Curso de primeiros socorros já atingiu 2.000 moradores da Maré

Curso de primeiros socorros já atingiu 2.000 moradores da Maré

Morador pode cursar aulas de primeiros socorros, cuidador de idosos, baby-sitter, maqueiro e atendimento pré-hospitalar sem sair da favela

Por Hélio Euclides, em 23/09/2021 às 07h. Editado por Edu Carvalho

Criado em 2012, o Núcleo de Socorristas da Maré (Nusomar) é uma organização humanitária de apoio em primeiros socorros. Seu objetivo é desenvolver uma rede comunitária de assistência capaz de prestar o primeiro atendimento de casos simples ou em situação de emergência, facilitando o acesso ao serviço especializado. O grupo é composto por moradores voluntários da Maré, que já foram alunos entre os 2.000 formados como socorristas.

Quando um aluno é formado, pode dar suporte em primeiros socorros, o que alivia o estresse da vítima e da família, e pode ser a diferença que salva uma vida. Quando acontece uma emergência muitas vezes, parentes, vizinhos e amigos de vítimas não sabem o que fazer. Além disso, o socorro especializado costuma encontrar dificuldades para chegar à favela. Os alunos são treinados para prestar apoio na estabilização do estado de saúde de vítimas de emergências e, se for o necessário, facilitar a chegada da ambulância para realizar a sua remoção para uma unidade de saúde.

Foto: Arquivo pessoal

Cada segundo é importante para garantir que a vítima consiga ser encaminhada ao serviço hospitalar, estabilizar o seu quadro até uma recuperação. No curso são ensinadas noções de primeiros socorros em parada cardíaca, parada respiratória, engasgos, queimaduras, fraturas e cortes. O Nusomar nasceu após a Cruz Vermelha formar a primeira turma de socorristas na Maré. Os recém-formados se uniram e criaram a instituição que tem como lema: “Mãos Unidas Salvando Vidas”. Além do curso o grupo participa também de ações sociais e realiza palestras sobre primeiros socorros e atitudes humanitárias.

Um curso para todos

De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, em 2015 foram registradas 2.441 mortes de crianças de zero a 14 anos, no Brasil, devido a acidentes domésticos. No mesmo ano, 1.440 crianças e adolescentes até 14 anos morreram por conta de acidentes de trânsito. Segundo o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde, em 2015 foram 100.559 crianças internadas, na faixa etária de 0 a 14 anos, devido à causas acidentais.

Para reverter esses números, Cleber Alves, instrutor chefe e responsável pelo projeto, deseja formar uma rede ainda maior de socorristas. “Muitos alunos entram sem expectativa de vida e alguns a pedido da mãe. Durante as aulas abrem a visão. Alguns desses alunos indicamos para se aperfeiçoar em empresas, creches e hospitais. Em alguns casos até para um emprego”, conta. Todos que participam do curso com carga horária de 20 horas de aula, divididos por quatro dias, recebem certificado de socorristas com a chancela da Cruz Vermelha Brasileira e Internacional.

Em alguns casos para ser vigilante, motorista, porteiro e atuar em creche é necessário ter o curso de primeiros socorros. Esse é o motivo da grande procura pelo curso que antes da pandemia chegava a ter 80 alunos por turma e agora já é realizado com a metade da capacidade. Outra causa é o valor cobrado, de apenas R$ 50, para os custos com o certificado. Segundo Cleber, o mesmo curso fora na Maré chega até a importância de R$ 280. Ele completa que durante a pandemia muitos alunos não tinham esse valor e frequentaram as aulas da mesma forma. Para contemplar a todos escritos, as aulas acontecem à tarde e à noite, chegando a formar quatro turmas por mês.

Foto: arquivo pessoal

A partir de março de 2019, todas as escolas do Brasil deveriam ter professores e colaboradores capacitados em primeiros socorros. A obrigatoriedade foi estabelecida, em outubro de 2018, após a aprovação da 13.722, chamada Lei Lucas, que tornou obrigatório o treinamento em primeiros socorros nos estabelecimentos de ensino básico e recreação infantil. “Meu foco é que cada creche ou escola da Maré tenha um morador como socorrista e brigadista. Isso vai contribuir ainda mais para que moradores possam ingressar ou voltar ao mercado de trabalho”, avalia Cleber.

Mesmo sem patrocínio, a Nusomar ampliou suas atividades, com abertura de mais cursos. Agora o grupo oferece os cursos de cuidador de idosos, baby-sitter, maqueiro e atendimento pré-hospitalar. Hoje são dez instrutores, que já foram alunos. Alguns já atuando no mercado de trabalho, como bombeiro civil e guardião de piscina. “Capacitamos moradores da Maré e de outras áreas, como Complexo do Alemão, Mandela, Acari e na Rocinha. Gostamos do que fazemos. A divulgação do nosso trabalho é por redes sociais, boca a boca e cartazes nas padarias e postes”, conclui.

O papel de um socorrista

São inúmeras histórias de ex-alunos que ajudaram moradores com os seus aprendizados. “Recentemente um recém-formado estava numa festa na Nova Maré e uma das crianças ficou engasgada com um pedaço de doce. Ninguém sabia o que fazer. Ele aplicou a manobra de heimlich, que obstruiu a garganta da criança”, lembra Cleber.

Alves relata dois casos de um ex-aluno, que é feirante na Rua Teixeira Ribeiro, no Parque Maré. “Certo dia ocorreu um atropelamento perto de sua barraca, ele se aproximou da vítima e fez uma avaliação primária e secundária, para avaliação se há fratura interna ou externa. Após constatar várias fraturas, imobilizou a vítima com ripa de caixotes até seguir para o hospital. Os médicos parabenizaram pela forma que foi feita a imobilização”, relembra. Em outro momento, no meio da feira, um cliente teve uma crise de epilepsia. O ex-aluno tirou a vítima da aglomeração e fez os procedimentos, até a chegada dos familiares.

Outro episódio de atropelamento ocorreu na Rua Principal, na Nova Holanda. Uma ex-aluna socorreu o condutor da moto, que tinha arranhões. Já a vítima do atropelamento tinha fratura no braço e perna. Ela o imobilizou com o material que tinha na rua e ainda estancou a hemorragia. Depois foi conduzido ao hospital. “Uma ocorrência emblemática aconteceu comigo. Eu estava em casa, quando os moradores me chamaram para socorrer uma vítima que foi atingida por um tiro. Eu estanquei a hemorragia e fiz um curativo. Depois a levei para o hospital”, expõe.

Inscrições abertas

O próximo curso a ser realizado será o de cuidador de idosos. As aulas acontecem no Centro Comunitário de Defesa da Cidadania, Rua Principal, s/nº, na Baixa do Sapateiro. Informações pelo Facebook: nusomar; e Instagram: @nusomar.

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Hélio Euclides

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