Fora da contagem oficial

Foto: Ricardo Moraes – 18.mar.2020/ Reuters

Fora da contagem oficial

Iniciativas fazem os seus próprios levantamentos para mapear dados sobre a covid-19 de moradores de favelas, indígenas e quilombolas

Por Andressa Cabral Botelho em 11/03/2021 às 6h, editado por Edu Carvalho e Daniele Moura

Se para contabilizar os números de casos e mortes ao longo de um ano no Brasil foi criado um consórcio com veículos da mídia (TV Globo, G1, GloboNews, O GLOBO, Extra, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e UOL), o jornalismo comunitário e periférico, junto de organizações locais, também teve a necessidade de unir forças para dimensionar o que viam acontecer diretamente a cada beco ou esquina. Muitas vezes deixadas de lado, os números das favelas acabavam por ficar subnotificados nas secretarias municipais e estaduais de saúde. Com propósito de informar, os territórios também criaram seus painéis e boletins epidemiológicos, acompanhando dia a dia a disseminação do coronavírus. 

Uma dessas iniciativas é o Painel Unificador Covid-19 nas Favelas do Rio, uma articulação entre 20 coletivos de favelas das cidades do Rio, Itaguaí e Mesquita. O diferencial do painel é que ele utiliza uma série de metodologias de coleta de dados, como relatorias locais, identificação dos casos por meio de CEPs, dados coletados pelo Voz das Comunidades e dados das secretarias estadual e municipal de saúde. “Aliar essas diversas metodologias foi fundamental e é uma característica do nosso painel, pois assim ele não depende somente de dados públicos e faz assim como a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda: também contar casos suspeitos por avaliação de sintomas”, conta Theresa Williamson, diretora executiva da Comunicação Catalisadora, a ComCat, e uma das principais articuladoras do Painel. 

Além do levantamento, os coletivos do Painel pensam juntos em estratégias de comunicação para informar sobre a doença, cuidados e vacinação. O painel foi lançado em julho, mas antes do seu lançamento o grupo encontrava-se para pensar em metodologias para agrupar esses dados. Atualmente, o grupo tem discutido sobre algumas ações a serem tomadas para enfrentar a pandemia nesses territórios, como campanhas de conscientização nas ruas e redes sociais e mobilização pela vacinação. Ao longo de março, o coletivo pretende reforçar a ação de enfrentamento da covid-19 nas favelas, lançada no dia 10 de fevereiro, pensando em desenvolver uma série de materiais sobre a importância da vacinação de quem mora nas favelas.

Cartaz da campanha Se Liga no Corona!, um dos parceiros do Painel Unificador Covid-19 Nas Favelas do Rio. Crédito: Fiocruz

A Maré, de acordo com os dados do Painel Unificador, é, disparada, a favela com o maior número de casos por covid-19: são 3.155 pessoas infectadas, além de 170 mortes. Números que chocam aos olhos, tanto em comparação às outras favelas quanto ao número oficial apresentado pelo painel da Prefeitura do Rio – que em 14 de março era de 1.627 casos. Entretanto, é justamente o número do levantamento que se aproxima do real impacto da pandemia no território. Para realizar a contagem, foram utilizadas duas metodologias em dois momentos. A primeira se deu a partir do boletim De Olho no Corona!, projeto iniciado em março onde a equipe abriu um canal de diálogo com a população para fazer esse levantamento. Desta forma, além dos números oficiais do painel da Prefeitura, o boletim incluía o número de casos e mortes suspeitas, porém sem confirmação. A partir de agosto, o projeto Conexão Saúde – De Olho na Covid passou a realizar testes na Maré, além de oferecer isolamento às pessoas que testaram positivo e atendimento por meio da telemedicina. Com números concretos, a contagem deixou de ser pela relatoria de casos suspeitos e passou a ser a partir dos resultados de testes positivos para a covid-19, tornando possível ter uma dimensão maior e mais aproximada da situação do conjunto de favelas da Maré em relação à pandemia. 

Graças ao acompanhamento feito pelo painel é possível perceber que juntas, elas possuem mais casos que alguns países inteiros. Até 10 de março, as 228 favelas que fazem parte do coletivo registraram 32.597 casos e 3.503 mortes registradas, seja por fontes oficiais ou relatorias locais. E sim, são registros maiores que países como Austrália (com cerca de 29 mil casos e 909 mortes), Tailândia (cerca de 26,4 mil casos e 85 mortes) Angola (cerca de 21,1 mil casos e 515 mortes) e Haiti (aproximadamente 12,5 casos e 251 mortes).

A contagem a partir do Alemão

Outra iniciativa, também na cidade do Rio, foi o Painel Covid-19 Nas favelas, desenvolvido pelo portal Voz das Comunidades. O levantamento existe desde abril de 2020 e hoje reúne dados de 25 favelas da cidade. O site é atualizado diariamente utilizando os dados oficiais do painel da Prefeitura, além de considerar também informações das Clínicas da Família das favelas, que indicam casos suspeitos de covid-19.

O projeto começou quando o coletivo percebeu que muitas pessoas dos Complexos do Alemão e Penha que estavam com covid-19 eram contabilizadas em bairros próximos, como Bonsucesso, Ramos, Olaria, sobrecarregando os números desses bairros e subnotificando as favelas.

