Revelações da Maré em 2018

Maré de Notícias #95 – Dezembro de 2018

Conheça pessoas, organizações e movimentos que fizeram a diferença na Maré neste ano

Por: Jéssica Pires

A capacidade de a Maré se reinventar para garantir o acesso a direitos básicos nós conhecemos bem, mas, por vezes, deixamos “passar batido” coisas incríveis que produzimos.  Na nossa última Edição de 2018, resolvemos dar o devido reconhecimento a profissionais, organizações e pessoas comuns que, dentro de seu segmento de atuação, trabalharam duro e fizeram a diferença neste ano tão complexo. Conheça algumas das muitas pessoas que se destacaram na Maré em 2018.

CAUSAS SOCIAIS

Especiais da Maré – mães solidárias em busca de direitos

O Especiais da Maré começou com um desejo da mãe de Pedro, de nove anos, morador do Parque União, que nasceu com paralisia cerebral. Alusca Cristina sempre teve de “correr atrás” para garantir as necessidades especiais do filho. Com isso, percebeu quantas outras mães passavam pelas mesmas questões e desafios que ela. Alusca e mais seis jovens mães da Maré estão à frente de um grupo de 110 mães de crianças e jovens especiais, que se organizam para ajudarem umas às outras. E elas têm um grande objetivo: garantir que um Centro de Reabilitação passe a funcionar na Maré. Coragem e garra é o que não faltam a essas grandes mulheres.

“É o início de uma caminhada longa, mas com vitórias. Não será fácil trazer para Maré um centro de reabilitação, mas não iremos desistir. Está sendo uma grande conquista poder dividir com tantas mães tudo o que eu consegui para meu filho. Nosso maior retorno é conseguirmos tirar uma criança de casa com sua mãe e ver essa mãe indo atrás dos direitos que o filho tem”.

 

ATIVISMO

Andreza Jorge – ativista da Maré

Andreza Jorge é ativista e escritora. Atua em projetos sociais voltados para questões raciais, equidade de gênero, empoderamento feminino, diversidade e sexualidade há mais de 10 anos. É coordenadora pedagógica da Casa das Mulheres da Maré, coordenadora e idealizadora do Projeto Mulheres ao Vento. Em 2018, conquistou o Prêmio da Revista Claudia, o maior da América Latina, na categoria “Revelação”.

“Toda minha vida foi dedicada ao desenvolvimento de trabalhos sociais não só no meu território, mas em diferentes espaços de favelas e periferias. No entanto, hoje posso dizer que consegui afinar meu desejo pessoal com o profissional, ao unir o trabalho social à arte e às agendas que mobilizam e impulsionam a mover estruturas de desigualdade”.

 

COMUNICAÇÃO

data_labe – organização que trabalha com dados e narrativas na favela da Maré

Dados, narrativas, jornalismo e favela. O data_labe se define como um “laboratório de dados”. Localizado na Nova Holanda, é composto por jovens de diversos bairros da cidade. A organização produz oficinas, reportagens e projetos com base em dados para entender melhor a cidade e as políticas públicas com foco nas favelas e seus moradores. Este ano, o grupo produziu matérias sobre a comunidade angolana da Maré, mulheres encarceradas, visibilidade lésbica e fake news, entre outras.

“Para nós, esse reconhecimento é uma honra! Acreditamos que a Maré está no centro dos debates mais importantes pra cidade. Sonhamos com um Rio mais justo, onde a favela e seus moradores sejam reconhecidos como parte fundante da cidade e mereçam os mesmos direitos que todos”. (Compilação dos depoimentos da equipe do data_labe).

EMPREENDEDORISMO

Wallace Costa – “O Rei das Unhas”

Foi fazendo a unha de uma amiga que Wallace Costa, o manicuro da Kelson, descobriu o gosto e o talento para a função. Quando percebeu que a profissão poderia lhe render frutos, Wallace deixou qualquer preconceito de lado e começou seu caminho como empreendedor. No início, eram de quatro a cinco clientes por semana, que ele atendia em um espaço cedido por um vizinho. Com o tempo, sua linha de serviços se expandiu: atualmente também aplica unhas de porcelana moldada, banho de gel, design de sobrancelhas, e ainda ministra cursos.

 “Ser revelação do empreendedorismo na Maré em 2018, pra mim é mais uma motivação para continuar e saber que estou indo pelo caminho certo. Se já cheguei até aqui, acredito que falta pouco pra chegar ainda mais longe, porque o sonho não para”.

