Crônica de Carnaval: Salvaram meu Gato

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Crônica de Carnaval: Salvaram meu Gato

Por Vitor Félix, em 27/02/2022 ás 07h.

Iam cheios de gente e de fantasias os ônibus da Real. Dois insetos de metal gigantes e grávidos de gente pronta para nascer, festejando na pista da Intendente Magalhães. A maior parte dos componentes da agremiação carnavalesca Gato de Bonsucesso ia dentro do veículo equilibrando fantasias, crianças e copos de cerveja meio cheios pela avenida Brasil.

Moradores de várias partes do Complexo da Maré se organizaram naquele sábado de carnaval, tinham intenção de lançarem sua folia na rua como uma serpentina interminável. Em um ônibus, Mestre Guiga da bateria cuidava para que os músicos não chegassem embriagados no desfile. A ala das crianças ia espremida no meio da condução, entre os instrumentos, e a ala das baianas amontoou os vestidos rodados no fundão do ônibus. Tifanny, a travesti que era uma das musas do Gato, saiu fantasiada da favela, porque seu show começava já em casa. Ela conversava com algumas meninas que perguntavam sobre sua fantasia, que era cheia de plumas e pedrarias.

No outro ônibus, a bagunça corria sem limites. Enquanto Dona Nininha tirava um cochilo, suas amigas bebiam, enquanto outras mulheres mais jovens viajavam com metade do corpo de fora, ensaiando aos berros o samba do ano. A cerveja deu uma pausa porque o ritmo do samba não permitia nem uma golada. Juliana retocava a maquiagem em meio às chacoalhadas do Real; a Porta-bandeira da agremiação já não se sentia nervosa depois de três anos defendendo a bandeira azul-e-branco do felino da Leopoldina. 

A buraqueira da famosa avenida suburbana não tirava dos componentes a alegria de viver aquela noite. Batuques, conversas e discussões sobre os próximos jogos do Flamengo e do Vasco povoavam as lotações. Cada folião distraía sua ansiedade como conseguia. Mal esperavam chegar ao bairro do Campinho onde aconteceria o desfile. Entretanto, no fim da descida do viaduto da Lobo Júnior, na Penha, o motorista do segundo ônibus deslizou na direção e acabou batendo de leve na mureta de contenção.

De repente, não mais que de repente, a paz com cheiro de cerveja se tornou um caos purpurinado. Homens desciam do ônibus da frente e vinham em desespero saber se havia feridos no ônibus de trás. Primeiro retiraram as poucas crianças que não viajaram no primeiro carro, depois saíram os idosos. Dona Nininha só percebeu o acidente porque contaram. Saiu arrastando pelos pulsos as duas amigas, Marta e Lia; esta última desceu carregando um isopor à tira colo com as cervejas que abasteceriam o trio de idosas na folia. 

Os outros componentes foram se acalmando quando perceberam que o acidente não passou de um susto e ninguém se feriu. Cataram as fantasias, adereços, bebidas e todo restante e partiram para se espremerem no único ônibus que restara. Na descida dos degraus de alumínio, Juliana virou o pé por um instante, mas foi socorrida pelo amigo Mestre-sala e sem se machucar, ela seguiu o fluxo de pessoas. Depois de montarem um quebra-cabeças de foliões, sem qualquer espaço para respirarem, o ônibus seguiu cheio de calor humano para a Intendente.

O caminho entre Maré e Campinho durou mais que o necessário. Na chegada, muitos botavam para fora o que seguraram a viajem inteira.

– Piloto, dessa vez foi quase hein! Teu amigo é maior vacilão. – brincou um dos músicos com o motorista que conseguiu chegar ileso.

– Desce logo desse ônibus, Marta! Não vou chamar homem pra te ajudar, tu já tá no grau! – Gargalhava dona Nininha para as companheiras.

– Toma aí, Nininha, vamos brindar. – Lia oferecia uma latinha vermelha de cerveja para a velha amiga.

Aos poucos, os foliões transformavam a ansiedade em alegria e se preparavam da melhor forma para o desfile. Os responsáveis foram organizando os adereços da escola em torno do único carro alegórico que estava na concentração dos blocos que sairiam naquela noite. Durante a concentração, a cerveja, o cigarro e a euforia foram distraindo os espectadores, que ficavam cada vez mais inebriados pelo álcool. 