“Nós sabíamos de duas pessoas do Alemão com covid-19 constando no painel, mas na verdade tinham 10, 15 pessoas no nosso conhecimento. Tinham pessoas que faziam o teste em Bonsucesso e esse resultado acabava constando com esse bairro e não Alemão”

conta Melissa Cannabrava, coordenadora de comunicação do Painel.

Em junho, por exemplo, o boletim De Olho no Corona! destacou justamente esse ponto: enquanto Bonsucesso, com mais de 18,7 mil habitantes possuía 448 casos confirmados e 57 óbitos, a Maré, com cerca de 140 mil moradores, tinha 229 casos e mortes. Deste modo, o  levantamento entendia que parte dos casos do conjunto de favelas era notificado como casos do bairro vizinho.

Melissa destaca, ainda, que os dados fornecidos pelas unidades de saúde nas favelas foram de extrema importância para ter uma dimensão maior dos números, tendo em vista que a Prefeitura considerava apenas os casos confirmados mediante testagem. “A Clínica da Família apontava para cinco casos suspeitos. Esse dado entrava no nosso painel, mas não no da Prefeitura, que só constava casos confirmados”. 

Povos originários em situação de invisibilidade

Não muito diferente daqueles que moram nas favelas e periferias, os povos originários também vêm sofrendo com descaso e subnotificação dos casos de covid-19 e da mesma forma, optaram por criar boletins e painéis de contagem que contemplem as suas populações. Desde maio, organizações indígenas e quilombolas de diversas regiões do país têm encaminhado as suas informações sobre o impacto da covid-19 em seus territórios para desenvolver boletins.

No caso dos indígenas, a contagem é feita pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que desde maio faz um levantamento apontando a quantidade de povos indígenas impactados pela doença, assim como os números de casos e mortes pelo novo coronavírus. De acordo com o último boletim da Apib, de 08 de março, 163 povos indígenas foram afetados, com cerca de 50 mil pessoas infectadas e 991 mortos em decorrência da doença.

Assim como nas favelas, existe uma subnotificação, tendo em vista que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) contabiliza apenas o número de casos de indígenas em aldeias e reservas, excluindo aqueles que vivem nas cidades. Em contexto urbano, esses indígenas são contabilizados como pardos, subnotificando o número de indígenas mortos e sobrecarregando o número de negros. Outro fator que dificulta a contagem por parte da Sesai é o medo que alguns indígenas em contexto urbano têm de sofrerem racismo, algo bastante recorrente, de acordo com o Relatório Apib.

Semelhante à Apib, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) criou um comitê de enfrentamento à covid-19, que realiza desde o levantamento de dados até elaboração de um plano de vacinação junto a órgãos do governo federal. Os quilombos rurais carecem de estrutura básica, como fácil acesso a saneamento básico, vivendo em situação de vulnerabilidade social, impossibilitando essa população a ter os cuidados básicos de higiene necessários neste momento. Um outro fator agravante, segundo o Observatório da Covid-19 nos Quilombos, desenvolvido pela CONAQ em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) é o não reconhecimento dessas pessoas como quilombolas durante o atendimento, o que ajuda a diminuir o número real de casos e mortes.

Até o dia 08 de março, data do último boletim epidemiológico da CONAQ, foram 5.013 pessoas contaminadas e 212 quilombolas que morreram em decorrência do novo coronavírus. Destas mortes, 38 foram no estado do Rio, o segundo do país em número de óbitos de remanescentes de quilombolas, ficando atrás apenas do Pará, com 61 mortes.

A luta pela vacinação 

Em 24 de fevereiro, o Supremo Tribunal Federal aprovou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 742, com o objetivo assegurar a vida e a saúde quilombola na pandemia da covid-19. Diferente dos povo indígenas, os quilombolas não foram incluídos em nenhum dos grupos prioritários do plano de vacinação contra a covid-19 e com a conquista do último mês, o governo federal tem até um mês para desenvolver um plano de combate ao novo coronavírus voltado para as comunidades quilombolas. “O STF dá um passo importante ao reconhecer o direito de quem é de direito. As comunidades são um grupo numeroso e a população negra é que mais morre pela covid por não conseguir acesso a saúde, essa decisão nos faz avançar na equidade”, destaca Biko Rodrigues, um dos coordenadores da CONAQ. 

No mesmo mês, diversas organizações se articularam para lançar no dia 10 de fevereiro o Dia Estadual de Mobilização para Enfrentamento da COVID-19 nas Favelas do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir de forma prioritária a vacinação para a população que mora nas favelas e periferias do estado do Rio. 

“A população favelada e periférica deve ter prioridade na vacinação por alguns fatores. Primeiro porque geralmente estes territórios são mais precarizados em relação ao acesso à água, a questão da moradia – com famílias grandes e moradias pequenas onde todo mundo tem muito contato o tempo todo -, o que dificulta a contenção do vírus. Em segundo lugar porque são as pessoas que moram nestes territórios que trabalham em diversas áreas, inclusive áreas essenciais, embora não listados como tal”, observa Douglas Heliodoro, membro do Coletivo Conexões Periféricas, de Rio das Pedras, Zona Oeste da capital fluminense. Para Douglas, a vacinação para moradores de favelas e periferias é fundamental pois, por mais que se more na favela, essas pessoas precisam se deslocar pela cidade para trabalhar e, assim, permitem que haja uma circulação ainda maior do vírus. 

Andressa Cabral Botelho

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