas condições de cidadania. 

Valdemir Cunha é catador de latinhas e fazendo esse trabalho não dorme mais na rua e se transformou em defensor do veículo, que hoje é a maior oferta de informação para os moradores da Maré. “Se eu vejo alguém pegando o jornal do vizinho para usar para embrulhar coisas e não ler vou logo falando que está errado, que não pode tirar a oportunidade do vizinho de saber das coisas da Maré. Hoje informação não tem preço”, diz o ex-morador de rua. Lucas Brandão, também atendido pelo Espaço Normal, é outro que critica, sugere e defende pautas e fotos do Maré de Notícias. “Essa foto do esgoto a céu aberto na capa ficou tão impactante porque mostra como o governo esquece das favelas”, diz o distribuidor, que faz parte desde o início da parceria.

Ao fim de cada distribuição, há outro encontro para que se possa reunir todas as demandas da população, e acertar alguns “ponteiros” do processo de distribuição. Um encontro de muitas vozes, muito acolhimento, aprendizado e força.

Devido à pandemia, a distribuição foi suspensa por cinco meses, o que causou muita preocupação. Mesmo sabendo que a suspensão aconteceu pela preservação da vida de moradores e distribuidores, havia uma tensão sobre como ficaria a questão alimentar e psicológica destas sensíveis pessoas. Com doações financeiras para a campanha Maré Diz Não ao Coronavírus, da Redes da Maré, quentinhas e cestas básicas foram entregues para os mais necessitados da equipe. Outras doações vieram diretamente para os distribuidores do Maré de Notícias, como o caso da Agência Lupa, que assegurou o pagamento do mês de março dos distribuidores.

No dia 08 de setembro foi retomada a distribuição do jornal impresso com os 12 distribuidores já conhecidos e mais dois novos membros. Não houve atraso ou falta e sobrou entusiasmo, como relata Lucas. “Ficamos quase seis meses parados e retomamos com a mesma vontade que na primeira edição que fizemos esse trabalho. Até os novos distribuidores que chegaram estavam enturmados. Formou uma corrente só”. Corrente que pode ser espalhada como modelo de redução de danos e de inserção social de uma população historicamente invisibilizada pela sociedade brasileira. Que venha a próxima edição!

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