O desfile estava preste a entrar na concentração. O Gato seria uma das próximas escolas a entrar na avenida. Regina, chefe da harmonia, ajudava as baianas a entrarem nas enormes fantasias rodadas, quando o Mestre-sala chegou para lhe dizer: 

– Regina, deu merda! Juliana não vai mais desfilar. 

A líder dos fantasiados, que mantinha o foco em ajustar tudo nos últimos momentos, entrou em desespero ao ver que o pé virado de sua Porta-bandeira inchou e parecia ter o triplo do tamanho. Seria impossível pisar na avenida com aquele pé.

Sem pensar muito, Regina decretou para desespero geral: 

– Gente! Alguém precisa ser a Porta-bandeira no lugar dela! O Gato não pode desfilar sem esse componente, senão a gente vai descer mais uma série.

Uma busca desesperada teve início para salvar o Gato do pesadelo do rebaixamento. Juliana teve ajuda de Charles para tirar a parte de cima da fantasia. O amigo deu apoio a ela, uma confiança que existia há três anos, tempo em que carregavam o pendão da favela da Maré. Juliana estava muito triste de ser obrigada a assistir ao desfile do Gato de fora naquele ano, mas a vida é assim, pensou.

Logo Regina formou uma pequena seleção de última hora. Quatro mulheres com aspectos parecidos, altura mediana, nem muito magras, nem muito gordas, como era o físico da Porta-bandeira oficial. Nas três primeiras, a parte de cima da fantasia não conseguiu fechar. Com a última candidata, o zíper foi até em cima, mas depois de tantas latinhas de cerveja, o aperto e o calor da noite fizeram a mulher vomitar toda a cevada que havia começado a beber na manhã daquele sábado de carnaval.

Nada feito. A situação indicava que o Gato sairia sem uma das componentes mais importantes. A bandeira é a alma da escola. Regina sabia disso e não desistiu de achar a derradeira foliã.

Na arquibancada, a diretora da Harmonia avistou as três idosas rindo e se divertindo com as escolas e fantasias que passavam diante delas. Regina, então, rapidamente explicou toda a situação e fez a proposta às mulheres. Marta desistiu na hora, porque era a mais bêbada e com menos saúde nos ossos de todo o grupo. Dona Lia e Dona Nininha, aceitaram o convite. Foram caminhando no ritmo de seu próprio passo até a concentração. Ao ver a fantasia, dona Lia disse:

– Isso não vai caber em mim mesmo! Já foi tempo da minha época de sereia do carnaval, minha filha! – as idosas caíram na gargalhada, enquanto Regina mantinha a expressão preocupada.

Como esperado, a fantasia não coube na mulher. Restou à Dona Nininha a esperança. Ela entregou o copo de cerveja para a amiga, tirou a blusa revelando seu sutiã e vestiu a parte de cima do vestido, que fechou com tranquilidade. O desafio era a pesada saia. Naquela altura, depois de se encher de cerveja, o peso da roupa não era lá dos maiores problemas. Finalmente, estava pronta para o desfile. Ela agarrou o cabo da bandeira, prendeu-o na saia, alisou o Gato bordado no centro do tecido com fio brilhoso cor de prata. 

A escola se organizou em frente à entrada da avenida Intendente Magalhães e ali, diante do público, Dona Nininha recordou os diversos desfiles que fez ao longo da vida como passista. Marcou seu legado no Cacique de Ramos, como índia suburbana; na Mangueira, onde conheceu os lendários poetas do morro verde-e-rosa, dançou com os baluartes do samba; lembrou ainda do próprio Mataram Meu Gato, que ela mesma ajudara a fundar vários anos antes, no chão onde viu se formarem várias passistas como ela. 

O Gato desfilou e Dona Nininha estava feliz, porque ela mesma não se imaginava como componente do Gato outra vez. Desde sua aposentadoria dos saltos altos e chão das quadras, não desfilara como Baiana, nem na Velha guarda; sua vocação era ser passista. E naquele sábado de carnaval, depois de tantos outros já vividos, descobriu-se Porta-bandeira, para a salvação da agremiação azul-e-branca e do povo da Maré.

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