ENEM: entre o medo da covid-19 e o acesso à faculdade

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Autoridades de saúde e educação pressionam o Ministério da Educação para o adiamento do Exame.

Por Andressa Cabral Botelho e Thaís Cavalcante, em 15/01/2021 às 12h

Editado por Edu Carvalho

A sala de aula, compartilhada com outros alunos, tornou-se um cômodo da casa compartilhado com membros da família sem estrutura para assistir às aulas. A lousa virou a tela do computador, notebook ou celular e ao invés de ir até o pré-vestibular, era necessário ter internet para acessar a sala. Soa como uma sociedade avançada tecnologicamente, mas esses pontos deixaram ainda mais explícita a desigualdade social que existe no país e o quanto é difícil para algumas camadas sociais terem acesso – a estudos de qualidade, internet, espaço adequado, entre outros.

Diante desse cenário, em maio de 2020 surgiu a campanha #AdiaEnem, organizada inicialmente pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). A proposta visava pressionar o Ministério da Educação para que se tomassem medidas, como o cancelamento ou adiamento das provas, diante da falta de perspectiva para o fim da pandemia no país.

No período em que surgiu a campanha, o Brasil passava pelo seu pior momento da pandemia até então, com números de contágio e mortes altíssimos. Uma consulta pública aos estudantes foi feita à época, e a opção escolhida não foi acatada – maio de 2021. O Instituto Nacional Anísio Teixeira, o INEP, e o Ministério da Educação, o MEC, adiaram a prova de novembro para janeiro, acreditando-se que o país estaria em queda em número de casos. Enquanto isso, os números no final de 2020 e início de 2021 têm se assemelhado ao que se viu em maio do ano anterior, gerando preocupação com os possíveis riscos no pós-prova.

Renata Souza, deputada estadual do Rio de Janeiro e moradora da Nova Holanda, na Maré

Dos inscritos no exame, 5,7 milhões de pessoas optaram por fazer a prova impressa, enquanto outras 96 mil preferiram o formato virtual da avaliação. A expectativa no período em que foi decidido janeiro como a data da realização das provas é que a pandemia pudesse estar controlada no país, mas o que tem ocorrido é o oposto. Desde novembro percebeu-se uma nova subida nos números de casos e mortes, o que vem preocupando estudantes, organizações ligadas à educação e secretários estaduais de educação. Nesta última sexta-feira (15), o país chegou a 208.291 mortes e 8.394.253 casos

Deve-se prestar atenção, também, que com a nova subida dos números, há o aumento significativo do número de casos entre jovens saudáveis, que não são grupo de risco e maioria das pessoas que irão fazer as provas do Enem nos próximos dias 17 (amanhã) e 24 de janeiro. É importante lembrar também que apesar da covid-19 ser mais letal para idosos e pessoas com comorbidades, pessoas com menos de 60 anos são as que mais se infectam e precisam de hospitalização pela doença, segundo levantamentos das secretarias estaduais de saúde. Não apenas pelo risco iminente de infecção durante a prova, aqueles que optaram por fazer a prova presencialmente podem contaminar outras pessoas.

Laerte Breno, educador popular e morador da favela Salsa e Merengue, na Maré

Tentando equilibrar a vida e os estudos

Assim como o alerta global à saúde pública, é preciso considerar o contexto social em que será aplicado o ENEM ao seu público, majoritariamente com até 20 anos de idade. A Pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) em 2020, apresentou, em construção conjunta com jovens de todo o país, o cenário enfrentado por eles e também seus desafios. A maioria acessa a internet a partir de um celular e são dependentes financeiramente de terceiros – considerando também, sua pouca idade. Já aqueles que estão no mercado de trabalho também tiveram alteração no mesmo, seja na carga horária, afetados por demissão ou diminuição de salário. 

O levantamento também trouxe a realidade da família dos jovens: 60% indicaram ter feito a inscrição para receber o Auxílio Emergencial de R$ 600,00. Assim como os aspectos socioeconômicos impactaram diretamente essa população, outras áreas da vida foram afetadas, como as condições físicas e emocionais. Mais ansiedade foi sentida e a falta de prática de esportes e atividades de lazer. Uma realidade que é sentida mais intensamente por aqueles que precisaram se preocupar com o Enem. A dificuldade de organização durante os estudos e a de ter tranquilidade em casa foram grandes preocupações também.

Pablo Marcelino, roteirista, morador da Vila do João, na Maré.

Pré-vestibulares cariocas e favelados unidos

A partir da mobilização para que o exame tivesse suas datas alteradas, cerca de 40 Cursos Pré-Vestibulares Populares do Rio de Janeiro assinaram uma nota a favor do cancelamento do ENEM ainda em 2020. O grupo, que também possui representantes educacionais da Maré e de favelas e bairros do entorno, alega que devido às diferentes condições de seus estudantes, a aprendizagem remota não foi possível. Reforçam, ainda, o alto número de casos de covid-19 no país, o impacto do fechamento das escolas e que a decisão dos estudantes não foi respeitada: “Os estudantes escolheram as datas de Maio e elas venceram a enquete criada pelo próprio MEC. O mesmo governo passou por cima desta escolha”.

“Enquanto governo do estado, eu peço que o governo federal e o ministro da Educação tenham a sensibilidade de adiar a prova para que a gente possa dar competitividade a tantos jovens do Brasil que não tiveram acesso a preparação necessária”, afirmou o governador em exercício Claudio Castro, durante live realizada nesta quinta-feira (14) junto ao secretário estadual de Educação, Comte Bittencourt. Durante a conversa, publicada no perfil do Facebook do governador do Rio de Janeiro, ambos defenderam o adiamento da prova por entenderem que a sua realização, neste momento, reforçaria a desigualdade. Também no dia 14, o desembargador federal do Tribunal Regional Federal da 3ª região (TRF3) negou recurso solicitado pela Defensoria Pública, optando por manter as provas para os dias 17 e 24 de janeiro. Até o fechamento desta reportagem, a aplicação das provas do ENEM tinha sido adiada no Amazonas, pela Prefeitura Municipal de Parintins, com possível remarcação para fevereiro de 2021.

Enquanto a luta de muitos educadores e instituições continua pelo adiamento, a organização de aulas gratuitas para a prova do próximo ano acontece. O Curso Pré-Vestibular da Redes da Maré abre as inscrições no dia 15/01 para moradores do território e demais interessados. As aulas vão acontecer tanto na sede da Redes na Nova Holanda quanto na Vila do Pinheiro, no turno da noite. Inscreva-se aqui. 

O Pré-Vestibular UniFavela também já abriu turmas para quem busca a tão sonhada vaga na faculdade. Até o dia 27/01 é possível se candidatar. Devido a pandemia, as aulas serão feitas online e no turno da noite. Inscreva-se aqui. Ambos projetos realizam uma pesquisa sobre o acesso às necessidades básicas para entender o perfil dos inscritos. 

Antes de abrir vagas para as turmas de 2021 que ocorrerão ainda neste mês, o Pré-Vestibular Comunitário do CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré) segue com candidaturas abertas para aqueles que pretendem ser professores voluntários do projeto. A reunião com os candidatos será feita dia 15/01, virtualmente. As aulas acontecem no Morro do Timbau, na sede do CEASM.  Inscreva-se aqui.

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