Funk conquista o mundo, mas ainda quer mais

Tradição dos eventos de funk é forte, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro. Na foto, baile realizado no Parque União – Foto: Matheus Affonso

Funk conquista o mundo, mas ainda quer mais

Ritmo coleciona sucessos e influencia a indústria musical, mas ainda busca o respeito reservado a outros estilos na cultura brasileira

Maré de Notícias #131 – dezembro de 2021

Por Gracilene Firmino 

Com o título Funk ainda em busca de reconhecimento, uma das matérias de capa da primeira edição do Maré de Notícias (2009) falava da luta dos funkeiros para conquistar seus espaços. Mais de uma década depois, o ritmo musical segue criminalizado mas, em contrapartida, cada vez mais artistas chegam ao sucesso por meio do funk, como os moradores da Maré DJ Rennan Valle e Preta QueenB Rull.

Aos 26 anos, Rennan de Jesus dos Santos, o DJ Rennan Valle, é compositor e produtor musical e cultural. Tocando nas comunidades do Rio desde os 13 anos, ele se diz influenciado por diversos gêneros musicais. “Diferenças sociais e culturais, além da criminalização do funk carioca, um gênero que vive sofrendo perseguições por ter surgido nas comunidades, me perturbam, mas também moldaram quem sou hoje”, diz. Cursando Produção Musical, desenvolveu uma paixão por composição. Suas canções já foram tocadas em rádios pelo Brasil. Morador da Nova Holanda, ele começou a produzir em 2011; é um dos apoiadores do funk 150 bpm e um dos primeiros incentivadores dessa vertente na Maré. Rennan Valle é ativo na cena do ritmo, realizando shows pelo Brasil.

DJ Rennan Valle é cria da Maré e toca nas comunidades do Rio desde os 13 anos. Compositor se diz influenciado por diversos gêneros musicais – Foto: Matheus Affonso

Marcos Carvalho, 22 anos, é mais conhecido como a Preta QueenB Rull. O artista é do Parque União, também cria da Maré, e conta que sua relação com o funk é forte e veio da infância. “Estou no funk desde quando era bem pequeno, vim de uma família que é muito funkeira, cresci vendo os DVDs da Furacão 2000. Sempre quis viver a arte do funk. Meu primeiro show como funkeira foi em 2019, na Parada do Orgulho Gay da Maré. Pra mim, o funk é um estilo de música que faz todos dançarem. A energia que eu sinto quando estou no palco cantando minhas músicas é única. O funk faz você dançar, viver, sorrir”, afirma. 

Reconhecimento, indústria cultural e ‘bom gosto’

O funk carioca ganhou o mundo; mesmo assim, o preconceito contra ele permanece. Com décadas de existência, apenas em julho de 2021 o Grammy Latino anunciou a inclusão do funk brasileiro na categoria Música Urbana, ao lado de gêneros como rap, reggaeton, R&B e trap.
Artistas de grande sucesso no Brasil incluem o funk em seus repertórios e já fizeram com que o ritmo fosse reconhecido internacionalmente. A música Vai Malandra, da cantora Anitta, é um de seus hits baseados no funk carioca. O videoclipe, gravado no Vidigal, ultrapassou a marca de 500 mil visualizações no YouTube em apenas 20 minutos, tornando a música um sucesso. Essa é a melhor estreia brasileira na plataforma de vídeos, com oito milhões de views em menos de oito horas. Vai malandra chegou ao 18º lugar do ranking de músicas mais ouvidas no mundo no Spotify; foi a primeira em português a entrar no top 20 global da plataforma de streaming. 

A canção 24 Horas por Dia, de Ludmilla, que também conta com a forte batida do funk, foi lançada em 2015. O videoclipe da música chegou ao 46º lugar na parada musical Billboard Brasil Hot 100 Airplay e nas melhores posições de estações de rádios do Brasil naquele ano. Tanto Anitta quanto Ludmilla tiveram seus rostos estampados nos famosos painéis de LED da Times Square, em Nova York (EUA): a primeira em 2017, com Downtown, e a segunda este ano, com a música Socadona

Preconceito e perseguição

Mesmo com tanto sucesso, ambas já sentiram na pele e falaram sobre o preconceito em relação ao funk. Em março de 2021, a apresentação das cantoras americanas Cardi B e Megan Thee Stallion na entrega dos prêmios Grammy incluiu um trecho de WAP, remix do DJ e funkeiro Pedro Sampaio. Isso bastou para gerar críticas ao ritmo. À época, em entrevista ao portal Mundo Negro, Ludmilla disse que aquela não era a primeira nem seria a última vez que o funk carioca sofreria preconceito, principalmente por ter sua origem nas favelas e periferias e ser difundido por pessoas negras. 

Anitta, por sua vez, escreveu um artigo para a revista Época defendendo o estilo musical carioca. A cantora de Honório Gurgel falou sobre a importância do funk, não apenas cultural, como também financeira: “O valor é muito alto. Não só como entretenimento, mas também econômico. Os ‘batidões’ movimentam a carreira de muitos cantores, compositores, produtores, músicos, escritórios, staff, agências, publicidade e, claro, o mercado fonográfico.” 

O preconceito, porém, vai além da crítica musical: em março de 2019, a Justiça do Rio emitiu 11 mandados de prisão para homens envolvidos no Baile da Gaiola, o maior evento de funk do Rio, realizado na Vila do Cruzeiro. Entre os acusados, estava Rennan da Penha. Ele foi condenado por associação ao tráfico de drogas a seis anos e oito meses de prisão (cumpriu sete meses). Em entrevista ao canal no YouTube do influenciador Lucas Selfie, Rennan disse que perdeu oportunidades profissionais e ficou com a vida suspensa por um ano e meio. “Tô na comunidade, fazendo baile, o Estado não mudou a situação lá, a culpa é minha?”, disse o artista, em julho deste ano. 

Sobre presente e futuro

Funk melody, ostentação, ousadia, proibidão, new funk, eletrofunk, brega funk, 150 BPM. As possibilidades e vertentes são muitas. Mas para quem vive a cena, como o funk é visto agora? “Hoje em dia, acho que muitos vêem o funk de forma diferente. O gênero ganhou até uma série,a ‘Sintonia’. E muitos lutaram para que isso acontecesse. Se você quer agitar, animar uma festa, vai tocar um funk. Existe mais respeito, antigamente havia mais preconceito. Estamos em outro patamar. Temos funks virais, que tocam no mundo todo, como ‘Baile de favela’. O ritmo vem ganhando seu espaço. Muita coisa mudou ao passar dos anos”, conta Renan Valle. 

Já QueenB Rull acredita que ainda há um caminho a percorrer. “Acho que melhorou bastante. O funk carioca é sensação nacional, bomba no Brasil inteiro. Os estigmas devem ser todos quebrados! Ainda temos muito que mudar”. E fala sobre quem veio antes dele. “Eu respeito muito as mulheres que começaram no funk, Tati Quebra Barraco, Mc Carol de Niterói, Ludmilla, Anitta, entre outras artistas do ramo, que me tornaram hoje a QueenB. Ainda o funk é criminalizado. O preconceito e ignorância de alguns que não sabem respeitar o que é cultura favelada! Assim como foi com o samba hoje acontece nas favelas. Mas o funk é sobre realidade, cultura preta e sei que meu lugar hoje aqui é trazer essa minha voz que eu vivo. Cantando o que eu sou, o funk!

Preta QueenB relata que sua relação com o funk é forte e veio da infância – Foto: Matheus Affonso

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Gracilene Firmino

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