Exclusivo: ‘’Estamos tentando evitar o fechamento completo’’, diz Daniel Soranz, secretário municipal de saúde do Rio

Exclusivo: ‘’Estamos tentando evitar o fechamento completo’’, diz Daniel Soranz, secretário municipal de saúde do Rio

Por Edu Carvalho, em 14/03/2021, às 6h, editado por Daniele Moura

Na semana em que se completa um ano do decreto de pandemia global por conta do novo coronavírus, o Maré de Notícias traça um diverso panorama sobre os impactos do vírus por todo o país, a começar pela capital do Rio de Janeiro. 

Sob a coordenação, desde 1º de janeiro, da Secretaria Municipal de Saúde, na era Eduardo Paes, Daniel Soranz, médico sanitarista e pesquisador brasileiro, está entre os especialistas que ganharam visibilidade ao longo dos últimos doze meses. Neste momento crucial de organização e planejamento para o combate ao coronavírus, Soranz tem sob sua gestão o desafio da expectativa pela chegada de mais doses do imunizante, a pressão pela adoção de medidas mais restritivas como o possível bloqueio total (lockdown) na cidade.  

Maré de Notícias: Como recebeu a notícia do decreto global da pandemia?

Daniel Soranz: A Organização Mundial de Saúde é uma instituição competente e atenta ao cenário da saúde em todos os países. As recomendações da OMS sobre a doença e a pandemia foram e continuam sendo muito importantes para orientar as ações brasileiras no enfrentamento dessa grave crise de saúde pública.

Maré de Notícias: Como avalia o quadro da covid-19 na cidade após um ano?

Soranz: Infelizmente, no ano passado, a situação do município do Rio de Janeiro foi bem crítica, muito em função de uma série de decisões de gestão equivocadas. Escolhas politiqueiras levaram ao desperdício de milhões de reais. Só para citar um exemplo, o hospital de campanha do Riocentro tinha custo mensal estimado em R$ 25 milhões, fora o gasto na instalação. Mas o número de internados na maior parte do tempo foi de 60 a 70. Isso dava cerca de R$ 360 mil por paciente ao mês, ou R$ 12 mil por dia. Os resultados seriam melhores se os valores fossem investidos na abertura de leitos nos hospitais da rede, que ficariam de legado para a cidade após a pandemias, e na Atenção Primária, para diagnosticar precocemente, rastrear e bloquear a cadeia de transmissão do vírus. Mas como o governo passado havia desestruturado a Estratégia Saúde da Família, o preço pago foi alto: uma das mais altas taxas de mortalidade entre as Capitais brasileiras. Em 2020, foram 17.671 mortos na cidade, com letalidade de 9,3% e mortalidade de 265,3/100 mil habitantes.

Maré de Notícias: Para você, hoje como secretário, quais foram os gargalos deixados pela gestão passada no plano de combate ao vírus?

Soranz: São muitos, não só diretamente ligados ao plano de combate à pandemia, mas questões referentes à rede em geral e que impactam também nos cuidados aos pacientes covid-19. 

Para começar, o caixa vazio e uma dívida imensa. Vários contratos importantes, como de alimentação hospitalar e vigilância, estão com meses de faturas atrasados. Serviço prestado em 2020 que não foi pago na ocasião e o débito acabou herdado por nós, sem que tenha sido deixado recurso em caixa para pagar. E essa dívida é ainda maior em função dos muitos gastos milionários e desnecessários da antiga gestão, principalmente relacionados ao hospital de campanha e à compra de mais de R$ 300 milhões em equipamentos da China sem que houvesse qualquer estudo prévio da necessidade desse material. Muitos desses equipamentos sequer foram desencaixotados e custam ao município, desde meados do ano passado, R$ 182 mil por mês em aluguel do depósito onde estão estocados. Ainda na questão das dívidas deixadas pelo governo Crivella, tem a do 13º salário dos servidores, incluindo os da saúde, que também não foi pago. São custos passados que a atual gestão terá que arcar exatamente no meio do combate à pandemia. 

Outro gargalo foi que a gestão passada desestruturou a Atenção Primária, demitindo mais de 6 mil profissionais de saúde, que fizeram falta para o diagnóstico precoce, rastreamento e bloqueio da cadeia de transmissão do vírus. Sem contar que, por falta de contratos de manutenção, já que a opção equivocada foi investir em outras áreas, as unidades de Atenção Primária foram precarizadas. A recomposição dos quadros da Atenção Primária e a recuperação das unidades são prioridades dessa gestão, para que possam desempenhar o papel importantíssimo e necessário no combate à pandemia.

Maré de Notícias: Na posse, houve a ação de se criar um comitê com especialistas à parte da Prefeitura. O grupo anterior não era?