ESPORTE

Rebeca de Lima Santos – boxeadora

Rebeca de Lima é uma das jovens que passaram pelas aulas de boxe da Organização Luta pela Paz. Porém, entre muitas de todo o Brasil, foi a primeira a conquistar medalha em um campeonato mundial juvenil. Seu interesse pelo esporte surgiu aos 7 anos, ao ver outras meninas treinando na Vila Olímpica da Maré. De lá pra cá, foram muitos treinos e também conquistas: a jovem já acumula o Campeonato Nacional de Boxe (2016), um cinturão de ouro na IV Copa Internacional de Boxe (2018, Guayaquil/Equador) e Medalha de Prata no Campeonato Continental (2018, Estados Unidos).

“O peso é tão grande que, às vezes, penso que não sei a grandiosidade da imagem que represento. Ouvir uma criança dizer que quer ser como você quando crescer é algo maravilhoso, pois elas são puras. É muito importante que se tenham exemplos a serem seguidos, histórias interessantes e surpreendentes para motivar, de pessoas que vivem uma vida não muito diferente da sua, que vieram do mesmo lugar que você”.

 

LITERATURA

Matheus de Araujo – poeta

Matheus de Araujo é da favela Rubens Vaz, estudante de Letras-Literaturas na UFRJ e teve seus poemas publicados na antologia poética “Poesias Flup Pensa 2016” e “Seis temas à procura de um poema”, em 2017, também na Festa Literária das Periferias. Este ano, lançou o livro “Maré cheia” e participou da programação oficial da 16ª Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP 2018. Além disso, é baterista, fotógrafo, amante do basquete e da dança e suas principais referências são os poetas negros.

“Ser uma revelação da Maré para a própria Maré é alçar voos por esse mundo sem esquecer da própria raiz. É poder falar dos nossos valores, nossa cultura, nossa própria história e mostrar para nós mesmos que nossa força sempre foi maior. Se existimos hoje, mesmo depois de décadas de chacinas autorizadas, é porque essa força é maior, sabemos o que é agir”.

MEIO AMBIENTE

Val – gari

Valdenise Brandão Ferreira é gari há 10 anos. Desses, e dois anos e meio na Maré. Ela planta, faz arte nos pneus e tudo o que está ao seu alcance para a transformação dos espaços públicos e do meio ambiente na Maré. Val é moradora de Belford Roxo, conta que antes mesmo de entrar para a Comlurb já se preocupava com as questões ambientais e considera que, principalmente, as favelas deveriam receber mais atenção.

“A Maré precisa de uma atenção melhor em relação à reeducação ambiental e a projetos como esses de plantio. Ela é carente de informação, tendo em vista que aqui é um dos únicos bairros onde tem coleta diária. Se colocassem árvores frutíferas ou hortas na margem do Rio, seria ótimo”.

MODA

Alessandro Fêrcar – modelo, bailarino e turbanista

Ainda pré-adolescente, Alessandro Fêscar descobriu a dança e nela identificou uma forma de autoexpressão, conhecimento e realização e se tornou bailarino afro. Atualmente, além de bailarino, trabalha como modelo e turbanista. A arte de confeccionar turbantes começou por volta de 2013, quando viu pela primeira vez uma pessoa usando o adereço, em um bloco afro na Lapa.

“Como parte desta “missão” que eu mesmo me coloquei, em toda a oportunidade que posso, incluo no meu trabalho algo que represente não só a mim, mas aos meus, para que outros possam reconhecer no meu trabalho os seus próprios corpos. Moda é representatividade, e quando não precisamos fazer com que se torne [moda]”.

MÚSICA

MC Natalhão

Seu envolvimento com o rap começou em 2014, quando participou das batalhas de rima na Roda Cultural de Bonsucesso. A rapper da Maré já participou da organização da Roda Cultural do Parque União, do Coletivo CJG e do Coletivo 226. Além disso, Natalhão é responsável pelo projeto social Maré de Rimas e já subiu no palco ao lado de nomes como Mos Def (de quem abriu o show com o coletivo Brutal Crew, responsável pela Batalha do Real) e Black Alien.

“Nossos sonhos são possíveis e na Maré há uma infinidade de pessoas talentosas que se perdem no caminho, às vezes por necessidade ou por não terem a oportunidade de exercitarem o melhor de si.É como se eu gritasse por todas essas pessoas que tiveram seus sonhos ceifados. A favela é o centro do universo, e ser revelada aqui dentro significa muito pra mim”.

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