Soranz: O que a gestão Crivella tinha era um colegiado de profissionais especialistas da própria Prefeitura para decidir as medidas que a gestão iria tomar. O Comitê Especial de Enfrentamento à Covid-19 da atual gestão é formado por especialistas de vários órgãos externos, que trazem sua expertise para auxiliar a Secretaria Municipal de Saúde na avaliação das medidas. Temos, por exemplo, especialistas da UFRJ e da Fiocruz, do Ministério da Saúde, da Unicef, além do ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, que quando estava à frente do Ministério enfrentou a epidemia da H1N1 com resultados bastante satisfatórios. Além disso, nossa gestão criou o Centro de Operações de Emergências – COE COVID-19 RIO, esse sim formado por profissionais de várias da Secretaria Municipal de Saúde, para monitorar a situação da doença na cidade e traçar o mapa de risco das regiões. A partir desse trabalho, são adotadas, conforme as faixas de risco, as medidas restritivas cabíveis, que estão muito bem definidas na Resolução Conjunta SES/SMS nº 871, de 12/01/21. 

Maré de Notícias: O Rio foi flexibilizando, ao longo de todo esse período, as medidas restritivas – no tocante à estabelecimentos e aberturas. Mas se foi percebido desrespeito no pós-festas de fim de ano e durante o período de Carnaval. Adotar uma posição mais firme não inibiria aglomerações?

Soranz: Somente a partir da Resolução Conjunta SES/SMS nº 871, de 12/01/21, é que o município do Rio passou a ter regras claras sobre quais medidas de proteção à vida adotar e em quais situações. Antes, as medidas eram decididas pela gestão passada sem clareza. Agora nós sabemos: com base nos números de internações e óbitos pela doença, sabemos qual é a faixa de risco daquela região e, conforme a faixa de risco, são adotadas tais medidas estabelecidas na resolução conjunta. Com base nisso, temos trabalhado bastante em ações de conscientização da população e de fiscalização. De 15 de janeiro a 10 de março, ações integradas entre a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), o Instituto de Vigilância Sanitária (Ivisa-Rio), a Guarda Municipal e a Defesa Civil realizaram 769 inspeções, com 482 Autos de infração e 135 interdições. A Prefeitura vem fazendo sua parte, tanto no que se refere à educação, quanto à fiscalização e punição. Mas é importante sempre deixar claro que a população também precisa fazer sua parte, seguindo as medidas de proteção à vida e, desta forma, colaborando para o combate à pandemia.

Maré de Notícias: O Painel Covid da Prefeitura mostra que há uma queda do número de casos e de mortes aqui na cidade, mas o mapa de risco apresentado pela SES mostra que todas as regiões ainda têm risco alto de contágio. Há possibilidade de uma terceira onda?

Soranz: Desde a semana anterior ao carnaval, a Prefeitura vem adotando uma postura de precaução, tendo em vista os cenários nacional e mundial da pandemia. Por mais que os números de internações e óbitos na cidade venham apresentando uma tendência de queda, vários estados brasileiros têm registrado alta de casos e, o que é mais preocupante, a circulação da novas variantes do vírus. No estado do Rio, já temos 25 casos detectados das variantes brasileira e britânica. Isso fez o COE COVID-19 RIO recomendar a manutenção de toda a cidade na faixa de risco alto, e consequentemente das medidas restritivas para esta faixa. A decisão foi corroborada pelo Comitê Especial de Enfrentamento da Covid-19. E esta foi uma medida preventiva acertada. Na última semana, depois que o monitoramento do COE COVID-19 RIO mostrou um leve aumento no número de atendimentos de casos suspeitos nas unidades de urgência e emergência, que são a ponta da rede  de saúde, mais uma vez, como medida de precaução corroborada pelo Comitê, a Prefeitura adotou novas medidas mais restritivas, justamente na tentativa de evitar uma nova onda da doença.

Maré de Notícias: O Rio poderia adotar lockdown?

Soranz: Os esforços da Prefeitura são para evitar a necessidade de um fechamento completo no futuro. Agimos antecipadamente, com zelo desde o carnaval e ainda mais na última semana. Sabemos que as medidas adotadas agora serão difíceis para alguns setores, mas é imprescindível que elas sejam seguidas, para evitar que amanhã ou depois os números de internação e óbito venham a crescer sem controle e nos obriguem a medidas drásticas, como o fechamento completo. Estamos tentando evitar o fechamento completo e precisamos muito da colaboração da população, fazendo sua parte.

Maré de Notícias: Há possibilidade de abertura de novas Clínicas da Família (muitas delas estão em favelas) e contratação de profissionais para o reforço – não somente nesse momento de vacinação – mas também para os atendimentos gerais de saúde do Rio?

Soranz: No momento, a prioridade da Secretaria Municipal de Saúde é recuperar a rede, que foi muito precarizada no governo Crivella. Precisamos recuperar as clínicas e CMS fisicamente, pois sofreram muito sem manutenção nos últimos anos; reabastecer com os insumos que a antiga gestão deixou que acabassem sem fazer novos processos de compra; e principalmente recompor as equipes, que tiveram mais de 6 mil demissões. Temos, sim, a intenção de retomar o plano de ampliação da rede de Atenção Primária que foi abandonado pela gestão Crivella, mas isso ficará para um segundo momento.

Edu Carvalho

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